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quinta-feira, 28 outubro, 2021

Púrpura Trombocitopênica Imune | A cor do perigo

Revista Mensal
Emmanuel Emídio Maciel de Castro
Emmanuel Emídio Maciel de Castro é apaixonado pela medicina, em todos os aspectos bioquímicos e fisiológicos. Desde criança sempre gostou da E astronomia, música e medicina. As duas primeiras escolheu para hobbies e a última como profissão, um sacerdócio para toda a vida.

Conheça a doença que está intrigando a comunidade médica nesse período de pandemia

A trombocitopenia imune (púrpura trombocitopênica imune, PTI) é um distúrbio hemorrágico – sem necessariamente causar anemia ou leucopenia – causado pela diminuição do número de plaquetas (trombócitos), que ocorre em uma pessoa que não tem outro distúrbio que afeta as plaquetas. Tipicamente, é crônica em adultos, mas quase sempre é aguda e autolimitada em crianças.

Ou seja, essa fisiopatologia faz com que nosso corpo produza anticorpos contra suas próprias plaquetas, que são destruídas. A situação pode ser grave devido ao papel que as plaquetas têm em nosso organismo.

Em adultos, a PTI costuma ser prolongada (crônica). Já em crianças, a PTI, geralmente, se soluciona ‘sozinha’. São autoimunes os distúrbios nos quais os anticorpos se formam e destroem as plaquetas do corpo. Não se sabe por que os anticorpos são formados; contudo, em crianças, a PTI, normalmente, ocorre após uma infecção viral.

O que são as plaquetas?

Elas são formadas a partir de megacariócitos – células gigantes polinucleadas -, as plaquetas permanecem em circulação por 5–7 dias e funcionam principalmente como reguladores da hemostasia e trombose.

Após uma lesão vascular, as plaquetas tornam-se ativadas no sangue resultando na adesão à matriz extracelular exposta subjacente ao endotélio, formando um tampão plaquetário e, finalmente, consolidando um trombo. As plaquetas também são componentes da nossa imunidade inata: a resposta imunológica “generalista”.

Créditos da Imagem | Pixabay

Portanto, mesmo que a medula ainda trabalhe a todo vapor, os efeitos autoimunes causados PTI são mais amplos que a nossa capacidade de repor plaquetas na circulação sanguínea. Em alguns casos mais graves, os anticorpos também começam a destruir a medula óssea (reduzindo as células que fabricam as plaquetas).

Isso acaba gerando uma grave falha no nosso mecanismo que tem a função de “vedar” os machucados, para que nosso corpo consiga fazer a regeneração do tecido lesionado.

Sintomatologia

Hemorragia na pele pode ser o primeiro sinal de uma baixa contagem de plaquetas. Muitos pontos vermelhos diminutos (petéquias) aparecem com frequência na pele da parte inferior das pernas e pequenas lesões podem causar hematomas pretos e azulados (equimoses ou púrpura).

Créditos da Imagem | Portal Dermato Patologia | https://dermatopatologia.com/doenca/purpura-trombocitopenica-idiopatica/

As gengivas podem sangrar e pode aparecer sangue nas fezes ou na urina. Os períodos menstruais ou hemorragias nasais podem ser incomumente intensos e pode ser difícil interromper a hemorragia, que se agrava à medida que o número de plaquetas se reduz.

As pessoas com escassez de plaquetas podem perder grandes quantidades de sangue em seu trato digestivo ou sofrer hemorragias cerebrais com risco à vida, apesar de não terem sofrido qualquer lesão. Pode ocorrer dor de cabeça com sangramento dentro do cérebro.

Fato intrigante

Em adultos, a PTI sempre fora classificada como uma condição rara, tendo poucos casos registrados pela literatura médica. Entretanto, desde o primeiro semestre de 2020 que se tem notado as crescentes notificações de adultos diagnosticados com PTI. A princípio, os primeiros casos surgiram pós-infecção por Covid-19. Porém, com decorrer do início das vacinas contra o SARS-CoV-2 (o Betacoronavirus causador da Covid-19), inúmeros outros casos surgiram em pessoas que foram vacinadas e não tiveram histórico de infecção. Essa situação é complexa e tem deixado os infectologistas em alerta.

Outrossim, esses casos estão sendo estudados e logo teremos mais clareza e elucidações a respeito deles. Dessa forma, não há motivos para pânico, pois – ainda – não há evidências técnicas que associem esses casos de PTI em adultos com as vacinas contra o SARS-CoV-2, visto que os primeiros casos surgiram antes mesmos dos primeiros lotes serem disponibilizados.

Outra situação intrigante foram as notificações de diversos casos de púrpura trombocitopenia Trombótica (PPT). No Reino Unido a faixa etária para vacinação foi limitada, por conta dos diversos casos coágulos pós vacina.

Crédito de Imagem | Tatiana Shepeleva | Shutterstock.com

Com relação aos casos de trombocitopenia trombótica que têm surgido na mídia, sob suspeitas de relação com vacinação, na tentativa de estudar a fisiopatologia de tais complicações, investigadores pesquisaram a presença de anticorpos contra o complexo heparina/fator-4-plaquetário em alguns indivíduos, a qual foi positiva, sugerindo mecanismos imunológicos na trombocitopenia trombótica induzida pela vacina, tal como ocorre na trombocitopenia induzida por heparina tipo II. Um dado inusitado é que na maioria dos casos, as pessoas que tiveram PTI não haviam sido expostos à heparina, o que em tese, não deveria ser possível.

Mecanismos fisiopatológicos

Créditos da Imagem | Primera Edición

O fator-4-plaquetário é uma proteína liberada pelas plaquetas que possui alta afinidade pela heparina, formando um complexo heparina/fator-4-plaquetário. Na presença dos anticorpos, ocorre ativação plaquetária com consequente aumento do risco trombótico.

A trombocitopenia resulta da remoção de plaquetas ligadas aos anticorpos pelo sistema reticuloendotelial e ao consumo de plaquetas pela formação de trombos.

Portanto, essas vacinas podem ter associação com o desenvolvimento de trombocitopenia e trombose mediadas por anticorpos contra o fator-4-plaquetário, mimetizando clinicamente a trombocitopenia induzida por heparina.

Referências

Immune thrombocytopenia. National Heart, Lung, and Blood Institute. https://www.nhlbi.nih.gov/health-topics/immune-thrombocytopenia. Accessed Feb. 21, 2019.

Ferri FF. Immune thrombocytopenic purpura. In: Ferri’s Clinical Advisor 2019. Philadelphia, Pa.: Elsevier; 2019. https://www.clinicalkey.com. Accessed Feb. 21, 2019.

Thrombosis and Thrombocytopenia after ChAdOx1 nCoV-19 Vaccination – NEJM

https://emedicine.medscape.com/article/202158-overview#a1

http://www.htct.com.br/en-purpura-trombocitopenica-imune-secundaria-a-articulo-S2531137920312165

Holinstat M. Normal platelet function. Cancer Metastasis Rev. 2017;36(2):195-198. doi:10.1007/s10555-017-9677-x

https://www.msdmanuals.com/pt-br/casa/dist%C3%BArbios-do-sangue/dist%C3%BArbios-das-plaquetas/trombocitopenia-imune-pti


Tiveste sede de sangue, e eu de sangue te encho

— Dante Alighieri

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