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domingo, 5 dezembro, 2021

Fadiga pós-refeição | Um freio biológico

Revista Mensal
Emmanuel Emídio Maciel de Castro
Emmanuel Emídio Maciel de Castro é apaixonado pela medicina, em todos os aspectos bioquímicos e fisiológicos. Desde criança sempre gostou da E astronomia, música e medicina. As duas primeiras escolheu para hobbies e a última como profissão, um sacerdócio para toda a vida.

Saiba o como e o porquê ocorre o fenômeno biológico da ”preguiça pós-refeição

Se existe uma coisa que muitos adoram, é aquela soneca após o almoço! Lógico, nem todos têm tempo disponível para desfrutarem de uma “soneca” após uma refeição. Essa preguiça e falta de ânimo após uma refeição acaba sendo uma situação indesejável.

Contexto social

Ora, as sociedades urbanas são dinâmicas, apressadas e tentam impor uma vida de cobranças e estresses na qual o tempo é escasso para a maioria dos adultos. O tempo escasso contribui para refeições rápidas e para a baixa preocupação com os alimentos ingeridos. A junk food agradece, já o seu organismo…

Questionamento

Você já parou para pensar o porquê de tantas pessoas sentirem essa sonolência após grandes refeições? Lógico, o comum é pressupor que isso deva estar correlacionado com a refeição e os seus processos – fisiológicos e bioquímicos – gerados após a alimentação.

Tal raciocínio não é ilógico, mas, em situações normais, o ideal é sentirmos disposição após uma refeição. Portanto, a refeição – por si só – não é a justificativa para esse fenômeno.

A sinalização de fadiga e preguiça, após a refeição, está correlacionada na forma a qual nos alimentamos. Pois, pode haver mudanças – fisiológicas e bioquímicas – e sinalizações biológicas que acarretam na sonolência pós-refeição.

Mecanismos biológicos

Não há um fator isolado que cause a fadiga pós-refeição. Porém, veja quais são os principais fatores envolvidos:

Insulina alta

Durante o jejum, um indivíduo saudável terá uma baixa concentração de insulina na circulação sanguínea. O nosso corpo está usando o Glucagon (hormônio antagônico da insulina, ou seja, produzido e secretado na circulação sanguínea na ausência desta) para retirar açúcar das reservas de glicogênio do fígado.

De forma instintiva, quando estamos nessa situação (e acordados), o nosso organismo cria um estado de constante alerta, pois, as catecolaminas são produzidas nesse cenário fisiológico de baixos níveis de insulina e geram estímulos de alerta.

Essa situação nos dá condições físicas para caçar, mesmo após 2 dias sem alimentos. Logo, quando usufruímos de uma refeição, esse cenário hormonal muda.

Os níveis de insulina sobem, principalmente, em dietas desbalanceadas e ricas em carboidratos simples e de alta densidade calórica. Portanto, quando ingerimos comida em excesso, especialmente rica em carboidratos, geramos uma megaprodução e secreção de insulina.

Uma alimentação desequilibrada gera um estímulo favorável ao descanso, resultando numa sensação de preguiça e desânimo.

Rebote pós-insulina

Essa situação é a continuação e um agravamento da anterior. Entenda que o nosso corpo encara como ameaça quaisquer estímulos e descompensações, logo, agirá para eliminar a situação anormal detectada. Isso se chama homeostase metabólica.

Todavia, mediante uma grande ingesta de alimentos, o nosso pâncreas – órgão produtor da insulina – trabalhará de forma proporcional a esse estímulo, pois, nosso intestino absorverá grandes quantidades de açúcar e demais micro e macro nutrientes. Quanto maior é a oferta de açúcar na refeição, maior serão os níveis de produção e excreção de insulina necessários para a metabolização dos nutrientes ofertados.

É importante ter em mente que – tecnicamente falando – todos os carboidratos são açúcares, pois, são formados pela junção de inúmeros monossacarídeos, via ligação glicosídica. É na forma de monossacarídeos (açúcar) que eles adentram a nossa corrente sanguínea.

Por conta de uma eventual ingesta excessiva de açúcar, seguida de uma grande – e rápida – excreção de insulina, ocorre uma abrupta metabolização desses macronutrientes. Os altos níveis de insulina liberada são suficientes para “jogar” esse açúcar para dentro das células (onde ele é útil ao nosso organismo, pois, é lá que gera a respiração celular, processo esse iniciado pela oxidação da glicose). Mas, níveis altos de insulina acabam gerando baixas quantidades de açúcar na corrente sanguínea, resultando numa escassez sanguínea desse macronutriente, poucos minutos depois da refeição.

O cérebro usa a glicose como fonte principal de energia, devido ao grande gasto e a rápida oferta de energia que a glicose oferece. Logo, baixas ofertas de açúcar incorrerão numa momentânea depressão do nosso sistema nervoso central

A normalização metabólica ocorrerá minutos depois, quando o hormônio glucagon (também produzido e excretado pelo pâncreas) faz o organismo liberar açúcar na circulação sanguínea, mediante a retirada de parte do estoque de glicogênio que possuímos no fígado.

Alcalose pós-prandial

É importante saber que ao ingerirmos um alimento, o corpo começa o processo de digestão (quebra mecânica dos alimentos) há partir da mastigação e de enzimas encontradas na saliva (ex: Amilase, que inicia a quebra química de carboidratos). Essa digestão tem que ser continuada por outras partes do nosso aparelho digestório, pois, a que fora iniciada na boca é insuficiente para quebrar os macro-nutrientes ao tamanho adequado para que possam ser absorvidos e, em alguns casos, a digestão só inicia no estômago (ex: proteína, através da enzima pepsina e ácido clorídrico, gerando quebra por hidrólise). O principal agente digestivo que o estômago produz é um fluido chamado ácido clorídrico, popularmente conhecido suco gástrico ou ácido gástrico.

Sendo o estômago um local ácido, não em razão de sua natureza, mas, em decorrência dos fluidos que sua células produzem e secretam. Portanto, o corpo precisa ter um substrato que seja o insumo adequado para que as células parietais do estômago produzam o ácido clorídrico (HCL). Essa produção pode ocorrer em excesso, devido ao volume alimentar ingerido, ou a uma desordem alimentar. Mediante essa situação, o organismo priorizará o processo digestivo.

O corpo entende que os nutrientes eram ou são bem mais escassos – e prioritários, por isso, os seres humanos conseguem ficar dias em jejum, poia o nosso organismo prioriza a máxima estocagem de nutrientes (reserva energética). Dessa forma, retirará compostos (ex: íons de hidrogênio) do sangue e redirecioná-los para as células parietais, para usá-los como insumos na produção de HCL. Essa situação deslocará o pH sanguíneo (um marcador de acidez do sangue) para níveis próximos ao limite de alcalose – sendo o oposto de ácidose – máximo tolerável (pH 7,45).

Apesar de não ser o cenário ideal, ainda não é o suficiente para causar danos ao nosso organismo. Clinicamente, esse cenário final é chamado de alcalose pós-prandial.

Em decorrência disso, o cérebro perceberá essa quase alcalose e entenderá que você não tem uma situação bioquimicamente adequada – e segura – para fazer suas atividades do cotidiano. Então, o mesmo gerará uma resposta fisiológica ao estilo “fica quieto ai um pouquinho até as coisas normalizarem“.

Deslocamento sanguíneo

Durante o processo alimentar, o corpo prioriza enviar maiores volumes de sangue justamente para o sistema digestório. Isso visa maximizar e acelerar os processos envolvidos, para uma absorção mais rápida e eficaz de nutrientes.

Logo, se há mais sangue no aparelho digestório (que é grande), também há mais de seus compostos (orgânicos e inorgânicos). Ademais, o oxigênio é temporariamente ofertado em menos concentrações aos outros sistemas e órgãos, inclusive, ao cérebro.

A diminuição – mesmo que rápida – na oferta de oxigênio, gera um leve “desligamento” das funções cerebrais relacionadas com as funções de atenção e alerta, fazendo o indivíduo ter preguiça e sono. Isso ocorre porque o cérebro priorizará a manutenção de suas funções que sustentam a vida, pois, por alguns instantes, a oferta de oxigênio está menor. Lembre-se de que a respiração celular é o mecanismo de geração (por meio do síntese de adenosina-trifosfato, ATP) de energia para as células e esse processo usa o oxigênio em uma de suas etapas.

Atenção

Esse artigo tem o caráter meramente informativo e visa o compartilhamento de informações para o conhecimento do leitor interessado no assunto. Em nenhum momento essas informações sustentam ou apoiam a automedicação e não excluem a necessidade da consulta, prescrição e tratamento com um profissional devidamente qualificado.

Referência

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Carlin K, Carlin S. Could the defect in type II diabetes mellitus be the absence of a postprandial alkalosis? Med Hypotheses. 1994 Jul;43(1):19-20. doi: 10.1016/0306-9877(94)90044-2. PMID: 7968716.


A preguiça gasta a vida, como a ferrugem consome o ferro

— Marquês de Maricá

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