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domingo, 28 novembro, 2021

Cafeína e seus efeitos adversos | Nem tudo são “flores”

Revista Mensal
Emmanuel Emídio Maciel de Castro
Emmanuel Emídio Maciel de Castro é apaixonado pela medicina, em todos os aspectos bioquímicos e fisiológicos. Desde criança sempre gostou da E astronomia, música e medicina. As duas primeiras escolheu para hobbies e a última como profissão, um sacerdócio para toda a vida.

Entenda porquê algumas pessoas experimentam efeitos colaterais indesejados ao consumirem alimentos e suplementos que contêm cafeína

A cafeína (1,2,3-trimetilxantina) é uma substância da classe das xantinas e um alcalóide psicoestimulante (simpaticomimética) com afinidade e capacidade de estimular os receptores alfa e beta adrenérgicos.

Um dado notório é que a cafeína é a droga mais usada do mundo. Ora, tecnicamente falando, seu mecanismo de ação até pode ser semelhante ao da cocaína. Entretanto, os colaterais e os níveis de estímulos – e vício – são extremamente menores, além de que, em doses moderadas, a cafeína possue diversos benefícios para a saúde humana.

Portanto, é grosseiro fazer alguma relação direta entre tais substâncias (cafeína e cocaína). Pois, as suas semelhanças se limitam ao mecanismo de ação – sendo uma alopração traçar quaisquer similaridades em relação a toxicidade, dependência e danos a saúde.

Ademais, é inegável que a cafeína possui efeitos adversos – a depender da dose ingerida. Esses efeitos – geralmente – são resultados de medidas fisiológicas (homeostase) de contraposição aos efeitos da cafeína no nosso organismo, ou são colaterais gerados por uma mega-estimulação (mesmo em baixas doses, para os indivíduos que possuem baixa tolerância a cafeína). São elas: Dores de cabeça; Náuseas; Ansiedade; Depressão e Tremedeiras.

Conhecendo a cafeína

Em geral, o café é considerado um aliado que  ajuda-nos a enfrentar uma rotina de trabalhos e/ou estudos diários. Pois, além de seu aroma (por muitos apreciado), o café é rico em cafeína.

Quando tomamos um café – não descafeinado -, sentimos um “up” em seguida, não é? É como se ganhássemos mais disposição e energia para as atividades. Usando uma metáfora automobilística, é como uma turbina que ajuda o motor de um veículo a ter mais potência.

Créditos da Imagem |  Dina Nasyrova | Via Pexels

É necessário esclarecer que toda essa sensação – que tanto apreciarmos –  ocorre por uma ação indireta da cafeína, ou seja, não há geração de energia. Na verdade a cafeína impede/atrapalha que nosso corpo gere a sensação de cansaço e sono. Calma, que explicarei.

Quando fazermos alguma atividade desgastante por um período contínuo, o nosso corpo produz adenosina – por meio do L-Triptofano -, um neurotransmissor que possui a função de controlar algumas funções em nosso corpo, como por exemplo, temperatura e pressão arterial, e é claro, a sensação de fadiga.

A cafeína age no córtex cerebral e centros moduladores, sendo que possui afinidade com os mesmos receptores que a adenosina. Por rivalizar ligações pelos mesmos receptores, impede que a adenosina se ligue nos sítios destes. Por isso, o nosso corpo tem dificuldade de gerar – adequadamente – o estímulo que resulta na sensação de cansaço e desânimo.

Vale salientar que ambas as sensações são comuns após horas de trabalho/estudo, mas podem continuar presentes pelas manhãs – ao acordarmos. Nesse caso, o cansaço e/ou desânimo matutino é fruto do desgaste gerado no dia anterior. Porém, fadiga e desânimo matutinos também podem ocorrer devido situações como, tempo de descanso insuficiente ou uma péssima noite de sono.

Por que sentimos esses efeitos colaterais?

Com relação a cafeína, “nem tudo são flores”. Como eu afirmei no início desse artigo, a cafeína possue colaterais, alguns deles inclusive são totalmente opostos ao que se deseja ao tomar uma bebida (ou suplemento, geralmente na forma de cafeína anidra) que contém cafeína, ou alguém ingere cafeína em busca de episódios depressivos ou tremedeiras? Calma que – de forma resumida – eu irei comentar o porquê desses colaterais.

Fato número 1

O nosso corpo é uma máquina inteligente e um organismo reativo, sensível às mudanças fisiológicas, possuindo mecanismos de combate ou adaptativos para diversos cenários (que ainda sejam compatíveis com a vida humana, é claro). Essas ações buscam minimizar danos e situações perigosas e estranhas, que estejam alterando a ordem ideal e segura do nosso organismo.

Quando o nosso organismo percebe que um estímulo importante não está sendo gerado, agirá para reestabelecer a ordem, neste caso, gerar o cansaço e sono. Entenda que estímulo de cansaço – e fadiga – em situações normais, é para a própria proteção do organismo; uma espécie de “freio”, para que possamos fazer uma pausa necessária à recuperação de nosso corpo após uma intensa atividade, que fora responsável por desgastes e estresse ao nosso organismo.

Portanto, quando o nosso organismo não sente o resultado que deveria, nesse caso, uma fadiga gerada em consequência da produção de adenosina, então, se adapta. Essa adaptação ocorre por meio da criação de mais receptores. Isso faz com que o indivíduo fique tolerante a cafeína (ao menos para a dose que estivera acostumado), pois, o corpo passa a ter igual ou maior quantidade de adenosina ligadas aos receptores, em relação a cafeína.

Imagem retirada da Wikipédia

Isso, na maioria das vezes, gera uma resposta do usuário: Beber maiores quantidades de café (ou suplementos). Em tréplica, o organismo começará a produzir mais receptores, para que a adenosina gere o seu estímulo.

Acontece que as drogas podem possuir variação de estímulo, ou seja, uma substância pode gerar mais de um estímulo em nosso organismo (e essas respostas podem ser completamente inversas), essas variações de estímulo são, na maioria das vezes, dose-dependentes. Como o indivíduo em questão está ingerindo – cada vez mais – maiores quantidades de cafeína, terá maiores sintomas de ansiedade, enjôos, náuseas, tremedeiras, insônia, perda de apetite, dores de cabeça (cefaléia), sendo que, em doses mais baixas, a cafeína ajuda justamente no combate a dores de cabeça. É importante pontuar que, dependendo da dose (e do indivíduo, pois aqui entra a individualidade biológica), podem surgir episódios de vômitos, taquicardia e euforia (podendo ser seguida de desânimo severo e/ou depressão, em um contra turno).

Fato número 2

Em situações normais a cafeína possui um pico médio de concentração plasmática entre 30-45 minutos, com uma meia vida entre 3-7 horas. Traduzindo, a cafeína mostra seus – tão esperados – benefícios logo na primeira meia hora após ser ingerida e absorvida, com a sua ação se mantendo por algumas horas.

Para a maioria das pessoas o efeito dura entre 3-4 horas, para algumas, no máximo 7h. Após a meia vida, os níveis baixam paulatinamente, e mesmo que ainda tenha cafeína no organismo, já não é suficiente para gerar o estímulo desejado (com exceção para as pessoas com mega-sensibilidade).

Créditos da Imagem | cottonbro | Via Pexels

Nesse tipo de cenário o indivíduo pode até beber mais café ao perceber o surgimento da fadiga, mas, uma hora ele não terá a oportunidade de beber café por horas consecutivas. Então, entra em cena o famoso “efeito rebote”, e ele vem como uma “porrada”, pois todos os receptores estarão ocupados por adenosina. “Nossa, estou tão quebrado, estou sentindo tanta fadiga e dor, que parece que um caminhão me atropelou!“.

Fato número 3

Outrossim, a cafeína tem a propriedade simpaticomimética, pois, por imitar o sistema nervoso autônomo simpático, gera os estímulos de luta ou fuga. A cafeína faz o nosso organismo produzir – quando ela está ligada nos receptores de adenosina – uma quantidade significativa de catecolaminas.Vocês lembram da famosa adrenalina e noradrenalina? Elas são catecolaminas.

Como resultado disso, os receptores alfa e beta adrenérgicos serão estimulados; havendo respostas como Hiperglicemia; Perda do apetite; Vasoconstrição nas regiões centrais e vasodilatação nas periferias do corpo; Aumento dos batimentos cardíacos e da pressão arterial (é daqui que muitos sentem taquicardia e pontadas no coração após beber café).

Créditos da Imagem | Mary Taylor | Pexels

No contra turno desse grande estímulo, o nosso corpo possui um efeito refratário (uma pausa na secreção de catecolaminas), após secretar grandes quantidades de catecolaminas na corrente sanguínea. É por isso que o efeito de ”estado de alerta” da cafeína, perderá eficiência durante o dia.

Sintomas de abstinência

É comum que pessoas sofram abstinência de cafeína, porém, em boa parte dos consumidores, tal efeito termina entre 3-4 dias após o encerramento do consumo de café. Contudo, para os usuários de grandes quantidades diárias, pode durar entre 7-14 dias. Lembrando que esse é o prazo para se encerrar os sintomas de abstinência, porém, para que o corpo desarme toda estrutura criada (os receptores de adenosina em excesso), é necessário passar em média 1 mês sem ingerir café. Para os casos de viciados mais graves, 3 meses em média.

Créditos da Imagem | chico明 | Via Pixabay 

O período de recuperação deve ser respeitado, pois, uma mera xícara de café será o suficiente para voltar a gerar sintomas de abstinência. A literatura médica possui poucas evidências sobre eventuais episódios de delírio durante a fase de reabilitação da cafeína, alguns poucos usuários – que ingeriram quase 2g de cafeína por dia – experimentaram delírios olfativos, isso é, sentiam cheiro de café em lugares que não havia, sequer por perto.

Referências

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A side profile of a woman in a russet-colored turtleneck and white bag. She looks up with her eyes closed.

 


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