VITOR MARCOLIN | Ainda é tempo

Vitor Marcolin
Vitor Marcolin
Ganhador do Prêmio de Incentivo à Publicação Literária -- Antologia 200 Anos de Independência (2022). Nesta coluna, caro leitor, você encontrará contos, crônicas, resenhas e ensaios sobre as minhas leituras da vida e de alguns livros. Escrevo sobre literatura, crítica literária, história e filosofia. Decidi, a fim de me diferenciar das outras colunas que pululam pelos rincões da Internet, ser sincero a ponto de escrever com o coração na mão. Acredito que a responsabilidade do Eu Substancial diante de Deus seja o norte do escritor sincero. Fiz desta realidade uma meta de vida. Convido-o a me acompanhar, sigamos juntos.

O Natal não é um dia, mas um período

Apesar do sedutor apelo comercial praticamente irresistível, o Natal não é uma data, um dia apenas, é um período; um tempo do calendário litúrgico da Igreja cuja Natividade é apenas uma de um conjunto de cinco festas. Para além do Natal, nós temos a festa da Sagrada Família, Santa Maria, Epifania, e Batismo do Senhor. Até o Domingo no qual celebramos o Batismo do Senhor – por volta da segunda semana de janeiro –, portanto, é perfeitamente cabível desejar um “Feliz Natal” a quem ainda tenha paciência de ouvir e responder. Sim, porque o apelo comercial suprimiu a substância dos termos “paciência” e “caridade” e preencheu o vácuo semântico com um vagabundo sentido de conveniência.

Daí as relações humanas nesta época do ano provocarem aquele típico mal-estar que nos sobrevém quando estamos diante de uma flagrante esquisitice, uma incoerência explícita ou uma hipocrisia indecente. E, meio inconscientes, somos levados cada vez mais para longe das coisas importantes; anestesiados pela atmosfera intrusa das exigências materiais, esquecemo-nos do que é realmente importante. Perdemos a possibilidade da felicidade, daí o constrangimento, o sorriso fingido na hora dos cumprimentos, a sufocante sensação de tédio que aniquila até mesmo a capacidade de reconhecer as manifestações de entusiasmo nas crianças…

Ouvi de um autor comunista, um português que, para ganhar o prêmio Nobel de Literatura, dissera com sinceridade “não precisei de deixar de ser comunista”: “Eu odeio o Natal”. Não duvido. Mas não é difícil imaginar o motivo, os motivos, aliás. É culpa do capital que esvaziou o sentido original da celebração a fim de dar-lhe uma nova e descabida significação mercadológica. O comunista tem razão, mas só pela metade: o mercado fez o que fez – e continuará a fazê-lo –, mas o revolucionário crê que o “sentido original da celebração” também não passa de uma criação da classe dominante, uma afetação burguesa. Então ele odeia o Natal duplamente…

Creio que uma forma de entender as coisas seja verbalizá-las simplesmente, mas com honestidade. O que é o Natal? É a consumação de um fato: a encarnação do Logos Divino no útero da Virgem Maria — que celebramos nove meses antes da Natividade, na festa da Anunciação. O Verbo encarnado nasceu, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem. Isto basta para aniquilar o tédio, o marasmo, o frenesi e a angústia que quaisquer elementos artificiais, beneficiados com a nossa própria natureza, possam provocar “nesta época tão festiva do ano”.

“Antigamente era melhor”. É natural que todos digam isto. Mas não só: é bom também. Sim, porque esse sentimento de nostalgia não indica meramente o tempo pretérito da infância ou de um período mais feliz da vida do sujeito, não. Isto é o que ele pensa. Os nossos Natais são a recordação DAQUELE primeiro Natal. Assim, o que o consumismo e a lógica materialista tentam suprimir não é outra coisa senão a reverberação dos efeitos daquela noite feliz na distante Belém. Os parentes chatos e intrometidos deveriam dedicar um minutinho de suas vidas a fim de refletir sobre esta verdade.

Ainda em tempo: Feliz Natal!

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2 COMENTÁRIOS

  1. Em tempo: Feliz Natal, celebrando hoje a Epifania — palavra tão bela para a exitosa jornada dos sábios até Belém, perscrutando nas estrelas os sinais do divino. Sabiam eles se tratar de um Deus Menino? Talvez sim, talvez não, mas eles reconheceram e veneraram aquela criança.
    Que todos os que buscam possam ler os sinais e ser iluminados pela luz d’Aquele que a todos atrai!

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