Vidas sem o dom do maravilhamento

por Thomas Harrington – Bronwnstone Institute, 18/12/2023

Há pouco tempo, passei um dia inteiro numa capital europeia na companhia de um grupo de jovens americanos na casa dos 20-30 anos, que estavam lá graças a suas conquistas acadêmicas. Tive então a oportunidade de fazer o que faço instintivamente: observar como determinado grupo humano – no caso, a Geração Z da América – se relaciona entre si e com o mundo em geral. Nenhum daqueles jovens tinha qualquer laço íntimo prévio entre si. No entanto, eles conversavam sobre assuntos muito pessoais, centrados nas suas próprias dificuldades psicológicas ou nas de terceiros.

Essa experiência confirmou muito do que ouvi e vi na última meia década da minha carreira como professor num colégio privado de elite, levando-me à conclusão perturbadora de que, pelo menos numa certa classe de jovens, a partilha de patologias pessoais está substituindo rapidamente as tradicionais demonstrações de vigor e proeza como a principal “moeda” de ligação humana.

Qualquer pessoa que já tenha se dedicado a observar o reino animal sabe que isso é profundamente antinatural. A amizade e os rituais de acasalamento humanos não são tão diferentes assim das dos outros vertebrados: atributos como linguagem corporal, beleza, força física e fertilidade potencial sempre desempenharam um papel fundamental na formação dos laços iniciais entre pessoas.

No entanto, parece que a debilidade está emergindo rapidamente como uma linguagem de atração entre certos grupos de jovens. Será que a necessidade de ser forte na vida, ou o desejo extremamente poderoso de perpetuar a espécie desapareceu de fato no último quarto de século? Eu duvido. Como explicar, então, esse culto emergente da fraqueza?

Algumas ideias me vêm à mente. Estamos vivendo o crepúsculo do projeto imperial americano e o fim de 500 anos de domínio da modernidade europeia. E, quando os grandes projetos sociais vacilam, a brutalidade e o medo tornam-se muitas vezes as principais moedas de troca. Mas isso só nos leva até certo ponto.

Muitas vezes, pergunta-se se os peixes sabem que estão molhados e que nadam na água. Isso nos impõe a seguinte questão: quantos de nós temos consciência de que não estamos “nadando” no mundo como tal, mas sim em uma versão dele, refratada pelas suposições onipresentes da modernidade, que incluem, entre outras coisas, que o homem é a medida de (quase) todas as coisas, que o tempo é linear, a monetização da generosidade é inevitável e que a maioria das coisas que vale a pena conhecer são apreendidas apenas através de processos racionais, e não místicos, corporais ou emocionais?

A modernidade, que começou sua ascensão na virada dos séculos XV-XVI, coexistiu durante séculos com a visão de mundo centrada na religião, e pode-se argumentar que isso permaneceu assim até as últimas décadas do século XX, quando o secularismo se firmou de modo absoluto no mundo ocidental.

Por que isso é importante?

A despeito de qualquer bem ou mal que ocasione, o pensamento religioso impele a mente humana ao espanto em relação à imensidão da criação e ao reconhecimento do fato assombroso e absurdo que é estarmos vivos. Isso leva a uma forte dose de humildade em relação à capacidade de um pequeno grupo de seres humanos gerir racionalmente as vidas de seus semelhantes, bem como os sistemas biológicos, geológicos e atmosféricos vastamente complexos da Terra.

Num mundo puramente secular, a vida se torna basicamente uma questão não de admiração reverente do que nos foi legado, mas sim de como melhor manipular esse legado de acordo com nossos próprios desejos. Mas quando as erupções da nossa individualidade não nos fornecem segurança, vamos buscar as “sugestões” supostamente clarividentes dos “especialistas”.

Quais são os resultados desse regime de arrogância extrema? Como é que a modernidade se parece, quando o poder moderador da admiração e do mistério é subjugado? Basta olhar ao redor: vemos surtos assustadoramente grandes de fealdade, automutilação e patologização.

Temos um lugar onde as relações humanas não são cimentadas pela confiança, mas governadas por regras da pura utilidade material. Um lugar onde, como vimos durante a pandemia, uma relativamente pequena quantidade de força aplicada por estranhos sem rosto foi suficiente para pessoas romperem laços de longa data com amigos e familiares.

Um lugar onde o impulso humano mais básico – a reprodução da espécie – é contemplado não em termos das surpresas e presentes maravilhosos que pode trazer a cada um de nós e ao mundo, mas em como ele afetará o status material das pessoas chamadas a participar diretamente desse processo misterioso.

Um lugar onde a vida é cada vez mais percebida como um lugar de crises e ameaças, em que a coisa mais “sábia” a fazer é não fazer o que há milênios foi feito: lutar freneticamente por integridade, dignidade, alegria e significado. Um lugar onde se aceita desde o início que se é congenitamente fraco, patológico e desprovido de liberdade e, portanto, é melhor aceitar os ditames daqueles que dizem saber muito mais sobre você do que você mesmo jamais poderia saber.

Nossos jovens não são responsáveis pela visão sombria da condição humana que tantos deles parecem ter, nem pelo zeitgeist contemporâneo relativamente à generalizada falta de aptidão existencial do indivíduo. Nós, os mais velhos, somos.

Mas, infelizmente e cruelmente, é tarefa deles limpar a bagunça. Se decidirem fazer isso, e se me pedirem uma sugestão, eu lhes direi algo assim:

“A habilidade racional e calculista da mente humana de entregar algo que se aproxime do contentamento pessoal foi enormemente exagerada durante sua vida. Embora esse modo de cognição possa realizar muitas coisas maravilhosas, ele também tem a capacidade de criar circuitos fechados de pensamento sufocantes, que levam a uma sensação de apatia e desespero. Quando isso acontecer, construa uma estante mental e coloque nela essa forma de pensar, em potes hermeticamente fechados. Depois, saia pelo mundo em busca de maravilhas.”

* Thomas Harrington é acadêmico sênior do Instituto Brownstone e professor emérito de estudos hispânicos no Trinity College em Hartford, CT, onde lecionou por 24 anos. Seus ensaios são publicados em Words in The Pursuit of Light.

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