Dogmas, dogmatismo e o papa Francisco

Em recente entrevista à revista colombiana Vida Nueva, o papa Francisco deu a seguinte declaração:

Não gosto de rigidez porque é um mau sintoma da vida interior. O pastor não pode se dar ao luxo de ser rígido. O pastor tem que estar por perto para o que der e vier (…) Precisamos de seminaristas normais, com seus problemas, que joguem futebol e que não fiquem indo às ruas dogmatizar…

Há pessoas que vivem presas a um manual de teologia, incapazes de encarar problemas concretos e fazer a teologia avançar. A teologia estagnada me lembra que água parada é a primeira a apodrecer, e teologia estagnada gera corrupção. Tanto os movimentos de esquerda como de direita que ficam estagnados geram corrupção.

Estaria o Santo Padre, com essa fala, menosprezando a pregação dos dogmas da fé cristã? Ou estará ele fazendo uma crítica à postura dos que buscam expressar com máxima exatidão as verdades doutrinárias, sendo porém incapazes de se envolver com os “pecadores”, como Jesus escandalosamente fazia, sob o olhar de desprezo dos Mestres da Lei e dos fariseus?

Essa declaração do papa, que parece enfraquecer as fronteiras doutrinárias e permitir uma abordagem mais flexível da moral cristã, nos permite também refletir sobre o papel dos dogmas na compreensão e na vivência da fé.

No livro The Return of the Strong Gods, o teólogo e escritor Rusty Reno descreveu o esforço feito após a 2ª Guerra para erradicar o dogma. Diversos filósofos, economistas e teólogos, católicos e protestantes, refletindo sobre as duas guerras mundiais, concluíram que o caos na Europa dos últimos 5 séculos foi causado por dogmas: “o dogma divide”. Karl Rahner (importante teólogo do século passado), por exemplo, postulava que os ateus poderiam ser salvos, se fossem pessoas boas e bem-intencionadas. Sem dúvida, essa mensagem é atraente para os fiéis de outras religiões e para os sem fé nenhuma.

Muito embora esse entendimento da religião cristã pareça torná-la mais “inclusiva”, isso não é, de fato, cristianismo. Na verdade, isso nem é religião, mas uma invenção humanista: é o tipo de coisa que você criaria se quisesse uma religião que todo mundo pudesse achar boa, e que exigisse pouca coisa além de gentileza. Como todas as falsificações, essa “religião” parece verdadeira, mas um exame atento prova ser uma farsa, porque o cristianismo é intrinsecamente dogmático.

“Dogma” é uma proposição teológica que expressa uma verdade sobre a religião, que deve ser crida não apenas intelectualmente, mas com confiança (= com fé) absoluta. Um dogma é algo específico: é ISSO, não AQUILO. O cristianismo é dogmático desde o princípio por causa da Encarnação: o Filho de Deus, a Segunda Pessoa da santíssima e indivisa Trindade, tomou a forma humana de sua santíssima Mãe e nasceu em um determinado momento e lugar da história humana, não em outro qualquer.

O catolicismo, em particular, é objetivo e específico de uma forma que o protestantismo não é. Os sacramentos da Igreja são definidos por sua forma, sua matéria e seu ministro: se não tiverem forma, matéria e ministro adequados, não serão válidos. Embora possa ser agradável para muitos imaginar e tentar viver uma religião sem dogmas, ela não seria a fé da Igreja – seria apenas uma invenção de pessoas bem-intencionadas, uma fé fantasiosa com tanta substância quanto uma bolha de sabão.

Para concluir esta breve reflexão*, é oportuno lembrar da advertência do autor sagrado, na Carta aos Hebreus, 2,1-4:

Portanto, precisamos prestar muita atenção às verdades que temos ouvido, para não nos desviarmos delas. (…) O que nos faz pensar que escaparemos se negligenciarmos essa grande salvação, anunciada primeiramente pelo Senhor e depois transmitida a nós por aqueles que o ouviram falar? E Deus confirmou a mensagem por meio de sinais, maravilhas e diversos milagres, e também por dons do Espírito Santo, conforme sua vontade.

* Texto escrito a partir do artigo do pe. Dwight Longenecker: Do We Need Dogma?

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