Uma homenagem a Sansão

“A MORTE DE UMA CRIANÇA PODE NOS QUEBRAR E NOS RECONSTRUIR”
Dra. Tess Lawrie, PhD – 09/07/2023

Eu tinha 28 anos de idade quando meu primeiro bebê morreu. A mesma idade que ele teria hoje, se tivesse sobrevivido à meningite neonatal.

Após essa experiência traumática, eu jurei que faria algo verdadeiramente bom da minha vida. Porém, após um profundo desespero e autorreflexão, eu não conseguia imaginar o que isso poderia ser.

Naquele ano de 1995, trabalhando como obstetra no Hospital Baragwanath, em Soweto, África do Sul, minha motivação como jovem médica era ajudar mulheres a terem a melhor experiência de parto possível. No país do apartheid, isso era um desafio e tanto.

Em meu último turno de trabalho antes da licença-maternidade, eu trouxe à luz 11 bebês saudáveis.

Meu lindo Sansão nasceu três dias depois daquele turno e morreu três dias depois. Ao sair da maternidade de braços vazios e com o coração partido, não pensei que sobreviveria a essa experiência. Em meio à dor e confusão, muitas perguntas sem resposta surgiram: por que isso aconteceu comigo, quando trabalhei tanto para ajudar os outros? Por que eu pude salvar outros bebês e não o meu? Eu não era digna de um bebê saudável? Foi culpa minha?

Nosso estilo de vida de um casal moderno significava que vivíamos longe dos anciãos da família, de seu apoio e sabedoria. Então, uma semana depois, meu marido e eu concordamos em viajar: na cultura materialista em que estávamos inseridos, essa era a sabedoria predominante de nossos amigos bem-intencionados. Férias ensolaradas, disseram, ajudariam a superar nossa dor.

Fomos para as ilhas Maurício – e eu fiquei uma semana na sombra, coberta da cabeça aos pés, não desejando estar lá, não desejando existir de forma alguma, muito menos em uma ilha cheia de casais em lua de mel. Ao voltarmos para casa, a dor da perda cobrou seu lugar. No entanto, ela lutou para encontrar seu espaço em uma existência atomizada, baseada em tempo e dinheiro, e desconectada da sabedoria e amor de nossos pais e avós.

Duas semanas depois, receitaram-me paroxetina (um remédio para a depressão) para eu “voltar ao normal”, “esquecer o que aconteceu” e voltar ao trabalho. Depois de me dopar por seis meses, vi-me diante de uma escolha: ou eu continuava a usar essa droga entorpecente até talvez pular da Table Mountain na Cidade do Cabo, ou eu parava de tentar encobrir a rachadura cada vez maior na minha alma e mergulhava até o fundo do abismo, lutando depois para sair do buraco.

Felizmente, eu escolhi a 2a opção.

Seis meses após a morte de meu filho, meu processo de luto começou pra valer: imersa na escuridão, em meio a raiva, traição, dúvida, ódio, decepção e desesperança, eu me permiti ser quebrada para então, lentamente, ser remodelada.

A morte de Sansão me ensinou: a dor é uma oportunidade. Agarre-a intensamente.

Na maioria dos desafios da vida, você não deve querer se “descontrair” com antidepressivos ou ansiolíticos. Emoções desconfortáveis, dor e ansiedade são sinais de um trabalho a ser feito. Eventos traumáticos fornecem uma oportunidade de revisar valores, escolhas, disposição espiritual e circunstâncias materiais, promovendo mudanças.

Além disso, quando aceitamos o desafio e optamos por sentir a dor, a morte de uma criança exige que investiguemos suposições fundamentais sobre a realidade e nosso papel nela. É uma oportunidade de reflexão profunda sobre o sentido da vida e um convite à busca da verdade: por que isso aconteceu? O que pode ser aprendido? Como isso muda minhas crenças? Muda quem sou? Por que Deus permitiu que isso acontecesse? Pode algo de bom vir disso?

O propósito desses questionamentos é desafiar pressupostos fundamentais sobre nossa realidade. Ir ao âmago da dor nos dá uma perspectiva única do mundo e oferece potencial para um tremendo crescimento pessoal. Ao suportar o que parece insuportável, recebemos a oportunidade de renascimento do nosso espírito humano.

Transmutar a dor em paz e propósito não acontece da noite para o dia e exige perseverança, coragem e compaixão por nós mesmos. É assim que triunfamos sobre as circunstâncias mais difíceis. Na verdade, eu aprendi que esse triunfo sobre a escuridão é a essência do que significa ser humano.

A morte de uma criança é uma experiência muito poderosa, que nos quebra e nos refaz. Ao usá-la como uma oportunidade para limpar o que não nos serve mais e embarcarmos em uma busca pela verdade, podemos redescobrir a maravilha de viver conscientemente e com propósito. Vinte e oito anos depois, agora eu sei que tinha muito a aprender.

Portanto, é com gratidão que posso avaliar que a morte de Sansão não foi em vão. Ao publicar isso uma semana antes do que seria seu 29º aniversário, estou satisfeita por seu curto período na terra ter sido tão profundamente significativo. Ele é parte integrante de quem eu ainda estou me tornando.

 

Tess Lawrie é médica inglesa e co-fundadora do World Council for Health (Conselho Mundial para a Saúde). Escreve regularmente em sua página no Substack. Tradução e adaptação: Oswaldo Viana Jr.

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