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quinta-feira, 27 janeiro, 2022

Sódio | Herói ou Bandido?

Revista Mensal
Emmanuel Emídio Maciel de Castro
Emmanuel Emídio Maciel de Castro é apaixonado pela medicina, em todos os aspectos bioquímicos e fisiológicos. Desde criança sempre gostou da E astronomia, música e medicina. As duas primeiras escolheu para hobbies e a última como profissão, um sacerdócio para toda a vida.

Uma questão de bom senso tão importante quanto o sabor

No Brasil, o sal e cozinha é constituído pela junção de dois minerais, o sódio e o cloro, e que ao serem ingeridos, viram íons fundamentais para nosso organismo. Quero iniciar salientando que na biologia costumamos falar que os sais minerais são a forma inorgânica de algum mineral, e sem carga elétrica ( é neutro), e que tem funções estruturais, exemplo: Ossos e dentes, que possuem sais de cálcio. Já os íons, são a forma solúvel do elemento mineral, com carga elétrica, e com funções reguladoras nas reações químicas, como cofator enzimático (ativando ou auxiliando a ação das enzimas). Usando o cálcio também como exemplo de íon no nosso corpo, temos o Ca++.

Partindo agora para o cloreto de sódio

O sódio constitui 40% do nosso sal de cozinha, mas também é o íon positivo mais abundante no nosso corpo, enquanto o cloreto é o nosso mais abundante íon negativo. Logo podemos dizer que “o nosso sangue é levemente salgado”. Em nosso corpo, o cloreto de sódio atua em algumas funções, podendo citar como exemplo as sinapses nervosas. Mas essa coluna não visa esmiuçar os pormenores da fisiologia e bioquímica, mas algo prático, que seja assunto comum (e sem excessos de linguagem técnica) e de fácil entendimento.

Outrossim, sobre o cloreto de sódio, cito a sua função ativa no equilíbrio hídrico – deslocamento hídrico por osmose – no nosso copo. Por ele possuir essa capacidade é que no nosso cotidiano, ao ingerimos bastante sal em uma refeição, acabamos ficando com sede. Isso se dá porque chegou muito sal à corrente sanguínea, e esse sal, através da osmose, “puxa” uma certa quantidade de água das demais células para o sangue.

Em pessoas saudáveis, isso incorre num momentâneo quadro clínico de hipertensão arterial e desidratação dos tecidos periféricos (exemplo: Boca). Assim, através da eliminação do excesso de cloreto de sódio, nosso corpo tenta reestabelecer a pressão e hidratação dos tecidos periféricos. Por isso que temos vontade de fazer xixi e somos tomados pela sensação de sede.

Sobre o sal de cozinha

Já fazem algumas décadas que ouvirmos falar que o sal de cozinha é um dos vilões da nossa alimentação, havendo uma espécie de fobia social ao sal, e essas afirmações já viraram senso comum. São bordões na boca de leigos e ditos estudiosos, do padeiro ao médico, um tipo de neurose coletiva. Mas até que ponto essas afirmações são verdadeiras? Será que possuem lastro científico? Há evidências na literatura científica e clínica para tais afirmações?

Primeiro quero salientar que existem dezenas de profissionais da nutrição, medicina, enfermagem (e demais áreas) que, através das análises clínicas de exames e dos estudos mais recentes, vêem percebendo o óbvio: diversas fisiopatologias são oriundas da carências ou excessos alimentares e o sal de cozinha não foge a regra.

O Excesso de sal – devido ter uma alta concentração de sódio – acarreta fatores de risco para doenças cardiovasculares, renais, endócrinas e metabólicas. Mas vale salientar também que sua carência também é um fator de risco, expondo o cidadão a maiores riscos de infarto no miocárdio, e o surgimento do bócio.

Então podemos ver que ao passo que o excesso é danoso para nossa saúde, a falta é igualmente maléfica.

O sal na dieta do brasileiro

Segundo alguns estudos recentes, a ingesta diária de sal pelos brasileiros está bem acima do indicado pela OMS, que é 2.000mg/dia, e pela American Heart Association, que é de 1.500mg/dia. A questão é que quando digo acima, é bem acima. Pois devido a alta oferta de produtos processados e nossa escassez de tempo (em nossa sociedade atual) para o preparo manual e caseiro de nossas refeições, apelamos para pratos que praticamente extrapolam as recomendações de sódio em uma ou duas refeições.

Esse fato foi evidenciado pela Pesquisa Nacional de Saúde (2013), republicada pela OMS, demonstrando que nossa ingestão média de sal é entorno de 9.340mg/dia. Impressionante, não? Portanto, o brasileiro precisa, em geral, se atentar para evitar os extremos, seja a falta, ou nesse caso, os excessos do consumo de sal. Ora, já vivemos numa sociedade que, devido ao alto nível de estresse e ansiedade, nos fornece diversos fatores de risco para o surgimento ou agravamento de doenças.

De sorte, que através de boas escolhas alimentares, isso é, evitar ou minimizar ao máximo os alimentos hiper-processados (mega-ultra-hiper-saborosos, mas que fazem mal a nossa saúde), podemos tentar preparar as próprias refeições. Hoje em dia temos diversas opções de ingredientes e formas de preparar refeições e levá-las conosco para o dia-a-dia, assim como há opções de compra de refeições e lanches mais saudáveis.

Dessa forma, poderemos cuidar de nós e de quem nós amamos, no caso, os tutores de crianças. Dessa forma, teremos condições de viver mais anos – e com saúde – para aproveitar cada segundo dessa vida.

Referências

Journal of Hypertension: July 2021 – Volume 39 – Issue 7 – p 1309-1310 – https://journals.lww.com/jhypertension/Fulltext/2021/07000/High_salt_is_a_risk_factor_for_cardiovascular_and.8.aspx?context=LatestArticles

Heart Org – http://www.heart.org/HEARTORG/GettingHealthy/NutritionCenter/HealthyEating/Sodium-and-Salt_UCM_303290_Article.jsphttps://doi.org/10.1590/1980-549720190009.supl.2

Scielo – https://www.scielo.br/j/rbepid/a/Z4bKXzyLGF7shzb3Kwk8qsy/?lang=pt

Lybrate – https://www.lybrate.com/topic/sodium-benefits-sources-and-side-effects

Alderman MH, Madhavan S, Cohen H, Sealey JE, Laragh JH. Low urinary sodium is associated with greater risk of myocardial infarction among treated hypertensive men. Hypertension. 1995 Jun;25(6):1144-52. doi: 10.1161/01.hyp.25.6.1144. PMID: 7768554


O maior erro que um homem pode cometer é sacrificar a sua saúde a qualquer outra vantagem

Arthur Schopenhauer

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