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sábado, 28 maio, 2022

RESENHA | O diário de Anne Frank

Revista Mensal
Vitor Marcolinhttps://lletrasvirtuais.blogspot.com/
Apenas mais um dos milhares de alunos do COF. Non nobis Domine.

O que o Urutu da Tarsila do Amaral tem a ver com isto?

Durante uma aula de arte no ensino fundamental, a professora pediu para que copiássemos, da forma mais fiel possível, um determinado quadro que ela logo exibiria para a turma. Antes ele falara, muito superficialmente, valendo-se de todo o seu vigor didático, sobre a semana de arte de 1922. O quadro que ela fixou na lousa era o contestável Urutu, da Tarsila do Amaral.

Assim que o vi reagi com um sorriso que só fazia crescer na exata medida em que a professora falava sobre a suposta importância da pintura. O sorriso converteu-se em generosas gargalhadas. A amável professora, com toda a boa vontade do mundo, gastara minutos preciosos da aula numa tentativa frustrada de explicar que a tal da Tarsila não era uma de nossas colegas do fundamental que, à exceção de alguns alunos que traziam o talento de casa, não sabia desenhar.

Ao final, depois de perceber que ela realmente acreditava no que dizia, minhas risadas deram lugar a uma expressão de preocupação, de angústia. Como era possível que nossa professora não fosse capaz de perceber uma obviedade daquele tamanho? Desde aquele dia, as aulas de arte do fundamental — e a maioria das outras que vieram depois — foram encaradas com desconfiança. Porque ainda não foram contaminadas pela confusão do mundo, porque vivem as primeiras impressões, as crianças são guardiãs dos ângulos retos, dos círculos perfeitos, da harmonia das cores, da mimese fidedigna da realidade.

Elas têm o senso das proporções suficientemente apurado para desconfiar dos desenhos errados feitos por adultos excêntricos. Um adulto deveria saber desenhar direitinho, tanto mais aqueles que dizem ser artistas: eis a pureza da lógica infantil. Recordei-me deste episódio do fundamental quando li, pela primeira vez, o Diário de Anne Frank. Mas a perspectiva era ligeiramente diferente.

Ao final da leitura tudo aquilo me pareceu inverossímil. De onde uma menina de treze anos tirara maturidade para dar forma àquelas reflexões sobre a vida? Geralmente, pré-adolescentes demonstram talento suficiente para desenhar quadros melhores do que o Urutu, mas a aptidão não vai muito para além disto. No entanto, este definitivamente não era o caso da autora daquele diário. Anne, entre os seus treze e quinze anos, escreveu com a sabedoria de uma anciã a rememorar a vida pregressa.

Sob condições de adversidade, a inteligência dá saltos; o indivíduo, quando mantém-se fiel ao seu dever, experimenta a superação extraordinária das barreiras naturais do entendimento. Anne teve de aprender a viver uma vida inteira no transcurso de dois anos. Ao som de tiros, bombas, gritos; com fome e medo; frequentemente sem poder atender às necessidades básicas do cotidiano; e sob a apreensão da morte iminente, Anne, sua família e os agregados refugiados no anexo foram convidados à vida introspectiva. Mas, como sabemos, só a garotinha não declinou o convite.

Anne fora uma aluna aplicada nas aulas de Literatura, dizia às suas amigas que sonhava em ser jornalista ou escritora. Quando, já abrigada no anexo, ouviu uma transmissão oficial do governo da Holanda que incentivava as pessoas a escrever diários — a fim de registrar os horrores da guerra –, decidiu que esta era a sua chance de publicar o seu primeiro livro. Foi uma vitória póstuma. Seu diário foi publicado no fim de junho de 1947, quando Anne e toda a sua família — exceto o seu pai — já haviam morrido.

Os seus primeiros leitores também desconfiaram da verossimilhança do diário, alguns sugeriram até que o pai de Anne, Otto Frank, fora o verdadeiro autor daquelas palavras. Mas, não. A polêmica tomou tamanhas proporções que uma equipe de especialistas analisou a caligrafia de Anne Frank e, comparando-a com seus cadernos de escola e outras anotações, concluíram que, de fato, ela era a autora do seu próprio diário.


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“Nunca mais recuarei diante da verdade; pois quanto mais tardamos em dizê-la, mais difícil torna-se aos outros ouvi-la”.

— Anne Frank

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