Durante escavações na área externa do edifício-monumento, objetos curiosos foram encontrados

É batata: durante a reforma de um prédio antigo — histórico ou não — objetos igualmente antigos são encontrados. Eles podem ter algum valor intrínseco relativo ao material, se é um dente de ouro, por exemplo, ou um valor histórico, se é uma moeda rara. O fato é que esses achamentos são sempre momentos de entusiasmo. Não podemos esquecer que, às vezes, em função de uma descoberta arqueológica, toda uma obra é paralisada até que os entendidos do assunto — ou os que se propuseram o esforço do entendimento — decidam, depois de passarem pela peneira cada centímetro cúbico de terra do canteiro de obras, que é hora de voltar ao trabalho. Com o edifício-monumento localizado no único bairro citado na letra do hino nacional, o bairro do Ipiranga em São Paulo, não foi diferente.

O que era um canteiro de obras se transformou em um verdadeiro sítio de monitoramento arqueológico. Isso para a alegria dos entusiasmados pesquisadores do ramo da arqueologia e enfado dos pobres pedreiros e homens do batente que, tão logo desenterrem uma pedrinha brilhante, são assaltados pelos arqueólogos armados com um sorriso de ponta a ponta [da orelha]. O que fez a alegria dos homens da ciência arqueológica foram os ossos, os objetos de porcelana, de ouro ou de metal ordinário feitos para o uso pessoal (ou não) de desastrados cidadãos que os perderam há pás de anos no pretérito. Uma parceria com a empresa Scientia Consultoria Científica foi estabelecida só para que os pequenos objetos não corram o riso de serem destruídos pelas bicudas de um pedreiro desavisado.

A gênese dos esforços, das parcerias, das novas pautas e das intermináveis reuniões de integração e esclarecimento aos pedreiros se iniciou com a descoberta de uma dentadura. Uma mísera — mas curiosa. Justiça! — dentadura fora o estopim para o afloramento burocrático no canteiro de obras. Os entendidos conseguiram datar o curioso objeto: primeira metade do século XX. Não só. Não se tratava de uma dentadura qualquer, o antigo dono tinha lá o seu orgulho: alguns dentes apresentavam restauração em ouro. Ela foi encontrada durante o processo de remoção de árvores dos jardins do museu para replantio posterior.

A equipe da Scientia Consultoria Científica teve a alegria de encontrar também ossos de animais, que foram exumados. São pedaços de crânio, pélvis e pés de bovinos que apresentavam marcas de cortes retos, feitos com instrumentos de metal. Há ainda um fragmento de mandíbula que, segundo os arqueólogos, pode ter pertencido a um gatinho.

Para além do reino animal, o reino das coisas feitas pela mão do homem também fora dignamente representado pelos fragmentos de pratos, xícaras e outros recipientes de porcelana. A equipe da Scientia indicou a probabilidade considerável de os objetos terem sido fabricados entre o final do século XIX e início do século XX. Há, inclusive, um prato especial, do tipo raso com as seguintes inscrições em francês: Société Céramique Maestrich, uma marca dos Países Baixos de 1859. Contudo, dos objetos de porcelana encontrados no canteiro de obras da reforma do Museu do Ipiranga, talvez o mais significativo seja um pedaço de prato produzido na Fábrica de Louças Santa Catarina (FSC), uma das primeiras desse ramo no Brasil.

Um Barão

Até o presente momento, apenas uma moeda foi desenterrada. Trata-se de uma moedinha de 200 Réis com o busto de Irineu Evangelista de Souza, o Visconde e Barão de Mauá. Irineu, grande vulto do Império, foi o responsável pela construção da primeira estrada de ferro do Brasil, em 1854.

LABOR OMNIA VINCIT

Durante os esforços das escavações, foram encontrados vários fragmentos de vidro, todos com a provável datação do fin de siècle, segundo a Scientia Consultoria Científica. Um em especial chamou a atenção dos arqueólogos: trata-se de um fragmento de vidro que trazia a seguinte inscrição latina: “LABOR OMNIA V”. A consultoria acredita que se trata de um frasco de medicamento importado. O produto da empresa Caswell Mack & Co., Chemists New York & Newport, utilizava em algumas de suas embalagens a frase “O Trabalho Vence Tudo“, em Latim. Talvez tenha sido o frasco do remédio para dor que um dos engenheiros responsáveis pela construção do museu, no final do século XIX, tomou para alívio das dores pulsantes do dedão do pé depois que uma viga de ferro o feriu nessa desprezada parte do corpo.

O Museu Paulista da Universidade de São Paulo, o mais antigo da cidade, está fechado sob a justificativa de reformas desde 2013. As informações oficiais, contudo, prometem a reabertura do edifício-monumento em setembro de 2022, para as celebrações do bicentenário da Independência do Brasil.

Com informações do portal Agência Brasil e do site da Scientia Consultoria Científica.

“Independência ou morte!”.

D. Pedro I, às margens do riacho do Ypiranga na tarde de 07 de setembro de 1822.

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