VITOR MARCOLIN | Máquina de escrever

Vitor Marcolin
Vitor Marcolin
Ganhador do Prêmio de Incentivo à Publicação Literária -- Antologia 200 Anos de Independência (2022). Nesta coluna, caro leitor, você encontrará contos, crônicas, resenhas e ensaios sobre as minhas leituras da vida e de alguns livros. Escrevo sobre literatura, crítica literária, história e filosofia. Decidi, a fim de me diferenciar das outras colunas que pululam pelos rincões da Internet, ser sincero a ponto de escrever com o coração na mão. Acredito que a responsabilidade do Eu Substancial diante de Deus seja o norte do escritor sincero. Fiz desta realidade uma meta de vida. Convido-o a me acompanhar, sigamos juntos.

Vida interior

Eu sou um grande entusiasta da máquina de escrever. Nasci na década de 1990, período que testemunhou a substituição em massa das obedientes typewriters pelos computadores — incomparavelmente mais eficientes. Certa manhã, quando eu tinha por volta de 7 ou 8 anos, meu pai — chegado de um bota-fora de escritório — trouxera para casa uma Olivetti; era um modelo de mesa, enorme e pesado. A engenhoca estava sobre a mesa do café da manhã, quando entrei na cozinha.

Aquela coisa imprimia em tempo real letras, números e símbolos no papel branco tão logo uma tecla qualquer fosse pressionada. A tecla acionava uma alavanca que trazia na extremidade um tipo (grosso modo, carimbo) no qual, em alto relevo, havia o símbolo referente à tecla pressionada. Era genial. Aos olhos da criança de 7 ou 8 anos foi amor à primeiríssima vista. E lá estava eu, ainda sem jeito, a datilografar o primeiro V-I-T-O-R M-A-R-C-O-L-I-N. “Olha, mãe, sai na hora!”, dissera eu transbordante de entusiasmo!

Desde a infância, portanto, tenho contato com essas maravilhas mecânicas. Já tive várias, de diferentes modelos e épocas: Olivetti, Remington, Royal… Quando consegui o dignificante primeiro emprego, no final da adolescência, comprei uma Remington raríssima: era um modelo “silencioso” e portátil fabricado nos Estados Unidos em 1937. Descobri a peça num anúncio no Mercado Livre. O anunciante era um gentil septuagenário que morava no bairro paulistano de Pinheiros — e que estava de mudança de sua bela casa antiga.

Ele me vendeu duas Remingtons — a outra era um modelo moderno (e feio) do início dos anos 1980 — mais uma máquina de calcular da marca Odhner, fabricada na Suíça também nos anos 1930. Eu lembro de muitos detalhes desta compra, inclusive o nome e o endereço completo do senhor que me vendeu as máquinas (obviamente não vou pôr aqui a exata travessa da Rua Mourato Coelho, em Pinheiros, na qual fui buscar as typewrites). Obtive as especificações técnicas das máquinas de um especialista, um mecanógrafo que, ainda hoje, atende na Rua do Carmo, no centro.

As máquinas imprimem em tempo real e são absolutamente independentes de eletricidade — são mecânicas. Máquina de escrever é puro hardware. Os movimentos de entusiastas nas redes sociais apresentam a escrita mecânica como símbolo de autonomia, de liberdade. E é verdade. Porém, é impossível oferecer resistência à eficiência do computador. Daí que muitos daqueles que se apresentam como entusiastas da máquina de escrever o fazem lastreados na autoridade de um hobby. That’s all, folks!

Geralmente, as pessoas fazem perguntas irresponsáveis: fico profundamente irritado com a falta de imaginação de alguns interpeladores que me vem saber se eu trabalho escrevendo à maquina. Isto é absurdo! “Você escreve p’ra revista usando a máquina de escrever?”. Mutatis mutandis, é como perguntar se eu uso o telégrafo para enviar mensagens ou escrevo cartas à mão (com cursiva inglesa). A alegria singela de escrever à máquina não precisa de justificativa, é um daqueles hábitos da vida interior.

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