O ciclo de duas novas chuvas de meteoros foi observado e catalogado por uma equipe de pesquisadores independentes do Brasil

Na história da Astronomia Moderna, é possível observar que o primeiro grande boom das grandes descobertas aconteceu na segunda metade do século XVIII, quando os astrônomos dominaram as técnicas de construção de imensos telescópios refletores. Estes novos equipamentos, baseados nas pesquisas de Isaac Newton sobre a síntese entre lentes e espelhos para a construção de telescópios com a finalidade de obter uma melhor definição nas imagens observadas, inauguraram uma nova era nas observações. Observadores se reuniam nos telhados das imponentes construções barrocas e neoclássicas das grandes cidades da Europa para fritarem os olhos com a “luz das estrelas distantes“. No entanto, engana-se quem pensa que a descoberta de novos corpos celestes ficou no passado da Astronomia. Ainda hoje pesquisadores dedicados empreendem esforços na observação meticulosa da imensidão do Cosmos. E eles obtêm resultados significativos.

A equipe é constituída por dois astrônomos amadores, Cristóvão Jacques e Lauriston Trindade, e pelo especialista em software, Alfredo Dal’Alva. Em conjunto, esses brasileiros convergiram seus conhecimentos e habilidades numa significativa descoberta astronômica: o ciclo de duas chuvas de meteoros. A descoberta aconteceu no Observatório Sonear, um observatório do tipo “amador” instalado na municipalidade de Oliveira, no interior das Minas Gerais, por Cristóvão Jacques. Segundo uma entrevista que os pesquisadores deram ao portal R7, desde 2014 Jacques descobriu a existência de 33 novos asteroides em órbitas próximas ao planeta Terra observáveis a partir do hemisfério Sul. Dois dos quais mostraram-se potenciais fontes de descobertas.

Cristóvão. Divulgação/Arquivo pessoal

“Em 2018, eu sugeri ao Lauriston, que trabalha na Bramon (Rede Brasileira de Monitoramento de Meteoros, uma organização colaborativa mantida por mais de 100 astrônomos amadores, entre eles, Cristóvão), que fizesse uma pesquisa na base de dados para verificar se havia algum conjunto de meteoros que poderia estar associado à órbita de algum desses asteroides”.

Cristóvão Jacques em entrevista ao Portal R7

Para o espanto da Nasa

Em julho de 2019, a equipe de astrônomos amadores do Brasil realizou uma descoberta que, de tão significativa, deixou os profissionais da Agência Espacial Americana boquiabertos. Trata-se do asteroide batizado de 2019-OK e que fora detectado pelas lentes e câmeras do Sonear. A Nasa, em comunicado oficial, reportou que este fora o maior e mais próximo asteroide que passou pela órbita da Terra nos últimos 100 anos. Do tamanho de um campo de futebol, o objeto “tangenciou” a Terra a preocupantes 65 mil quilômetros de distância — um “raspão”, em termos astronômicos.

Livre iniciativa

A descoberta só foi possível porque um grupo de indivíduos sem vínculos com qualquer entidade acadêmica ou instituição de pesquisa decidiu, guiados unicamente pelo interesse comum, concentrar seus conhecimentos, suas habilidades e aptidões, para um propósito comum. Alfredo, o desenvolvedor de software, não tinha conhecimentos relevantes em Astronomia, no entanto, em longas conversas com os outros membros da equipe, conseguiu entender a dinâmica das chuvas de meteoros. Com isso, Alfredo foi capaz de transpor para a linguagem dos códigos de algoritmos as observações realizadas no Sonear.

Alfredo, o responsável por desenvolver o software que codificou os dados das observações. Imagem/Arquivo pessoal

Em entrevista à Sofia Pilagallo do portal R7, Alfredo disse: “Quando começou a pandemia, pelo fato de estar mais em casa, tive mais tempo para estudar o assunto. Passamos várias madrugadas lendo artigos, entendendo os algoritmos e tentando implementá-los no software, que é uma espécie de calculadora“. Com a ajuda dos softwares a equipe foi capaz de fazer estimativas acertadas sobre os movimentos observados e compará-las com os registros de observações passadas. O trabalho da equipe brasileira foi desenvolvido com excelência.

Uma descoberta relevante

Alfredo afirma que a descoberta certamente coloca o Brasil num patamar acima em termos de visibilidade internacional. Espera-se que o impacto da descoberta reverbere também na esfera dos recursos financeiros para o incremento de novas pesquisas no Brasil.

“Trata-se de chuvas de meteoros descobertas por brasileiros oriundas de asteroides que também foram descobertos por um brasileiro — e tudo isso a partir de dados coletados no Brasil. Atualmente, há 27 chuvas de meteoros descobertas por brasileiros na base oficial de dados, mas esta é a primeira 100% nacional”.

Alfredo

Lauriston Trindade reflete sobre a ideia do trabalho “amador” no âmbito da Astronomia. Para ele, “amador” e “amadorismo” são termos associados, injustamente, a trabalhos desprovidos de esmero, a algo de qualidade inferior. Lauriston explica que o adjetivo, nesse contexto, significa que a equipe não foi remunerada pelo projeto, visto que os esforços foram voluntários.

Lauriston. Imagem/Arquivo pessoal

“Quando astrônomos amadores publicam um trabalho desse tipo em uma revista científica internacional, é fato que isso gera um incentivo para que outras pessoas queiram se aventurar também a seguir o caminho da ciência”.

Lauriston Trindade, membro da equipe

Com informações do portal R7 e da enciclopédia O Livro da Ciência, da Enciclopédia Britânica, editada pela Globo Livros Editora.

“Falar obscuramente, qualquer um sabe; com clareza, raríssimos”.

Galileu Galilei

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