VITOR MARCOLIN | Uma confusão de termos

Vitor Marcolin
Vitor Marcolin
Ganhador do Prêmio de Incentivo à Publicação Literária -- Antologia 200 Anos de Independência (2022). Nesta coluna, caro leitor, você encontrará contos, crônicas, resenhas e ensaios sobre as minhas leituras da vida e de alguns livros. Escrevo sobre literatura, crítica literária, história e filosofia. Decidi, a fim de me diferenciar das outras colunas que pululam pelos rincões da Internet, ser sincero a ponto de escrever com o coração na mão. Acredito que a responsabilidade do Eu Substancial diante de Deus seja o norte do escritor sincero. Fiz desta realidade uma meta de vida. Convido-o a me acompanhar, sigamos juntos.

Resposta sincera a Roberto Lacerda

Você, leitor da Esmeril, tem uma oportunidade de ouro: ser testemunha das confrontações dialéticas entre confrades de uma redação interessados unicamente na verdade. Este termo, eu entendo, está tão malbarateado que se tornou risível. Qual é o valor da verdade em um mundo no qual reina o mais completo relativismo? O velho Aristóteles ensinou que a verdade acontece quando do encontro entre a inteligência e a realidade. Daí que zombar da verdade é tão coerente quanto zombar do sujeito que se nega a acariciar uma onça faminta no meio da mata quando, a caminho de uma pescaria, depara-se com o bicho.

Em minha última coluna, na semana passada, eu havia apresentado ao leitor uma crítica à mídia cujo mote era a “injustiça” do monopólio “ideológico” perpetrado pela classe falante no Brasil. Uso as aspas porque hoje, sete dias depois daquelas reflexões, já não quero reivindicar a autoria daqueles termos, pois os considero descabidos para aquele contexto. Mea culpa: fiz confusão; uma ligeira e, talvez para a maioria de nossos leitores – sem subestimar sua inteligência –, uma quase imperceptível confusão, mas ainda assim um erro, um desacerto, uma gafe. Senão vejamos:

À guisa de argumento, eu havia afirmado, inspirado nas análises da inCultura brasileira feitas pelo professor Olavo de Carvalho, que o domínio praticamente integral das universidades e da mídia pelos esquerdistas era uma tremenda injustiça. Mas não só. Era fruto de uma monopolização ideológica. Fui precipitado, porque, a bem da verdade, não é assim. Devo tomar como parâmetro conceitual do termo Justiça os grandes mestres do pensamento ocidental: os gregos clássicos e os escolásticos medievais. A virtude cardeal da Justiça consiste precisamente em dar a cada um aquilo que lhe é devido. Portanto, a fim de corrigir aquela minha análise imperfeita, afirmo agora que o domínio das vias de circulação de ideias pelos revolucionários NÃO é uma injustiça.

É o contrário. Sim, pois durante décadas houve uma esmerada aplicação de estratégias para a ocupação daqueles espaços que culminaram no domínio praticamente integral deles. Aquilo que o professor Olavo chama de mentalidade revolucionária não se impregnou na universidade e não ganhou as caixas de ressonância da mídia do dia para a noite. Não. Foi uma conquista lenta cujo êxito é mérito dos intelectuais e dos seus discípulos engajados em toda sorte de transformações sociais. É, portanto, meritório, não injusto, o monopólio das ideias no panorama cultural brasileiro.

Ademais, empreguei o termo ideológico na descabida acepção de algo negativo sob todos os aspectos, como uma doença, uma peste que urge ser aniquilada. Não. Foi um exagero. Eu mesmo sou ideológico. Falo embasado numa ideologia. Dizendo de forma simples: ideologia nada mais é do que o conjunto de ideias que sustenta um conjunto de ações, e estas podem ser políticas, culturais, econômicas etc. O que pode haver é o impacto negativo, por exemplo, na deficiência da comunicação da realidade no âmbito da linguagem, que esta ou aquela ideologia é capaz de produzir quando torna-se imperante na esfera das discussões. Mas a ideologia per si não é — e nem pode ser – objeto dos esforços de uma pretensa erradicação.

Agradeço ao confrade Roberto Lacerda que, com bom humor, alertou-me sobre o uso dos termos ideologia e justiça num contexto inadequado. Sei que o amigo compreende que são vícios de um conservador. O mal da ideologia, como já explicaram bons ensaístas, é a substituição da visão da realidade pela mera visão das ideias que, frequentemente, passa longe de qualquer ponto de contato com o mundo real. Nesse sentido, seria uma tremenda tolice de minha parte insistir numa confrontação meramente ideológica contra aqueles que julgo fazerem mal à sociedade. Qualquer projeto de restauração cultural no Brasil deve procurar valer-se da união entre os seus diversos – ou divergentes – setores, desde que todos estejam empenhados com a realidade.

O Lacerda faz ainda, ao final do seu delicioso artigo, uma referência à divergência ideológica, no âmbito da literatura, entre Machado de Assis e Silvio Romero. Lúcia Miguel Pereira, biógrafa do autor de Memórias Póstumas de Brás Cubas, conta que Romero havia sido talvez o maior dos críticos de Machado de Assis. No entanto, o mote das suas análises frequentemente era o ressentimento. Romero provavelmente via-se maior do que realmente era; Machado, no entanto, percebia com bastante clareza os limites do talento do seu crítico. Crítica de amigo é bênção: torta na cara dos ressentidos!

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