Larissa Castelo Branco questiona a credibilidade das benevolentes e seletivas “agências de checagem” de notícias falsas.

A informação é um bem subjetivo, uma vez que parte de seu significado provém da percepção individual do receptor: a forma de receber, assimilar, interpretar e propagar a informação seria reflexo de aspectos do meio social e político.

A analogia seria simples: pessoas bem instruídas e esclarecidas saberiam filtrar a informação, enquanto alguém desprovido de base intelectual apenas dispararia o que quer que fosse no grupo da família, sem se importar com a veracidade. Foi esta (questionável) premissa que deu origem às agências fiscalizadoras de fake news, prometendo, com um discurso heroico, erradicar a desinformação, esse “monstro sórdido que sabota o senso crítico pessoal”.

Desde que o mundo é mundo, é necessário caminhar no vale da mídia como num campo minado, considerando a frequência diária de boatos, assassinatos de reputações, matérias pagas para tecer elogios (Mensalinho, quem lembra?), matérias sensacionalistas e artigos que parecem ter sido escritos com o pior que o ser humano tem a oferecer: a desonestidade e a má fé. A atitude cotidiana que impregna os grandes jornais nos remete aos pasquins e Canards, os jornais recheados de falsidades e maledicências que fizeram sucesso em Paris no século  XVII. Em tempos de democracia digital – insiram aqui muitas aspas – há uma quantidade infinita de vozes gritando ao mesmo tempo, todas prometendo esclarecimento, verdade e bom senso. 

Para prosseguir, é necessário entender em que consiste também a liberdade de informação. Ora, ela nada mais é do que o direito básico de informar-se, de beber de fontes diversas e absorver para si aquilo que lhe soa coerente ou verdadeiro. Conforme dito no início deste texto, trata-se de uma questão essencialmente de percepção individual.

É aí que mora o perigo: a casta intelectual e midiática não é simpática ao exercício da liberdade individual e cria expedientes obscuros para censurar veículos alternativos de informação, considerando-os propagadores de mentiras e fake news e gerando, assim, uma colisão entre a teoria e a realidade.

Se o cidadão tem direito à informação, qual o intuito das agências fiscalizadoras?

Estão elas realmente empenhadas em colaborar a um cenário informacional salubre, ou são meros subterfúgios para coibir a propagação de conteúdos considerados subversivos para a narrativa oficial?

Em meu primeiro contato com a internet, época em que só era possível acessar a rede após a meia noite, um dos maiores atrativos dos portais eram notícias porcamente escritas de tom sensacionalista, como “Conheça a vida da mulher que possui duas cabeças”, ou “Foi Encontrado o Monstro do Lago Ness, confira fotos”. Eu sempre soube que havia pouca possibilidade desses conteúdos serem reais. Contudo, garantiam boa audiência. Até hoje, histórias assim ganham curiosos, ainda que em número menor.

O que aconteceu e acontece hoje é que as pessoas ainda podem escolher aquilo que consomem. Cada um assume para si a responsabilidade de suas preferências, ainda que lhes cause grande constrangimento como, por exemplo, falar dos supostos esqueletos de sereias encontrados na costa americana enquanto sua roda de amigos discute os impactos econômicos diante da pandemia do coronavírus. O nome disso é liberdade individual.

É válido lembrar, caro leitor, que em sua qualidade de cidadão livre e pleno senhor de suas faculdades mentais e intelectuais, é dado a você o benefício do questionamento; seu pensamento se norteia por suas impressões e ninguém tem o direito de atentar contra isto. Bertold Brecht (vejam só!) nos alertava: “Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo, e examinai, sobretudo, o que parece habitual.” Logo, urge a necessidade de questionar ferrenhamente o discurso superprotetor das mentes por trás da checagem de fatos. Em suma, não é normal, tampouco aceitável, que a decisão sobre a veracidade ou falsidade dos fatos dependa de uma só entidade.

Não é difícil, hoje em dia, ver pessoas e páginas ter postagens derrubadas, covardemente caladas, simplesmente por ostentar um pensamento divergente, o qual se torna, para o cenário histérico do politicamente correto, sinônimo de “discurso de ódio” ㅡ a fachada perfeita para as tentativas de censura.

Proteger a livre circulação de ideias permite aos indivíduos filtrar o bom e o abominável. O mal, meus amigos, combate-se com boas ideias, boas palavras e bons pensamentos. Deixar o cidadão exercer sua liberdade e o poder por ela conferido é, atualmente, o maior grito de rebeldia contra o establishment, que intelectuais e privilegiados insistem em engiar-nos goela abaixo. Sufocar as “fake news” por discordar do autor ou da ideia demonstra, afinal, que os valores de quem tenta censurar foram sedimentados em areia movediça.

Breve, se os seus princípios são tão sólidos, por que o medo de uma visão diferente?

fim
Revista Esmeril - 2020 - Todos os Direitos Reservados

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