Morreu um grande. Fazem duas semanas, é verdade, este texto está atrasado, mas é difícil escrever sobre lendas – ainda mais uma com a qual tivemos a graça de conviver. Contudo, nesses tempos em que o Brasil carece de exemplos de bons políticos e de boas lideranças, é essencial que se faça. Eu, pessoalmente, tenho obrigação de fazê-lo; e é melhor tarde do que nunca.

José Francisco Sanchotene Felice tinha 84 anos quando faleceu no último dia 7 em Porto Alegre, vítima de uma pneumonia contra a qual lutava fazia um mês. Educador e empresário, Felice dedicou muito da sua vida à política e ao serviço público. Foi prefeito de Uruguaiana, deputado e secretário estadual, presidente da FASE (FEBEM, à época), além de professor e pró-reitor acadêmico da UFRGS.

Natural de Uruguaiana, pertenceu à geração que seguiu a “Geração de Ouro” da cidade; herdeiros de gigantes como João Francisco Tellechea, Eustáquio Ormazabal, Francisco Martins Bastos, entre outros tantos que transformaram o pequeno centro urbano isolado na fronteira com a Argentina no principal município da região e maior porto seco do Brasil.

Primo-irmão do meu pai, para mim, José Francisco sempre fora o “tio Felice”. Pessoalmente, não foram muitos os momentos em que passei com ele, mas todos me foram de grande aprendizado. Sempre gostei de política, e o tio gostava disso em mim. Se nunca me envolvi a fundo na política, isso é muito mais por mim do que por ele.

Politicamente, ele nunca se preocupou com ideologias. Sanchotene Felice, como ficou conhecido, era capaz de encaixar-se em diversos partidos: PDS, PSDB, Rede, etc. Tinha para si que o certo é certo, independentemente de onde viesse a ideia. Porém, seu perfil político não era conciliador. Pelo contrário, foi um político de rinha.

Não que ele fosse incapaz de negociar. Afinal, tinha experiência empresarial e, como deputado, fora autor de diversos projetos importantes transformados em lei. O perfil dele era de rinha por jamais fugir de uma briga – isso quando não se metia em peleias alheias por entender necessário.

Certa feita, quando foi prefeito de Uruguaiana, questionado por que a prefeitura estava atuando numa eleição de clube, Felice respondeu ao seu atônito secretário: “eu preciso me incomodar!” Agora, por que ele, prefeito, precisaria se incomodar num pleito de uma entidade privada? Porque Sanchotene Felice jamais deixara de ser professor.

Felice assumira o executivo municipal em 2005. A Uruguaiana que ele recebeu do seu antecessor era uma cidade suja, deprimida, e sem direção. A cidade que ele repassou ao seu sucessor era limpa, alegre, e orgulhosa de si. Era o auge do governo Lula, e Felice assegurou que Uruguaiana aproveitaria a oportunidade – mesmo que fosse necessário incomodar-se para isso.

Ele precisava se incomodar até com eleição de clube porque gestões ruins tinham passado a ser inaceitáveis na cidade, não apenas na prefeitura; e ele se incomodaria até que isso ficasse claro a todos. Para ele, o administrador é tanto um executor quanto um pedagogo; alguém que faz e que ensina a fazer. Entendia que educar as pessoas sobre o que é uma boa gestão faz parte das funções de um bom gestor.

Foi por agir assim sempre, fosse na UFRGS, na FEBEM, no Hotel Wamosy, ou na prefeitura de Uruguaiana, que se tornou um grande; uma lenda. Era esse o perfil político de Sanchotene Felice e é o seu principal legado. Faço o registro para que as novas gerações possam continuar aprendendo através de seu exemplo.

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