Quarto de Despejo não é apenas um livro. Tirando as formalidades editoriais que dão forma à obra, vê-se um grito abafado que sai do peito de milhões de brasileiros, cujas vozes são caladas por aqueles que tanto se gabam de falar em nome dos pobres. O relato cru de Maria Carolina de Jesus, residente da favela de Canindé, em São Paulo, catadora de lixo e mãe de três filhos, é a síntese dos dissabores de uma vida cujo arqui-inimigo é invisível, porém doloroso: a fome.

O livro ganhou fama após seus diários serem descobertos por Audálio Dantas, cuja vida cruzou com a de Carolina durante uma visita à favela onde a autora residia. Publicado pela primeira vez em 1960, o livro completa 61 anos em 2021 e passado todo esse tempo, percebemos que nada mudou: a vida nas favelas permanece a mesma, incerta e triste, porém agora com um elemento que a torna mais pesarosa ainda: a exaltação da pobreza como se esta fosse um produto que rendesse comoção e pautas de prosetilismo político, além da tendência ridícula de posar de favelado pra turminha de bacanas enquanto quem está no olho do furacão nem sabe que é tratado feito atração de circo.

O que a militância não te conta é que todo esse palco montado ao redor da vida nas favelas consiste no estabelecimento de uma mentalidade de conformidade, como quem diz ao pobre que a vida lá é boa, que a ele não é dado o direito de desejar sair daquele lugar Sair da favela? Pra quê? Como ficariam os projetos sociais dos bacanas e suas fotos no Instagram? Que produtos venderiam se não fosse a exploração da pobreza em seu estado mais cru? Não há interesse algum da elite cult bacaninha na luta real pela dignidade humana e as palavras de Carolina são as trombetas que anunciam toda essa espetacularização.

A vida na favela, de acordo com a própria Carolina, é marcada por espetáculos grotescos que ferem os olhos e a alma, nem as crianças são poupadas da degradação física, moral e mental de uma realidade permeada por desavenças entre vizinhos, a rua é o palco das celeumas e a morte ronda cada barraco. De facada ou de fome, não importa, o pobre é alvo fácil. O papel da mulher dentro da favela é demarcado: a ela, cabem as tarefas domésticas, as intrigas e disputas por homem. Carolina é uma exceção dentro da comunidade, tranca-se em casa e preserva os filhos, refugia-se nos cadernos e livros encontrados no lixo, escreve pra não morrer de tristeza.

Sempre que me deparo com o discursinho mequetrefe de que a favela é um ambiente salubre, este livro me vem à mente. Se tenho ou não propriedade pra falar por alguém, é pauta pra outra hora, a questão é que isso me soa aos ouvidos como uma espécie de amortecimento mental para que os vulneráveis se mantenham sempre na posição de defesa, deixando que os serzinhos iluminados os defendam do alto dos seus condomínios de luxo, usando a pobreza pra faturar e adotando a imagem do favelado apenas a título de aceitação social.

O livro foi lançado com todos os erros de escrita mantidos, o que torna a obra mais bonita ainda, a memória de Carolina se torna mais latente sem acentos e concordâncias, sem formalidades e sem firulas. Costumo dizer que o livro é um relato de sobrevivência, do qual são dispensadas obrigações editorais. Manuel Bandeira (sim, o próprio) intercede a favor, afirmando que “ninguém poderia inventar aquela linguagem, aquele dizer as coisas com extraordinária força criativa, mas típico de quem ficou a meio caminho da instrução primária.” Quarto de Despejo é uma obra indispensável àqueles que procuram entender a dinâmica da pobreza e almeja muito mais do que doações e caridade, mas também transformação social para que quem resida ali possua chances de lutar e mudar de vida.

fim
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