Longe das câmeras de Hollywood, do lançamento dos paraquedistas e nos desembarques nas praias, pouco se fala acerca da reação alemã nos dias seguintes à invasão

Em 6 de Junho de 1944, ocorreu a maior invasão marítimo–militar da história: o Desembarque das Tropas Aliadas na região da Normandia (França), em um imenso ataque contra a ”Fortaleza Europa” ocupada pelos alemães. A Operação Overlord se iniciou com uma onda de paraquedistas lançados 6 horas antes do desembarque anfíbio nas praias da Normandia, com o intuito de confundir as linhas alemãs e evitar um contra-ataque rápido nas praias que seriam invadidas. Assunto que foi tema do último artigo de nossa coluna (você pode acessar clicando aqui).

Tropas aliadas desembarcando na Normandia (França).

Mas pouco é divulgado acerca da reação alemã. Qual foi a primeira ação tomada por Hitler? Como ele reagiu?

O caos silencioso de 6 de Junho

Hitler em sua casa de verão.

Durante os desembarques iniciais do Dia-D, Hitler estava dormindo em sua residência nos Alpes da Baviera e ninguém ousou acorda-lo, temendo pelas clássicas reações de histrionismo. Ainda mais quando o mesmo havia insistido que qualquer ataque inicial seria uma armadilha pra desviar as forças de contra-ataque alemão de um desembarque definitivo em outro. Visão resultante do plano de engano dos Aliados, ”Operation Fortitude”, em que foi criado um exercito invasor inteiro falso de plástico e papelão para dar a entender que o desembarque seria em outra região francesa, Pas de Calais. Tamanho foi o sucesso dessa ação Aliada que muitas unidades alemãs foram mantidas longe do campo de batalha da Normandia até julho.

Hitler foi acordado somente por volta do meio-dia. Não tendo nenhuma reação de nervoso ou tristeza, na verdade parecia aliviado. Ele considerava as tropas aliadas muito inferiores às unidades alemãs, estando agora ao alcance dos canhões alemães. Não mais protegidos na Inglaterra. Mas o êxtase matinal de Hitler foi um erro tremendo, pois enfraqueceu significativamente a resposta alemã às forças aliadas que desembarcavam.

Já no início da invasão, mais de 6 horas antes de Hitler acordar, o Marechal de Campo alemão Gerd von Rundstedt, havia solicitado a liberação imediata de duas divisões panzer de reserva mantidas na área de Paris para uso contra a cabeça de praia da Normandia a cerca de 200 quilômetros de distância. Ele teve que pedir por eles porque não estavam sob seu comando. Eles eram controlados pelo ”Oberkommando der Wehrmacht” (OKW), o quartel-general militar geral na Alemanha, que cada vez mais não tinha autonomia de decisão por conta das interferências no campo de batalha feito por Hitler em inúmeros episódios na invasão da União Soviética.

Após a hora do almoço, Hitler finalmente concordou com o pedido do Marechal. Mas já era tarde demais. Agora eles tinham que esperar o anoitecer, para não serem destruídos pelas aeronaves aliadas Se eles tivessem se movido no início da manhã, sob o manto da escuridão, poderiam ter chegado à frente de batalha.

Soldado alemão com sua metralhadora MG-42 disparando contra o desembarque Aliado na praia de Omaha (Normandia). Filme ”O Resgate do Soldado Ryan” (Steven Spielberg – 1998).

A reação alemã aos desembarques no 6 de Junho foi lenta e confusa. As tropas que guarneciam a defesa costeira fizeram tudo o que podiam, infligindo pesadas baixas às forças americanas que atacavam as praias, principalmente a de Omaha. Mas a resistência alemã foi suficiente para impedi-los de alcançar muitos de seus objetivos do primeiro dia. Mais crucialmente, uma defesa vigorosa da Divisão Panzer impediu os britânicos de tomarem a cidade de Caen.

Dias e semanas seguintes

As disposições dos blindados alemães significavam que apenas a 21ª Divisão Panzer estava imediatamente disponível para um contra-ataque. Algumas de suas unidades já haviam sido engajadas pelas forças aerotransportadas britânicas, mas só no meio da tarde do Dia D é que a divisão panzer finalmente avançou contra os britânicos ao norte de Caen. O ataque alemão foi repelido por tanques e artilharia britânicos. Alguns panzers realmente alcançaram a costa, mas tiveram que se retirar. Eles perderam 70 de 124 tanques.

Granadeiros da 12th SS Divisão Panzer ”Hitlerjugend” em Norrey-en-Bessin, noroeste de Caen (França), 9 de Junho de 1944.

As reservas blindadas autorizadas por Hitler só chegaram em 7 de Junho. Outras tropas também começaram a se mover do sul da França, mas seriam atrasados por sabotagem dos ”partisans” e ataques aéreos dos Aliados. Outras formações também surgirão ao longo dos dias, como a 17ª SS em Carentan em 11 de Hunho, a 2ª Divisão Panzer em 12 de junho e a 1ª SS Leibstandarte Adolf Hitler. As divisões de campo regulares começaram a se mover para lá, mas como dependiam de cavalos e de seus próprios pés, essas infantarias demoravam mais que as formações blindadas.

O fracasso britânico em tomar Caen no Dia-D e progredir mais para o interior significa que os alemães foram capazes de colocar forças suficientes na área de batalha para conter os exércitos aliados. Provaram ser um oponente ainda formidável apesar de todas as falhas logísticas de sempre. Não foram capazes de um grande plano para um grande contra-ataque contra as tropas Aliadas, mas os mesmos foram impedidos de continuar seu próprio avanço.

Durante o resto de junho, o General Bernard Montgomery, comandante todas as forças terrestres aliadas, fez várias tentativas de tomar Caen. Todas falharam diante da resistência alemã. O terreno defensável deu uma vantagem significativa aos alemães que desfrutavam de certa medida em superioridade de qualidade de armas. Mas os alemães não tinham resposta para o poder de fogo dos Aliados, como os ataques aéreos, a artilharia pesada e o bombardeio naval que esgotavam as formações já insuficientes. Os alemães perdiam homens e tanques que não podiam ser substituídos. A ferocidade dos combatentes alemães era minada pela sua própria incapacidade logística.

Panzerkampfwagen VI Tiger II foi distribuído para batalhões de tanques pesados do Exército e da Waffen-SS. Usado pela primeira vez em combate pelo 503º Batalhão Panzer, durante a invasão Aliada da Normandia em 11 de julho de 1944.

Somente em Agosto, Hitler finalmente concordou com uma retirada em grande escala. Era tarde demais, mas muitas tropas conseguiram sair do cerco que ficou conhecido como Bolsa de Falaise, tendo que abandonar quase todos os seus veículos e equipamentos. Os Aliados finalmente se uniram em Chambois em 19 de agosto, mas mesmo assim uma defesa local desesperada manteve o bolso aberto por mais dois dias. A resistência finalmente cessou em 22 de agosto. 20.000 soldados alemães escaparam, mas o Sétimo Exército e o Quinto Exército Panzer efetivamente deixaram de existir.

Vinte e cinco das 38 divisões alemãs foram totalmente destruídas. O resto foi reduzido a restos despedaçados. No total, os alemães sofreram 290.000 baixas na Normandia, incluindo 23.000 mortos, 67.000 feridos e cerca de 200.000 desaparecidos ou capturados. Cerca de 2.000 tanques foram comprometidos com a batalha, mas as divisões panzer ficaram com cerca de 70 tanques entre elas.

Conclusão

Mapa Operacional das posições Aliadas e do Eixo na França de 1-13 de Agosto de 1944.

Os Aliados contavam com um enorme poder de fogo, superioridade aérea e os recursos disponíveis. A ”Operation Fortitude” convenceu Hitler de que a Normandia era apenas um ”truque”, os históricos de interferências de Hitler em seu Alto Comando cobrou seu preço de falta de autonomia para tomar decisões cruciais na frente de batalha logo no início dos desenrolares e a já conhecida falha logística alemã novamente impediu ações maiores em momento decisivos. Dificilmente as forças armadas alemãs pudessem ter mudado o resultado desse cenário por muito tempo. Mas mesmo com inúmeros erros, sem proteção aérea, sofrendo de escassez de equipamentos e com reforços mínimos, conseguiram manter as forças aliadas com uma enorme pedra no sapato por sete semanas. A campanha na Normandia foi uma derrota militar para as forças armadas alemãs, mas também foi uma exposição do poder de luta do soldado alemão.

Referência

Imperial War Museums, The German Response To D-Day, acessado pela última vez em 08 de Junho de 2021 – https://www.iwm.org.uk/history/the-german-response-to-d-day


”Enquanto a filosofia que declara uma raça superior e outra inferior não for finalmente e permanentemente desacreditada e abandonada; enquanto não deixarem de existir cidadãos de primeira e segunda categoria de qualquer nação; enquanto a cor da pele de uma pessoa não for mais importante que a cor dos seus olhos; enquanto não forem garantidos a todos por igual os direitos humanos básicos, sem olhar a raças, até esse dia, os sonhos de paz duradoura, cidadania e governo irão continuar a ser uma ilusão fugaz, a ser perseguida mas nunca alcançada.”

– Liga das Nações, Discurso da Majestade Imperial Haile Selassie I (Ras Tafari), Imperador da Etiópia, 1936.

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