Entenda como uma fake news “científica” veiculada nos jornais americanos em 1910 apavorou meio mundo de gente

Edmond Halley (1656-1742), astrônomo e matemático inglês, foi um dos figurões da Royal Society e um dos amigos pessoais que convenceram Isaac Newton a publicar parte de seu trabalho esotérico sob a forma de “Princípios Matemáticos da Filosofia Natural“, em 1687. Halley ganhou fama nos altos círculos científicos no século XVIII pelos resultados do seu trabalho que determinava a periodicidade dos cometas. No seu famoso livro Uma Sinopse da Astronomia dos Cometas publicado em 1705, Halley descreve a observação das órbitas de 24 cometas. Um dos objetos observados chamou especialmente a sua atenção.

Ao observar um cometa em 1682, Halley percebeu que ele era semelhante aos cometas relatados nos anos de 1531 e 1607, e afirmou que os três eram o mesmo objeto em órbita ao redor do sol. O astrônomo previu o seu regresso em 1758, e estava certo, embora por pouco — o corpo celeste fora avistado em 25 de dezembro. O objeto fora batizado com o nome do seu ilustre observador: Cometa Halley. Portanto, desde o nascimento do período histórico conhecido como Era Moderna, nós, cidadãos do planeta Terra, estamos habituados à visita periódica do Cometa. Halley fascina as pessoas com a sua visita a cada 76 anos.

Como a mídia alimenta-se dos fatos extraordinários para causar sensação e atrair leitores, a passagem do Cometa Halley sempre foi tema para as mais esdrúxulas especulações dos bem-falantes. A visita do Cometa em 1910 entrou para os anais da história jornalística do século XX pela cômica participação de grandes veículos de mídia. Naquele ano os jornais anunciaram que a passagem do Halley resultaria num espetáculo nos céus do planeta. Mas um “espetáculo” já não era o bastante para prender a atenção daquela gente nervosa que começava a experimentar as novidades do novo século.

A passagem do Cometa estava prevista para o mês de maio e, conforme a data se aproximava, os jornais, desesperados, começavam a veicular mais e mais informes científicos sobre o evento astronômico com o claro intuito de atrair mais leitores. Um burburinho — provavelmente decorrente de informações científicas interpretadas com um enviesamento sensacionalista — dizia que cientistas calcularam que poderíamos passar pela cauda do Cometa. No entanto, o estopim para o pânico fora outra notícia, mais soturna: cientistas descobriram que a cauda do Cometa Halley era composta por cianogênio, um gás mortífero.

O jornal San Francisco Call estampou numa manchete de fevereiro a opinião do astrônomo francês Camille Flammarion (dono de relativa fama pelo seu trabalho de popularização da Astronomia e pelo seu envolvimento com atividades esotéricas): “Cometa pode matar toda a vida na Terra, diz cientista“. O gigante The New York Times também contribuiu com a disseminação do pânico entre os seus leitores, dando voz para a opinião de Flammarion. Uma de suas matérias sobre o evento trazia a seguinte manchete: “O professor é da opinião de que o gás cianogênio poderia impregnar a atmosfera e possivelmente extinguir toda a vida do planeta“. A publicação nova-iorquina, contudo, informava também que outros cientistas discordavam de Flammarion. Mas o circo já estava armado.

Surgiram “pílulas anticometa”, máscaras de gás e até — pasme o leitor! — guarda-chuvas de proteção contra cometa! Um periódico de Chicago noticiou que as crianças, com medo do gás, em prantos, pediam aos seus pais para ficarem em casa. Em Wisconsin, fazendeiros retiraram seus para-raios, temerosos em atrair o Cometa; e organizações distribuíam panfletos com orientações para o isolamento da população com dicas de como melhor fechar as portas e janelas contra o gás venenoso. Outro grande jornal, o Los Angeles Herald, relatou um caso curioso de um homem do Estado do Arizona que teve de ser trancado na “prisão da cidade de Carter” porque entrou em pânico. O sujeito dizia que a cauda do Cometa o estaria sufocando. A venda de telescópios e binóculos dispararam e muitos hotéis também lucraram com a venda de suas coberturas para a observação do evento “apocalíptico“.

A próxima visita do Cometa Halley está prevista para 28 de julho de 2061.

Com informações do Portal Terra e do Livro da Ciência, enciclopédia editada pela Globo Livros Editora.

“Há duas coisas infinitas: o universo e a estupidez humana”.

Albert Einstein.

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