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terça-feira, 21 setembro, 2021

Os roubos de Arte mais audaciosos e curiosos da História

Revista Mensal
Larissa Castelo Branco
Bibliotecária em hiatus que se aventura na escrita, revisora textual, metida a cinéfila e apaixonada por Comunicação e Literatura. Em constante batalha contra a desinformação e a histeria coletiva, aprendeu com a esquerda como um ser humano não deve ser.

Audácia e genialidade para roubar nem sempre são acompanhados por sofisticação e inteligência

Em março, a Netflix lançou a série documentária O Maior Roubo de Arte de Todos os Tempos, que conta em 4 episódios toda a história sobre o famoso roubo do Museu Isabela Gardner, em 1991, na cidade de Boston.

À época, foram furtadas obras de ninguém menos que Rembrandt, Degas e Vermeer. Ao total, o dano foi de US$ 500 milhões e um enigma até hoje não solucionado: o paradeiro dos itens.

No espectro do senso comum, crimes são atos que deveriam ser jogados pra sempre no limbo do esquecimento, a fim de não fomentar a exaltação a quem os executa. É preciso admitir, contudo, que algumas histórias são tão peculiares e cheias de detalhes intrigantes que é impossível não despertarem o interesse do público.

Há de se compreender a movimentação assombrosa do comércio ilegal de obras de arte. Conforme o FBI, o tráfico de obras de arte movimenta cerca de seis milhões de dólares e ocupa a 3ª posição entre os crimes mais rentáveis, perdendo apenas para o tráfico de drogas e armas.

No portal National Stolen Art File, banco de dados mantido pelo FBI, há uma gama considerável de obras desaparecidas, entre as quais objetos de decoração, pinturas, esboços e esculturas. Ou seja, grandes registros do patrimônio cultural do mundo estão em mãos anônimas, e até mesmo perigosas.

Para compreendermos todo o interesse que alavanca este mercado, é preciso considerar a existência de certos critérios que tornam algumas obras de arte tão valiosas. Antes de tudo, é bom explicar que a complexidade em torno da produção não possui ligação alguma com o valor que lhe é atribuído.

Em 2013, por exemplo, Silver Car Crash (Double disaster), do “gênio” da Pop Art Andy Warhol, foi vendido por US$ 105,4 milhões de dólares, consagrando-se como quadro mais caro do artista comercializado.

Os materiais utilizados pelos artistas também são irrelevantes, assim como a técnica aplicada à obra. A Art Povera que o diga. Então, limando a tríade complexidade – material – técnica, o que torna obras tão disputadas e valiosas?

Primeiro: o nome do artista. Não se adquire um A Noite Estrelada, mas sim um Van Gogh. Toda a trajetória do artista e o mistério em torno de sua identidade pesam no valor. O nome deixa de ser um mero vocativo e passa a se tornar uma marca, legitimando tudo que o artista produziu.

Além deste quesito, o conceito de “menos é mais” é amplamente empregado no mercado de arte. Quanto menos produções, mais o arcabouço daquele artista é valioso.

Obviamente que um mercado tão lucrativo não operaria em caráter 100% legal. Conforme a Interpol, há cerca de 40.000 obras furtadas, acarretando em um dano de até 12 bilhões de dólares.

Elencados os motivos de tamanha fissura no mundo das artes, este artigo falará sobre os 7 maiores roubos de Arte de todos os tempos, em termos financeiros e culturais.

1. O Roubo da Monalisa

O sorriso mais enigmático do mundo das pinturas sempre foi alvo de desejo, quem nunca desejou ser observado por La Gioconda ao vivo e a cores?

Desde 1797, ela está exposta no Museu do Louvre, mas, em 1911, esta história teve seu percurso um tanto alterado. No dia 21 de agosto, o espaço destinado a ela amanheceu vazio e seu furto gerou até mesmo intrigas entre artistas. O poeta Guillaume Apollinaire foi preso como suspeito pelo roubo e acusou ninguém menos do que Pablo Picasso de ter afanado a Monalisa. Nada foi comprovado contra ambos e o mistério só teve solução dois anos depois: o quadro fora roubado por Vincenzo Peruggia, à época funcionário do Louvre.

Seu plano de roubo não foi dos mais geniais: o homem ficou escondido no armário de vassouras do Louvre durante a noite inteira após seu turno e, ao raiar do sol, levou consigo Monalisa embaixo do casaco.

O que chama a atenção para este furto é a motivação de Vincenzo: ora, Monalisa fora concebida na Itália e Vincenzo queria levá-la de volta à terra natal de onde fora tirada por ordem de Napoleão Bonaparte. Entretanto, o homem estava terrivelmente errado: Da Vinci em pessoa vendeu Monalisa a Francisco 1º, ainda em 1516.

Vincenzo foi condenado a 1 ano e 15 dias de prisão. É, o patriotismo tem lá seus dissabores…

2. O caso do Museu Isabella Gardner

Muito bem abordado na Netflix, o caso do museu localizado em Boston ainda carrega consigo uma aura misteriosa, em especial pela falta de informações sobre o paradeiro das obras.

No dia 15 de março de 1990, dois policiais bateram à porta do museu e, ingenuamente, os dois guardas de plantão permitiram a entrada, sendo então rendidos e amarrados. Os ladrões passaram por várias galerias do museu e conseguiram levar 13 obras, totalizando um prejuízo de US$ 300 milhões, conforme calculado na época.

Dentre os desaparecidos ainda hoje, estão obras de Degas, Rembrandt, Vermeer e Manet (favor não confundir com Monet). O FBI mantém uma recompensa de US$ 5 milhões de dólares para quem souber o paradeiro dos quadros.

3.  Ameaça Subterrânea

Em 29 de julho de 2002, o Museu Nacional de Bellas Artes de Assunción, Paraguai, foi palco do “roubo do século”, o mais ousado já noticiado no país. O crime, contudo, fora planejado seis meses antes por Narciso Ramón Narvaes e Wilfrido Alvarez Cubas.

É interessante comentar que o museu está situado em uma área de intensa efervescência cultural e, portanto, bastante conveniente.

Os dois criminosos alugaram uma casa próxima ao museu e cavaram um túnel de 25 metros de extensão, 1,10 de altura e 3,5 de profundidade, que ligava os dois locais. O túnel foi revestido com madeira para que não houvesse risco de deslizamentos e, por ele, os ladrões conseguiram levar 5 quadros valiosos e pertencentes a uma coleção particular. Somados, os itens valem mais de 1 milhão de dólares.

Acredita-se que o roubo tenha sido encomendado e os ladrões eram profissionais. O cuidado com as pinturas reforça a teoria.

Lotte Schultz, diretora do museu à época, afirma que os ladrões dispunham de ferramentas para retirar as obras da moldura e sabiam que se o tecido fosse cortado, o valor seria perdido, então os maiores quadros foram levados com as próprias molduras. As obras furtadas foram: Virgem com o Menino Jesus, de Esteban Murillo (a única encontrada); Paisagem, de Gustave Courbet; Cabeça de Mulher, de Adolphe Piot e São Jerônimo, obra de um pintor anônimo remanescente do Barroco.

4. Fuga Cinematográfica

Não se sabe se os ladrões foram movidos por um ímpeto de muito bom gosto artístico ou se realmente foram apenas ousados. O fato é que, em 2000, quatro homens adentraram, armados com metralhadoras, o Museu Nacional de Estocolmo, na Suécia.

A falta de sutileza dos criminosos contrasta (e muito) com os objetos de roubo: um Rembrandt e dois quadros de Renoir. O grupo conseguiu fugir de barco levando consigo mais de US$ 30 milhões de dólares em pinturas.

Além da fuga digna de filme, os criminosos coordenaram distrações para atrapalhar a polícia: dois veículos foram incendiados em locais diferentes e spikes foram colocadas nas imediações do museu para furar o pneu dos veículos.

Tanta ousadia infelizmente não foi acompanhada de genialidade: poucos dias depois, os homens foram presos tentando vender o autorretrato de Rembrandt, que sozinho custa U$ 40 milhões. Após a prisão, todos os quadros foram recuperados.

5. Made in Brazil

Em 2007, o Museu de Arte de São Paulo (MASP) foi cenário de um furto que durou 3 minutos. Isso mesmo: em 3 minutos, duas obras foram furtadas; uma de Portinari (O Lavrador de Café) e outra de Picasso (O Retrato de Suzanne Bloch). As obras foram levadas pela porta da frente do museu.

Os criminosos aproveitaram a troca de turno entre os seguranças: entraram às 5:09 e saíram às 5:12 com US$ 100 milhões em arte. Já imaginou se essa celeridade fosse aplicada em atendimentos, processos e demais setores vítimas da burocracia? Pois é…

O roubo terminou com um final feliz (para o museu), após duas semanas, as obras foram encontradas na cidade de Ferraz de Vasconcelos. Os acusados relataram a oferta de R$ 5 milhões pelo roubo encomendado. A história ganhou uma versão em quadrinhos, contada aqui.

6. Um apelido bem contraditório

Em 2010, um roubo inusitado no Museu de Arte Moderna de Paris chamou a atenção simplesmente porque um único homem conseguiu realizar a audaciosa tarefa de roubar cinco obras sozinho (!!) sem que um único alarme soasse e denunciasse o que estava ocorrendo ali.

Vjaram Tomic, conhecido por “Homem Aranha”, rompeu o cadeado do portão do museu e entrou por uma janela, levando nada menos do que: La pastorale, de  Henri Matisse, Le pigeon aux petits pois, de Picasso; L’olivier près de l’estaque, de Braque; Nature morte aux chandeliers , de Léger e La femme à l’éventail, de Modigliani. Três pessoas foram julgadas pelo crime: Tomic, Yonathan Birn, um comerciante de itens de luxo, e Jean Michel Corvez, acusado de ter encomendado uma das obras.

Durante o julgamento, Tomic afirmou que fora contratado por Corvez para roubar apenas o Léger, mas como o alarme do museu não disparou, o homem resolveu levar outras obras consigo, afinal, ele já estava lá mesmo…

Vendo o resultado do roubo, Corvez pediu gentilmente para que o amigo Birn guardasse as obras em seu estabelecimento, o que foi aceito prontamente; porém, tomado pelo medo de ser descoberto, as destruiu. Uma perda inestimável para o mundo das artes.

7. Um roubo de peso

Pelas proporções homéricas (1,8 metros de altura e 3,6 metros de largura) e singelas 2 toneladas, a escultura Reclining Figure LH608 não era um objeto de preocupação.

Descansava em berço esplêndido no jardim da fundação que leva o nome de seu criador, Henry Moore, até 2005, quando 2 veículos invadiram o imóvel e subtraíram a escultura com um guindaste.

Por alguma razão, os criminosos acharam que seria suspeito andarem por aí com uma escultura gigantesca e logo trataram de se livrar dela. Final do roubo: a obra, de valor estipulado em £ 3 milhões, foi vendida por simbólicos £ 1500 a um ferro velho.

O fato foi descoberto apenas em 2009 e até hoje não se sabe a identidade de quem cometeu o crime.


A arte é a autoexpressão lutando para ser absoluta.

– Fernando Pessoa

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