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quinta-feira, 28 outubro, 2021

‘Michael Kohlhaas’: a justiça por caminhos injustos

Revista Mensal
Antonio Fernando Borges
Antonio Fernando Borges é escritor (Braz, Quincas & Cia. e Memorial de Buenos Aires, entre outros) e professor/consultor de Arte da Escrita.

”Na Biblioteca de Borges – que outros chamarão de Universo –, há prateleiras inteiras dedicadas a todos os dramas que se precipitaram sem máscara no cotidiano do homem moderno”

Ao contrário do que apregoam as bandeiras e slogans que a brisa da Revolução beija e balança, acontece com o poder o mesmo que com o fermento adicionado à massa do pão: só faz crescer, incessante. Por mais que os ideólogos da Modernidade espalhem a lenda urbana de que a história do poder é a de seu abrandamento, considero cada vez mais oportuno o diagnóstico do historiador francês, Bertrand de Jouvenel (1903-1987): a rigor, o Poder nunca experimentou nenhuma redução significativa ao longo do tempo – pelo contrário, expandiu-se mais e mais, desde o fim da Idade Média europeia.

Defendido tradicionalmente como um princípio de autoridade necessário, mas na verdade um eficientíssimo limitador da liberdade, um dia o Poder (que Jouvenel grafava sempre com P maiúsculo) passou a ser paradoxalmente alardeado e defendido como “agente da própria liberdade”. E o francês acrescentava: “A transformação do Poder aconteceu de um jeito que fez desaparecer toda e qualquer desconfiança em relação a ele. E esse crédito acumulado preparou a era das tiranias”. (grifo meu)

Na mosca! E a Revolução Francesa que o diga. Na verdade, a autoridade não se fragmentou a ponto de se tornar mais sutil, ou seu jugo mais suave. Ao se pulverizar no personalíssimo corpo-a-corpo, o conflito indivíduo-Estado ganhou atualmente uma versão mais cruel e intransponível. O homem mais forte é o que está mais só, dirá o norueguês Henrik Ibsen, em seu Um Inimigo do Povo. Mas tudo se resume a um tudo-ou-nada, que pode ser rápido e cirúrgico.

Na Biblioteca da Borges – que outros chamarão de Universo –, há prateleiras inteiras dedicadas a todos os dramas que se precipitaram sem máscara no cotidiano do homem moderno. Na maioria deles, já estão devidamente previstos o guarda da esquina e vigilante de shopping que pedem que coloquemos a famigerada máscara ou mostremos o infame passaporte sanitário.

E, entre estes pioneiros, destaca-se brilhantemente O Processo de Franz Kafka, ao colocar nosso “bicho da terra tão pequeno” (expressão crudelíssima de Camões) frente a frente com o aspecto mais doído da acusação: a indefinição ou volatilização de sua culpa. Afinal, como se defender em território assim tão etéreo?

Mas, como já sabemos desde pelo menos Hofmannsthal, a imaginação vem antes da ação – e, inevitavelmente, a imaginação tem também seus antecessores e pioneiros. No caso de Kafka, bem antes que alguém tivesse caluniado Joseph K. (e ele fosse misteriosamente detido certa manhã, logo ao acordar), houve o comerciante de cavalos Michael Kohlhaas, protagonista do romance homônimo do prussiano Heinrich von Kleist (1777-1811), lançado em 1808 mas ambientado no século XVI. Como Joseph K., Kohlhaas também se viu brutalmente cerceado em seus direitos (no caso, de atravessar a velha Prússia, para vender seus animais em outra comarca). Da mesma maneira kafkiana, e avant la lettre, os bens de Kohlhaas (seus cavalos) são ilegalmente apreendidos por ordem de “não se sabe exatamente quem” – e, quando foram enfim devolvidos, estão magérrimos e imprestáveis.

Sete décadas antes do nascimento de Kafka, o personagem Michael Kohlhaas sofre uma tremenda injustiça – e, ao procurar reparação, depara-se com o nepotismo e arbitrariedade dos poderosos de seu tempo. Opta então pelo tentador caminho de “fazer justiça pelas próprias mãos”, tornando-se um temível chefe bandoleiro e espalhando terror e destruição – corrompendo, enfim, seu caráter e sua alma. Entre mil e uma reviravoltas e intrigas palacianas que envolvem uma guerra entre a Saxônia e a Polônia e a intervenção de ninguém menos do que Martinho Lutero em pessoa, Kohlhaas consegue enfim a justiça tão almejada – mas, se venceu na “abstração da Lei, acabou perdendo na vida real: é condenado à morte e executado.

Romance curto, mas intenso e atribulado, Michael Kohlhaas conta enfim a saga de um homem bom e justo, que ao lutar contra uma injustiça acaba caindo na armadilha de se tornar ele mesmo injusto e mau. Mais do que o superestimado Ulysses de James Joyce, eu apontaria o livro de Heinrich von Kleist como o herói da odisséia do homem moderno – mais até (ouso arriscar) do que as propaladas distopias dos Orwells e Huxleys, que ocupam prateleiras mais óbvias na Biblioteca de Borges.

Certamente, o poder constitui sempre um grande perigo. E não apenas quando se concentra nas mãos de um tirano: ele é especialmente perigoso quando se capilariza e se multiplica de modo discreto, até chegar ao proverbial guarda da esquina – aquele em quem Pedro Aleixo (vice de Costa e Silva, nos idos de 1968) vislumbrava uma ameaça maior do que a dos generais do regime, e a quem hoje precisamos nos explicar a respeito de máscaras e atestados de vacinas. Dizem que a tragédia se merece, como tudo o que é grande. Mas o triste anticlímax é que estejamos reduzidos ao drama menor de saborear o pão-dormido, curtido no antifermento, com um café requentado, na padoca da esquina.


O Universo, que outros chamam de Biblioteca…

— Jorge Luís Borges (A Biblioteca de Babel)

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