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domingo, 5 dezembro, 2021

Werther e Caulfield: a morte pela Literatura

Revista Mensal
Antonio Fernando Borges
Antonio Fernando Borges é escritor (Braz, Quincas & Cia. e Memorial de Buenos Aires, entre outros) e professor/consultor de Arte da Escrita.

Por que os jovens leitores de J. Wolfgang Goethe e J. D Salinger não podem suportar tanta realidade

Na tarde de 4 de janeiro de 2016, uma funcionária da biblioteca da Escola Estadual Professor Fernando Magalhães, no pequeno e pacato município paulista de Caconde, foi atingida em cheio por uma avalanche de livros: a estante, presa à parede, tombou sobre ela e uma prateleira prensou seu pescoço. Acostumada ao convívio com os livros, a desditada acabou conhecendo de forma inusual o peso das Letras. Tinha 52 anos e, automaticamente, passou a integrar a extensa lista das formas bizarras de morrer. Mesmo assim, casos como o seu continuam sendo raros e pontuais. Por isso, quando a mídia e a filosofia barata falam de livros assassinos, em geral estão se referindo a “outra coisa”…

Na Biblioteca de Borges, uma premissa percorre as prateleiras de forma sutil e meio invisível: “As ideias têm consequências”, como reza o conceito-título da obra de Richard M. Weaver, formando um par-perfeito com a máxima de Hugo von Hofmannsthal, que lhe é anterior e funciona como uma espécie de emblema desta coluna. “A imaginação vem antes da ação” – o que nada tem a ver com os equívocos do Idealismo de Kant & Cia.

Feita a ressalva, basta que a mão passeie pelas prateleiras da nossa Biblioteca para logo encontrar alguns exemplos famosos de romances “homicidas” – e não como aqueles que vitimaram a pobre bibliotecária, mas no sentido “sinistro” que quer significar “outra coisa”. Certamente eles devem ser muitos, mas fiquemos com dois que as lendas extraliterárias consagraram: O Apanhador no Campo de Centeio, de J. D. Salinger, e Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Johann Wolfgang Goethe. Dois livros cujos protagonistas juvenis provocaram estragos entre os leitores.

Embora separados por mais de 170 anos (Goethe lançou o seu em 1774; Salinger, em 1952), a juventude dos personagens principais os aproxima, e nos oferece um exemplo de ironia nada literária: mesmo sendo breve e fugaz na existência limitada de cada um de nós, a mocidade tem um jeitão de eterna. Afinal, com poucas e circunstanciais diferenças, ela parece não variar muito ao longo do tempo, de Werther a Holden Caulfield, o “apanhador” do título.

Um homem se apaixona por uma mulher, a doce Charlotte, que acaba se casando com outra pessoa – e, não suportando a frustração, comete suicídio. Este é o enredo do Werther, de Johann Wolfgang Goethe. Já O Apanhador, de J. D. Salinger, trata da epopeia de Holden Caulfield, que aos 16 anos resolve abandonar o internato onde estuda, depois de ser reprovado em quase todas matérias. Mas, antes de enfrentar o sermão dos pais, ele decide ficar vagabundeando pela cidade até acabar seu dinheiro.

Em breve síntese: o primeiro romance narra uma história trágica de amor; o segundo, os acontecimentos quase banais de um adolescente sem nada de extraordinário. O que pode aproximar então um moço alemão sensível e apaixonado de um cínico e juvenil rebelde-sem-causa? Eu diria que é a mesma inexperiência de transformar (ainda que de modo antípoda) vivências comuns em emoções hiperbólicas. Afinal, só a maturidade vem ensinar que o arrebatamento amoroso e o ócio absoluto costumam ser companhias daninhas.

O romantismo de Goethe e o comportamento esquisitão de Salinger certamente contribuíram para que a posteridade consagrasse os dois romances. Mas seu ingresso na História Trágica da Leitura – vulgo crônica policial – está mais relacionado ao que aconteceu em torno e/ou a partir deles.

No Departamento das Ideias que Têm Consequências, vemos então:

* O Apanhador no Campo de Centeio teve entre seus leitores fervorosos alguns dos assassinos mais afamados da história recente: Robert John Bardo, o matador da jovem atriz Rebecca Schaeffer (1967-1988), que a perseguiu durante três anos antes de consumar o crime; John Hinckley Jr., autor dos disparos contra Ronald Reagan que em 1981 quase mudou os rumos da política norte-americana; e o mais famoso deles, Mark David Chapman, estranha modalidade de fã dos Beatles que matou John Lennon em 1980 – todos eles declararam ter lido e relido o romance de Salinger. Chapman, aliás, confessou que pretendia mudar seu nome para o do lunático protagonista Holden Caulfield.

* Os Sofrimentos do Jovem Werther não provocou menor estrago entre os leitores – que, embora menos notáveis, ganharam largamente em quantidade. O pequeno romance de Goethe, que poderia ter sido apenas mais uma história trágica de amor, saltou das páginas impressas para desencadear um grande problema: o suicídio de muitos jovens europeus, que se mataram usando pistola e roupas parecidas com as do protagonista. Muitos anos mais tarde (em 1974), o fenômeno inspirou o pesquisador americano David Phillip a cunhar o termo Efeito Werther – para nomear justamente um aumento incomum do número de suicídios depois de algum caso chocante amplamente divulgado pela mídia.

Recorrendo à Psicologia e à Sociologia (primas-pobres da Filosofia, no esforço de entender o espírito humano), não é difícil colocar tantos desatinos em sua devida escala e proporção: no fim das contas, a influência sobre assassinatos e suicídios só surte efeito com criaturas já em estado considerável de vulnerabilidade – o que não exclui a responsabilidade da mídia e dos folhetins sobre as eventuais “Bovarys” de plantão. E o eterno romantismo, que atravessa as épocas e acompanha os jovens, encarrega-se dos “detalhes”.

Mas se psicólogos e sociólogos não fazem mais do que o trivial, i. e., o simples dever-de-casa, felizmente temos o auxílio luxuoso da Filosofia – em especial, neste caso, a contribuição do filósofo político alemão Eric Voegelin (1901-1985), que nos legou o conceito de “segunda realidade”, designando o perigoso mecanismo de manipulação com que ideólogos e militantes submetem legiões de desavisados a um estado de auto-embotamento espiritual, do qual eles próprios são as primeiras vítimas. A “segunda realidade”, diz mestre Voegelin, é uma patologia da consciência deformada de muita gente que há tanto tempo delira impunemente pelas ruas e bibliotecas, livrarias e shows de rock.

Pequenas diferenças e variantes à parte, todos estes trágicos leitores de Goethe e Salinger me parece terem sido acometidos da mesma antiga doença – que não passou despercebida para a Literatura. Como disse o grande poeta T. S. Eliot (em Burnt Norton, um dos Quatro Quartetos), “o gênero humano não pode suportar tanta realidade”.

Não olhe agora, leitor – mas isso pode estar acontecendo mais uma vez, com o garoto que consulta o smartphone, aí do seu lado.


Não existe meio mais seguro para fugir do mundo do que a Arte

Johann Wolfgang Goethe, poeta alemão

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