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terça-feira, 19 outubro, 2021

Mank é um convite ao tédio

Revista Mensal
Larissa Castelo Branco
Bibliotecária em hiatus que se aventura na escrita, revisora textual, metida a cinéfila e apaixonada por Comunicação e Literatura. Em constante batalha contra a desinformação e a histeria coletiva, aprendeu com a esquerda como um ser humano não deve ser.

Comecei ontem a jornada pelos indicados ao Oscar 2021 e no primeiro passo, já tropecei. Geralmente costumo dar pitacos sobre filmes que ganham meu afeto, mas pra tudo nessa vida há uma primeira vez e resolvi escrever sobre uma das piores experiências cinematográficas que já tive.

Há dias, quis assistir o tal filme da Netflix com 10 indicações: Mank; afinal, Gary Oldman e David Fincher são dois nomes de encher os olhos de qualquer amante do Cinema. Toda a ideia de mostrar o processo criativo de uma grande obra e a mente brilhante por trás dela realmente causa ótimas expectativas, mas este não foi o caso, infelizmente.

Mank traz a história conturbada de Herman J. Mankiewicz, em meio ao desafio de finalizar o roteiro de Cidadão Kane, em um cenário onde se tentava resgatar a alma profunda do cinema e a tentativa de levar algo diferenciado ao público. Esses elementos poderiam convergir em um filme magnânimo, mas o que vemos é um grande combo de diálogos enfadonhos, personagens entediantes e uma enorme confusão de núcleos que não se encontram.

Há uma celeuma instalada entre personagens, talvez como tentativa de criar algum que fosse cativante, porém os diálogos maçantes que começam no meio causam exatamente o contrário nos espectadores; são muitos nichos explorados sem nenhuma profundidade e falas densas demais para explicar o nada. O filme simplesmente não nos permite dar atenção a qualquer clímax criado, como a morte do marido da secretária de Herman (sabem aquela história que aconteceu com o tio do filho do sobrinho de algum conhecido seu e você não liga? Então, a sensação é a mesma).

É um filme confuso, que traz conflitos pouco interessantes e que em nada agregam. A disputa política de plano de fundo pouco impacta no desenrolar do filme e funciona como uma espécie de muleta para preencher o tempo. O filme vende uma ideia de superação do protagonista, de que haverá uma emocionante disputa por credibilidade em Cidadão Kane e nos entrega 2h12m de puro tédio.

Percebe-se que Gary Oldman tirou leite de pedra ao interpretar Herman, um roteirista beberrão com falas que beiram ao shakesperianismo, até pra dar um bom dia, e talvez Herman fosse mesmo de fato histriônico, entretanto, não há um fluxo natural de interpretação e todos os personagens parecem estar imersos em um mar de intelectualidade, que só faz sentido entre eles.

Geralmente, quando nasce a proposta de levar às telas as fases do processo criativo de uma obra divisora de águas, seja ela filme, livro ou música, o espectador é convidado a entrar na mente do criador, e geralmente o Cinema se destaca nesse quesito, passando a emoção para nós, porém, não é o que acontece em Mank. Seu desdobramento acontece em contextos tão específicos e aos quais não somos apresentados, a ideia que passa é de que realmente é um filme para poucos: os poucos interessados em assistir.

O preto e branco é um ponto à parte. Não funciona. Tentar resgatar um saudosismo da época resultou em mais questionamentos do que satisfação. Que me perdoem os cinéfilos e os críticos aclamados, mas Mank não faz jus nem a uma indicação, quem dirá a 10. A sensação deixada é a de que como não houve exibições em 2020, em virtude da pandemia, colocaram Mank pra preencher tabela por ter um bom elenco e diretor, o que não vingou de forma alguma. Talvez sua metalinguagem funcione para a Academia. Para nós, meros mortais, não.

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