É preciso parar e desprender-se do circo de horrores que virou o mundo. É essencial fechar os olhos para o desenrolar do cenário mundial que mais parece um roteiro escrito por Rob Zombie e Tarantino – ambos sob efeito de entorpecentes e dirigindo a 100 km por hora – e voltar nossos sentidos para aquilo que a sociedade consome em busca de distrair-se. Este não é artigo que visa ressaltar minha superioridade cultural, inclusive, acredito que nem a tenho, mas sim, um meio de questionar o que se tornou a cultura desde a era Pós-Moderna.

Há muito tempo, venho me questionando sobre o que a sociedade compreende como cultura e por que o entretenimento chegou a um ponto tão deplorável. Em meio aos meus questionamentos, fui encontrada (o homem nunca acha a obra, a obra é quem o encontra mediante aquilo que ele busca) por uma obra única de grande valia: A Civilização do Espetáculo, lançada em 2012 e vencedora do Prêmio Nobel, de autoria do peruano Mário Vargas Llosa.

Llosa é daqueles que podem ser considerados uma bússola no meio de tantas produções questionáveis, cujas histórias parecem ter saído de uma única mente mentecapta. Seus livros são um afago de sanidade em meio a palavras de ordem, histeria e esterilização da cultura enquanto campo de promoção do pensamento, das boas ações e da reflexão. Este livro, em particular, nos traz a visão aterradora do que vem se tornando a cultura: um espetáculo frívolo, pensado apenas para sanar instintos primitivos, sem o menor rastro de esmero ou conteúdo. Óbvio que não podemos julgar alguém que, depois de um dia estressante, apenas deseja se distrair sem pensar muito. O grande problema está na fusão dos conceitos de cultura e diversão, quando a primeira se torna meramente banal e de valores irresponsáveis, como o próprio diz: transformar em valor supremo essa propensão natural a divertir-se tem consequências inesperadas: banalização da cultura, generalização da frivolidade e, no campo da informação, a proliferação do jornalismo irresponsável da bisbilhotice e do escândalo.”

O que é consumido hoje, chamarei de “cultura fast food”. Livros rápidos, filmes fáceis, com protagonistas fracos e facilmente esquecidos, pois assim, é possível passar para o próximo sem maiores embromações. Invocando meu prezado Llosa novamente, esta rápida demanda por novas sensações impedem um trabalho que há muito vem desaparecendo, quando não, vem sendo transformando em pautas militantes de apoio a produções péssimas: os críticos. Onde, atualmente, é viável encontrar alguma crítica produtiva em meio ao caos cultural? Pouco importa a opinião de alguém retrógrado, o que importa é a próxima temporada do reality, aquele que se passa em uma casa habitada por pessoas ensandecidas, com baixa autoestima e disposta a tudo pela autopromoção e espetacularização.

A ausência de crítica reflete o estado grave da cultura: pensar fora da caixa ou questionar os valores de certa obra tornaram-se discurso de ódio, e com isso, nossas vidas são bombardeadas com livros de Youtubers imitadores de foca. Não é errada a livre circulação de conteúdo, afinal, quando mais contato com certas produções tem o indivíduo, mais juízo de valor ele poderá atribuir e extrair a importância de consumir obras que sejam remédios para a mente e para a alma. Como Llosa, por exemplo.

Pensar a cultura atualmente é uma tarefa que não exige requinte, tampouco consciência, por que empenhar-se em trazer algum conhecimento humanístico ou filosófico se no canal ao lado duas moças seminuas estão tomando banho na piscina? Qual motivação há para difundir a obra magnífica de Giovanni Strazza se a sociedade contenta-se com o novo vídeo íntimo vazado de uma subcelebridade e não satisfeita, acompanha, com expectativa, todo o imbróglio que se desenrola a partir desse episódio como se estivesse assistindo vendo o próprio Baudelaire declamando As Flores do Mal na íntegra?

Desqualificar a cultura que outrora nos salvava do vazio intelectual proporcionado por áreas que fogem de nossa compreensão, retira dela a missão de nos apresentar um aspecto mais humano e belo do mundo, sendo direcionada apenas para comodidade, sendo uma espécie de ópio para a sociedade, que busca ser anestesiada sem apresentar resistência. Em contrapartida, há de se comentar o mérito das tecnologias da informação por transgredir as barreiras geográficas, trazendo a Literatura, a Música, a Fotografia, as Artes Plásticas e o Cinema para mais perto. Diante disto, surge o questionamento: onde, afinal, estão os novos pensadores, os dissidentes que vislumbram a construção de uma sociedade crítica? Estão receosos com a opinião pública ou se esvaíram com o tempo? Onde estão aqueles que incitam nossos sentimentos e sensações, que nos fazem pensar ou nos emocionar? Temo ter a resposta para essa pergunta, assim como temo também por ver todo o legado cultural perder-se no tempo se nada fizermos para resgatar aquilo que nos edifica.

Não pretendo em momento algum encarnar o papel de fiscal de diversão alheia, apenas penso que as pessoas tornaram-se amortecidas à exposição a conteúdos que em nada contribuem para o avanço do intelecto e tornar-se omisso a este fato é um sinal claro de conformismo. Que nós não deixemos nunca de lado o prazer de ler, de escrever, de questionar e principalmente de produzir. Nossa civilização beira o vazio cultural, onde homens nus em roda são aplaudidos, denunciando a escassez de complexidade da arte. Exercer a intelectualidade rende alcunhas nada agradáveis, os grandes autores têm suas obras transformadas em versões simplificadas para que seus nomes ao menos sejam mencionados aos jovens.

A Civilização do Espetáculo é uma obra digna de tornar-se livro de cabeceira e relida todos os anos, principalmente por aqueles que observam o aspecto hedonista da cultura, que hoje parece ser promovida apenas para a satisfação de impulsos. Llosa desmascara os charlatães intelectuais que almejam apenas visibilidade e exaltação da figura própria ao invés da defesa da lógica e dos valores, afinal, a roupa de palhaço é mais confortável do que o caminho tortuoso seguido por aqueles que buscam alguma ordem ou sentido em tudo que vem sendo feito em termos culturais. Um livro imperdível, profético e oportuno para o mundo.

3 Comments

  1. Entendo que “rápida demanda por novas sensações impedem” deveria receber o “impedir” concordando com “rápida demanda”, ou seja, “impede”.
    Em tempo, “vem sendo transformando” merece um “transformado” em substituição à última palavra da citação.

Leave a Comment

O seu endereço de e-mail não será publicado.

This div height required for enabling the sticky sidebar
Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views :