DOUTOR, É CASO DE FAKE NEWS?

Em 25 de março de 2020, o portal do Ministério da Saúde divulgou a distribuição, para dois dias depois (27), de 3,4 milhões de unidades do medicamento cloroquina para uso em pacientes graves de Covid-19. Sendo uma doença nova, ainda não havia, naquele período, evidências científicas suficientes comprovando a eficácia do tratamento. No entanto, estudos promissores demonstravam o benefício do uso em pacientes graves.

O Ministério elaborou um protocolo, prevendo cinco dias de tratamento, indicado apenas para pacientes hospitalizados. Segundo a nota técnica, a cloroquina e a hidroxicloroquina complementam os demais métodos aplicados no tratamento de pacientes no Brasil, como assistência ventilatória e medicamentos para amenizar os sintomas, como febre e mal-estar.

O Ministério da Saúde foi enfático em esclarecer que, tanto a cloroquina como a hidroxicloroquina não eram indicadas para prevenir a doença e nem para tratar casos leves. Ficava restrita à decisão médica usar dos medicamentos em casos graves. Conforme falou do Ministro da Saúde à época, Luis Henrique Mandetta,

Esse medicamento já provou que tem ação na evolução do ciclo do vírus, mas os estudos em humanos estão em curso. Essa é uma alternativa terapêutica que estamos dando aos profissionais de saúde para tratarmos desses pacientes graves que estão internados.

Estranhamente, contudo, no dia 08 de abril, David Uip, chefe do Centro de Contingência contra Covid-19 em São Paulo, afirmou que se reuniu com Mandetta no dia 02. “Eu era o único infectologista e sugeri que ampliasse o uso de cloroquina para todos os pacientes internados em duas condições: desde que o médico receitasse e o paciente autorizasse”, disse Uip, segundo matéria da Folha de São Paulo.

David Uip, único infectologista da suposta reunião, sugeriu aquilo que o Ministério da Saúde já havia determinado e protocolado como diretriz para os Estados?

Claro que João Doria não perderia uma oportunidade de ouro para alavancar sua imagem, não é? No mesmo dia 08, o governador de São Paulo afirmou:

“- Cloroquina. Quero deixar clara a posição do governo do estado de São Paulo sobre a cloroquina. Foi o médico infectologista David Uip, coordenador do Comitê de Saúde do Grupo de Contingência do Covid-19, que recomendou ao ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, que distribuísse o medicamento na rede pública [de saúde] do país.”

Aqui nos parece um bom caso para que várias agências de checagem possam analisar. Ou a checagem é seletiva, de acordo com o cliente ou financiador da agência?

O QUE NOS INDICA PRA ACABAR COM A CONFUSÃO, DOUTOR?

Em 06 de abril, numa coletiva do governo do Estado de São Paulo, David Uip, chefe do Centro de Contingência contra Covid-19, fez um depoimento sobre o período de sua licença:

“…Eu quero fazer um depoimento pra que vocês entendam bem do que se trata essa doença. Eu, há dois domingos (logo, 29 de março), eu me senti muito mal…O pessoal da televisão que vem entrevistar (o Governador é testemunha, o José Henrique também), eu não consegui falar. Eu estava extenuado, eu fiquei sentado numa cadeira e, pela primeira vez na vida, eu me neguei a falar a uma emissora de televisão. Eu não consegui. De domingo pra segunda, eu passei muito mal, e na segunda de manhã eu fui fazer o exame e a tomografia. O exame deu positivo e a tomografia normal. A semana que se seguiu foi de extremo sofrimento. E, na segunda-feira seguinte, esta há uma semana, eu voltei a fazer o exame a tomografia. Nessa tomografia apareceu a pneumonia. Então, este sentimento, de você se ver, como médico, infectologista, com uma pneumonia, sabendo que muito provavelmente entre o sétimo e o décimo dia você iria complicar, eu quero dizer a vocês que foi um sentimento muito angustiante. Você ir dormir não sabendo como iria acordar. Felizmente, Deus me ajudou, e eu venci a quarentena. E quero dizer também pra vocês que não é fácil ficar isolado. É de extremo sofrimento, mas absolutamente fundamental. Absolutamente fundamental. Eu tive que me reinventar. Eu tive que criar um David novo. Seguramente mais humilde e sabendo os limites da vida. (…) E o segundo fato que ficou claríssimo pra mim, que eu acho que todos devem entender: quem vai sair vivo são os indivíduos que estiverem sendo atendidos em estruturas hospitalares arrumadas, protocoladas, bem equipadas, e com equipes médicas bem estruturadas. Isso é claríssimo de todos os doentes que “tô” vendo” [4].

(40:38 a 43:10min)

Relembremos a receita de cloroquina, cuja autenticidade David Uip confirmou em 08 de abril. Se a receita é realmente de David Uip, como ele próprio afirmara, então:

  • A data da prescrição médica a si mesmo é de 13 de março de 2020. Para tomar a cloroquina durante 30 dias.
  • Sua auto licença foi durante a semana compreendida entre 16 e 22 de março, conforme demostrado anteriormente.
  • Em 23 de março Uip se afasta publicamente de suas atividades. Segundo matéria da Revista Esmeril, Uip declarou:

“Pelo cargo que eu ocupo, pela exposição que eu tenho com os pacientes, eu resolvi ir até o hospital Sírio-Libanês fazer exames.

Colhi o material e vim para a minha casa onde eu estou, quietinho, isolado, aguardando o resultado. Estou muito bem. Sinto ainda um pouquinho de febre, de vez em quando tusso um pouquinho.

Pode ser o coronavírus, ou qualquer outro. Por precaução, em cima daquilo que nós estamos falando, eu estou isolado. E se o exame for positivo, eu manterei a quarentena como qualquer outra pessoa. Se for negativo e eu estiver bem, voltaremos ao nosso trabalho. Mas eu estou muito bem, obrigado…”

Diante da sequência de fatos, fica uma pergunta ao ar:

Se ele estava em dúvida sobre ter contraído ou não o coronavírus, por que cargas d’água se auto receitou cloroquina por um período tão longo (30 dias), mais de uma semana antes da ida ao Hospital Sírio-Libanês? Desde o dia 13, considerando a veracidade da receita, David Uip parece não ter mudado a rotina em sua clínica.

A resposta, pela boca de Uip, nunca saberemos. Segundo matéria do UOL, o infectologista esclarece que, apesar de ter indicado a si mesmo um remédio por trinta dias:

Eu não me prescrevi. Se eu tomei ou não antibiótico ou qual droga para febre e para enjoo, é algo pessoal. Como eu respeito meus pacientes, gostaria de ser respeitado. Não faço isso para esconder nada, mas não quero transformar meu caso em modelo para coisa alguma.”

A receita é da minha clínica. Ela é real. Algum lugar vazou de forma incorreta. O que nada me preocupa. Eu não tenho nada contra o uso de cloroquina. Pelo contrário, eu uso nos meus pacientes internados. O que está se fazendo confusão é a respeito do meu tratamento pessoal. O meu tratamento, o que eu deveria fazer do ponto de vista de preocupação eu fiz, nos meus primeiros sintomas eu fiz exame. Eu vim a público e assim que percebi que estava complicando, eu vim a público, mas divulgar a receita individual de qualquer paciente eu entendo que não é correto. A transparência como homem público é dizer tudo que eu tenho. Divulgar um tratamento para propagação ou não de medicamentos, eu acho incorreto.

Fica aqui outra pergunta: se não revelar o uso ou não de cloroquina tem como objetivo não transformar seu caso em modelo para coisa alguma; e, ainda, se considera incorreta a divulgação de um tratamento para propagação ou não de medicamentos, então não havia necessidade de David Uip… Declarar, com toda pompa, a sua indicação da cloroquina para o Ministro da Saúde, não é?

Não era mais fácil deixar o governo fazer esse trabalho, já que é um… Trabalho a várias mãos? Se ele usa o medicamento em pacientes internados em sua clínica, e ainda indica o tratamento para o Ministro da Saúde, não seria a exposição desses fatos em público uma autopromoção?

E, por falar em confusão…

REMÉDIOS POPULARES… SÓ QUE NÃO.

Em 2019, José Henrique Germann Ferreira, secretário de saúde paulista, confirma a possibilidade de fechar a Fundação para o Remédio Popular de São Paulo (Furp). O motivo são os prejuízos na fundação. A Furp possuía à época um total de 100 milhões em dívidas. A maior parte delas devido a um contrato assinado com a Concessionária Paulista de Medicamentos. Esse contrato fez com que o governo pagasse até sete vezes mais por remédios fornecidos pela concessionária, em comparação com o valor de mercado.

Ainda em 2018, executivos da Camargo Corrêa, em delação ao Ministério Público paulista, relataram o repasse de propina a dois funcionários da Fundação para o Remédio Popular (Furp), a fim de desistir de uma disputa judicial em 2013 e pagar uma indenização de R$ 18 milhões ao consórcio que construiu a fábrica de medicamentos no interior de São Paulo.

A Camargo Corrêa foi a líder de um consórcio contratado pela Furp em 2005, na gestão do ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB), para a construção da fábrica, orçada em R$ 124 milhões. Em 2012, três anos após a entrega da obra, o consórcio moveu uma ação judicial cobrando uma indenização da Furp. pois esta não reconheceu um pedido de desequilíbrio econômico financeiro provocado pela paralisação da obra, suspensa pela própria Furp. Em 2013, por coincidência, a sentença de condenação a Furp enfatizou a não contestação do pedido, mesmo tendo sido citado duas vezes no processo, e as gerências financeira e jurídica do órgão terem reconhecido o desequilíbrio contratual. O acordo foi assinado em 2014, e os juros a serem pagos chegou ao valor de R$ 18 milhões. Os pagamentos foram divididos em 48 parcelas e totalizaram R$ 22 milhões em valores corrigidos. Todo esse acordo judicial foi fechado mediante pagamento de propina ao ex-superintendente e ex-assistente de engenharia da Furp, conforme delação.

Conforme matéria do Estadão, durante sua gestão como secretário, Giovanni Guido Cerri foi responsável por aprovar a concessão da Furp à iniciativa privada. E em 2019, foi constatado, em investigações do Ministério Público e da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), que era sócio do mesmo grupo que venceu a concorrência durante sua gestão. Na CPI aberta na Alesp, os deputados apuraram uma suspeita de pagamento de propina na construção da fábrica, que consta em um acordo de delação premiada. Comprovou-se também que os termos da Parceria Público Privada (PPP) para administrar a unidade tenham dobrado o custo dos remédios comprados pelo Estado e gerado uma dívida de 74 milhões de reais.

Cerri saiu da Secretaria Estadual de Saúde em setembro de 2013, cerca de quinze dias após assinar o contrato que concedeu a fábrica de Américo Brasiliense, no interior paulista, a uma concessionária controlada pelo laboratório EMS. A empresa foi a única a participar da concorrência. Em 2016, Cerri montou a empresa Clintech Participações S/A. O Grupo NC, dono da EMS, se tornou sócio meses depois e fez um aporte de R$ 1,5 milhão na Clintech – que, até então, tinha capital social de R$ 1 mil. Segundo registros da Junta Comercial de São Paulo (Jucesp), também são sócios do ex-secretário um dirigente do Grupo NC, Leonardo Sanchez Secundino, e o executivo da EMS Julio Cesar Borges.

COM A PALAVRA, ELE…DAVID UIP

Em pronunciamento à CPI, David Uip depôs sobre o ocorrido. Sobre os 22 milhões à empreiteira Camargo Corrêa, afirmou : “eu não pude fazer nada, a secretaria só foi comunicada após o acordo firmado. Tudo me incomodou, tanto que eu troquei toda a direção”, afirmou Uip, durante sessão da CPI da Furp na Assembleia Legislativa de São Paulo. O ex-secretário assumiu a pasta 15 dias após o acordo, em setembro de 2013, no governo de Geraldo Alckmin (PSDB). Evitou apontar indícios de conduta ilícita na efetivação do acordo e ressaltou que seu antecessor na pasta, Giovanni Guido Cerri, também disse não ter conhecimento do acordo. “A mim foi comunicado que um acordo com júbilo, que era ruim para o estado e ficou bom. A direção da Furp concordara com o acordo. A mim caberia ingressar com uma nova ação, que poderia se entendida como litigância de má fé. E eu não conseguiria nada, porque era um acordo judicial”, explicou o infectologista.

Mas afinal de contas, quem é essa tal EMS e Grupo NC? Senta que lá vem história.

LÁ VEM O NEGÃO? NÃO.

LÁ VEM O NEGRI… E O PSDB.

A partir de 2000, com a autorização do Ministério da Saúde, o mercado de medicamentos genéricos no Brasil cresceu exponencialmente. Naquela época já se destacava um campeão: o laboratório EMS, cuja sede ficava em Hortolândia, São Paulo. Segundo dados do Ministério da Saúde, dos 574 genéricos autorizados, a EMS fabricava 95.

Mas havia um “sujeito oculto atrás”, como dizia Dilma Rouseff: Jorge Negri, irmão do Ministro da Saúde da época, Barjas Negri. Para quem não se lembra, Barjas Negri e José Serra, ambos do PSDB, tiveram seus nomes envolvidos na famigerada “Máfia dos Sanguessugas”.

O contato de Jorge Negri com os laboratórios da EMS já possuía um histórico. Em 1999, quando da inauguração de uma fábrica em Hortolândia, Jorge Negri foi genericamente acionado para atrair autoridades tucanas à festa. Nessa missão, Negri levou Carlos Sanchez, dono da EMS, para encontros importantes.

Em São Paulo, Jorge abriu as portas do gabinete do governador à época, Mário Covas, e de seu vice, Geraldo Alckmin. Carlos Sanchez visitou, com Jorge, Barjas Negri, na época secretário executivo do Ministério da Saúde. Jorge conseguiu uma audiência de Sanchez com o então ministro da Saúde José Serra.

E uma grande amizade se estabeleceu. Nas frequentes idas de Carlos Sanchez a Brasília, Jorge Negri acompanhou-o em algumas oportunidades. “Como é que vou contar quantas vezes estive com ele em Brasília? Estive uma p… de vezes. Não sei se foi uma, duas ou três!”, disse o maior empresário de genéricos do país. Sempre enfatizando que as visitas a Brasília com Jorge Negri foram apenas para tratar, especificamente, da tal festa de inauguração em Hortolândia, e não por quaisquer outros motivos. Apesar de Sanchez telefonar para Negri pedindo conselhos para conseguir uma coisa ou fazer outra. Jorge Negri resumiu desta forma: “A gente só troca ideia por telefone. Não sou funcionário dele”.

A inauguração do laboratório foi um sucesso. Sobre Negri, Sanchez relembra: “Ele abriu as portas. Eu nunca tinha feito uma festa de vulto. Não tinha entrosamento político”. E demonstra seu total desapego ao lobby no meio de um ninho tucano montado na sua festa: “Não fiz contrato. Foi informal. Eu dei um presente a ele na ocasião. Um presente em dinheiro. Acho que foram uns 2000 reais”. Barjas recebeu Carlos Sanchez, levado por seu irmão. Contudo, o assunto foi apenas da tal festa de Hortolândia. “Não acredito que meu irmão faça lobby. Não tenho conhecimento disso”, afirmou o ministro.

O problema está numa fita cassete a que Veja teve acesso à época, na qual se ouve um diálogo ocorrido a 19 de maio de 2002, no qual de um lado está o diretor da Anvisa, Luiz Felipe Moreira Lima.

Perguntado se Jorge Negri faz lobby para laboratórios, Moreira Lima responde o seguinte: “É. Disso não há dúvida. Ele vai lá, ciceroneia. Mas o que ele faz na hora que entra na sala e vai conversar, isso eu não sei”. Em outro trecho, ao ser questionado sobre Jorge Negri ser sócio do laboratório EMS, o diretor da Anvisa responde: “Não, atuar assim como dono, isso eu não sei, não”. E sobre Jorge atuar como lobista, Lima afirma: “Isso é óbvio. Ele vai lá na vigilância (refere-se à Anvisa) para reunião com empresário. Isso faz parte do trabalho dele, entendeu? É um trabalho de intermediação, né?”

BALCÃO DE NEGÓCIOS NA FARMÁCIA?

Talvez essa fala de Luiz Felipe tenha motivo, pois numa entrevista em 27 de dezembro de 2001, ele abriu seu coraçãozinho.

Disse que a Anvisa deveria ser independente, mas não era. Ela deveria ter controle sobre os medicamentos vendidos nas farmácias de todo o país, mas não tinha. A existência de um lobby nas imediações da agência era muito maior do que se imaginava. E considerava a Gerência Geral de Medicamentos, onde os produtos são registrados, um balcão de negócios. Contudo, não quis revelar casos concretos que demonstrassem suas afirmações. Afinal de contas, como saber o que ocorre nas conversas de gabinete?

Sobre José Serra (PSDB), Ministro da Saúde à época, e sua relação com a Anvisa, Lima fala: “A personalidade do Serra é muito exuberante e, quando ele sentia alguma dificuldade no que queria, tentava fazer prevalecer o desejo dele”. (…) “…Diretamente, o Serra nunca interferiu. O contato dele, em 99% das vezes foi com o diretor-presidente [Gonzalo Vecina Neto, um homem de confiança de Serra, e um outro diretor, o Ricardo Oliva, da área de alimentos, que era de São Paulo, filiado ao PSDB, e participou da campanha de Serra em São Paulo e tinha uma grande proximidade com ele]”.

Sobre os poderes de Serra na Anvisa, segundo Lima, a área de gerência de medicamentos ficou subordinada ao Vecina. Para a área que inclui genérico, em que o ministro queria ter maior controle, foi nomeada a advogada Vera Valente como gerente-geral. A aprovação dos registros era do diretor-presidente, mas somente após o ofício de Vera. Ela levava os dados para Serra, a fim de discutir com ele como seriam feitas as coisas. Era a área onde as empresas faziam seus pedidos. É onde o balcão de negócios ocorria, segundo Lima.

As suspeitas de Luiz Felipe têm sua razão de ser.

Em 16 de abril de 2001, Vera Valente, gerente-geral de medicamentos, encomendou um parecer técnico a um colaborador da Anvisa, professor José Pinho, sobre a ciclosporina do laboratório Abbott, usado em pacientes que fizeram transplantes de órgãos. O objetivo era verificar se o produto poderia ser registrado como genérico. O parecer foi contrário ao registro, em 27 de abril. Valente não só desconsiderou o parecer, e concedeu o registro a Abbott em 07 de maio, como negou que houvesse pedido esse parecer. Uma semana depois, em 15 de maio, o laboratório venceu uma licitação da Secretaria de Saúde de São Paulo para vender o produto.

Por óbvio, o assunto foi à Justiça. Em setembro, após um pedido de liminar feito pelo Conselho Regional de Farmácia do Distrito Federal, o registro do genérico da Abbott foi cassado, atendido pelo juiz da 6ª Vara Federal. Vera Valente também teve uma ação movida contra ela, em uma ação por exercício ilegal da profissão, pelo fato de que o registro de medicamento ocorre em função da falta de conhecimento técnico. Houve recurso, que foi atendido, mantendo a licitação e o registro do medicamento.

Atualmente, Vera Valente é diretora-executiva da FenaSaúde, Federação Nacional de Saúde Suplementar, representante de 15 principais grupos de operadoras de planos privados de assistência à saúde, os quais fazem pressão, no Poder Executivo, e no Congresso, para flexibilizar regras de reajuste de mensalidade dos planos individuais, além da possibilidade de ofertar planos em versões mais reduzidas. Hoje o percentual máximo de reajuste desses planos é fixado pela ANS, agência que regula o setor, para evitar abusos contra o consumidor.

MAS, VOLTANDO À SANCHEZ…

Em arquivos do site “Conversa Afiada”, há um registro do trecho de uma matéria do Correio Braziliense de 18/12/2001, em que a EMS Sigma Pharma acusou o laboratório suíço Novartis de divulgar documentos falsos para impedir a concorrência no mercado da ciclosporina, droga utilizada por pacientes transplantados, avaliado em R$ 100 milhões por ano. Novartis reinava absoluta no mercado até 1997, quando perdeu o monopólio pela entrada do similar Sigmasporim, fabricado pela EMS Sigma Pharma. Por lei, o medicamento similar não precisava ter testes que comprovassem a mesma ação do remédio de referência. A EMS Sigma Pharma assegurava que o medicamento deles tinha o mesmo efeito do de referência da Novartis. Nessa busca pelo registro como medicamento genérico, a EMS apresentou seus testes à Anvisa.

Chegaram a Anvisa nessa época denúncias de adulteração dos documentos originais da EMS Sigma Pharma para obtenção do registro como genérico. EMS alegou que a versão apresentada a Anvisa de um testes de bioequivalência, é a verdadeira.

Porém…

Segundo a reportagem, o documento arquivado na Agência difere do que foi publicado em vários detalhes. O mais grave deles é a troca do termo “Discussion” (discussão) para “Conclusions” (conclusões) como título da última parte do estudo. Essa troca leva a se interpretar que uma premissa científica, ainda sendo colocada para discussão, era, na verdade, conclusiva. O periódico verificou junto à Anvisa que a versão adulterada foi aquela apresentada no processo.

Carlos Sanchez negou a falsificação.

CARLOS SANCHEZ – O que aconteceu foi: a gente fez o pedido de registro como genérico, apareceu uma carta da Novartis dizendo que o estudo era falso, a Vigilância Sanitária (Anvisa) esclareceu com o embaixador brasileiro na Romênia. Apesar de ter esclarecido, solicitou outro estudo de bioequivalência no Brasil. O estudo foi feito, aprovado, só depois foi dado o registro de bioequivalência.

CORREIO BRAZILIENSE – A dúvida é: se o estudo é tão conclusivo quanto o senhor diz, por que a Vigilância pediu novo teste?

CARLOS SANCHEZ – Porque existia uma briga da EMS contra a Novartis, está certo? E ela (a Novartis) estava circulando um documento na classe médica, segundo o qual o pedido de registro do Sigmasporin continha um estudo falsificado. Acredito que o [Gonzalo] Vecina quis se resguardar.

BNDES PRESCREVE A RECEITA

Em 2015, chegou a público que o BNDES vinha discretamente apoiando empresas controladas por muitos dos bilionários do país. E, segundo o professor Sergio Lazzarini, “os subsídios do BNDES a grandes grupos não levaram, necessariamente, a maior investimento ou desempenho nos últimos anos”. E o banco declarou que o objetivo dos empréstimos e investimentos era criar empregos para os brasileiros, e não apoiar indivíduos ricos. Os investimentos apoiaram, principalmente, investimentos vultosos patrocinadores de esquemas de corrupção, como os campeões nacionais. Por isso se exigiu maior transparência sobre empréstimos feitos aos fornecedores.

Para se ter uma ideia, o Supremo Tribunal Federal pedia, à época, maior transparência nos investimentos. Enquanto a Presidente da República, Dilma Roussef, vetou uma proposta para acabar com as regras de sigilo bancário que ocultavam os negócios do BNDES.

Entre as empresas bilionárias que receberam apoio do BNDES, estava a… EMS, de Carlos Sanchez. Porta-vozes da empresa disseram que os empréstimos davam base para suas pesquisas e inovações.

Mas, através de outras inovações, o conglomerado ficou mais bem conhecido…

OS CHAPÉUS PANAMENHOS DE DORIA E SANCHEZ…ERAM FEITOS DE PAPEL.

Em 2016, veio o escândalo do Panamá Papers, um conjunto de onze milhões (sim, milhões) de documentos confidenciais que forneciam informações detalhadas de mais 214 mil empresas de paraísos fiscais offshore, incluindo as identidades dos acionistas e administradores. O recurso a empresas offshore não é por si só ilegal nas jurisdições em que estão registradas. No entanto, nas investigações feitas, verificou-se que algumas companhias de fachada mencionadas nos documentos podem ter sido usadas para fins ilegais, como fraude, tráfico de drogas e evasão fiscal.

Nos documentos, foi descoberto que João Doria comprou uma empresa de prateleira do escritório panamenho Mossack Fonseca. Incorporada no paraíso fiscal das Ilhas Virgens Britânicas, a offshore Pavilion Development Limited foi usada pelo tucano para adquirir um apartamento em Miami (EUA) em 1998, por 231 mil, sem que a propriedade aparecesse em seu nome. A Época Negócios procurou João Doria para esclarecimentos. Seu advogado, Nelson Wilians, mostrou à reportagem o Imposto de Renda de 2016 na qual Pavilion Development aparece declarada. Mas não atendeu ao pedido da reportagem para mostrar as declarações do Imposto de Renda de 1998, quando Doria comprou a offshore, e dos anos posteriores. O advogado se limitou a dizer que seriam apresentadas à Justiça Eleitoral.

Outro personagem conhecido, Carlos Sanchez, dono do conglomerado EMS, aparece nos papéis panamenhos, como acionista da offshore Illus Global Corporation. A empresa foi usada para abrir, em 2013, uma conta no banco suíço Julius Baer. Sanchez também aparece como controlador (“power of attoney”) de 03 outras empresas, ao lado de sua irmã, Nanci Sanchez, e de sua mãe, Ana Defilo Sanchez. As 3 estão sediadas nas Ilhas Virgens Britânicas, sendo elas a Humboldt Group, Morea Holdings e a Guess Promotion. As três companhias têm ações emitidas em 2005 em nome de outra offshore, a panamenha Pyramus.

PÍLULAS PETISTAS NA PRODUÇÃO

A Manzolli Consultoria Comercial e Empresarial, do empresário Luiz Carlos Rocha Gaspar, é investigada pela força-tarefa da Operação Lava-Jato por receber um percentual das comissões pagas pela EMS à JD Assessoria e Consultoria. A JD pertencia a ninguém menos que José Dirceu, ex-ministro-chefe da Casa Civil (Governo Lula). Vale lembrar que Luiz Carlos Rocha Gaspar é amigo de José Dirceu desde os tempos de militância nos anos sessenta. Segundo o delegado da Polícia Federal responsável, o Grupo Manzolli funcionava como uma espécie de “Consultoria da consultoria”. Os repasses entre EMS x JD x Manzolli possuíam transferências um tanto estranhas. Havia, nas análises das movimentações analisadas, um “padrão segundo o qual boa parte dos valores provenientes das transferências bancárias feitas pela empresa EMS S/A para a JD Assessoria e Consultoria é repassada em seguida para as empresas Manzolli & Oliveira Ltda e Manzolli Consultoria Empresarial. Os repasses ocorriam ou no mesmo dia ou nos primeiros dias úteis após o acolhimento dos valores na conta da JD Assessoria. O período de pagamentos teve início em setembro de 2009 e relaciona mensalmente o valor de R$ 140.775,00, saindo da EMS para a JD Assessoria e, sequencialmente, o montante de R$ 52.556,00 sendo transferido da empresa de consultoria de Dirceu para a Manzolli. Os pagamentos da EMS para a JD seguem mensalmente até 20 de agosto de 2014 – cinco meses após deflagrada a Lava Jato – quando é registrada a última transferência no valor de R$ 140,7 mil. E o último repasse da empresa do ex-ministro para a consultoria do amigo foi de R$ 24 mil, em maio de 2014.

A maior fonte pagadora das “consultorias” de José Dirceu foi a EMS. Uma transferência de 7,8 milhões para a JD. Esta faturou, ao todo, R$ 29 milhões em consultorias.

Além dessa triangulação esquisita de repasses, em 2016, numa delação à força-tarefa da Lava Jato, Carlos Alexandre de Souza Rocha, funcionário do doleiro Alberto Youssef (caso Banestado, lembra?) e responsável por distribuir propina a políticos envolvidos com o petrolão, disse que o laboratório Labogen era uma empresa de fachada utilizada por Leonardo Meirelles, ex-sócio de Youssef, para lavar dinheiro e remeter fortunas ao exterior. A conexão com o laboratório Labogen na Operação Lava Jato foi feita após os investigadores terem encontrado conversas em que Youssef e André Vargas, deputado pelo PT à época, discutem como fechar um contrato com o Ministério da Saúde. Para viabilizar a transação, Labogen se associou à gigante da indústria farmacêutica EMS. A ideia era fechar um negócio de cerca de 135 milhões de reais por cinco anos. Tratava-se de uma parceria de desenvolvimento produtivo (PDP) nos moldes incentivados pelo Ministério da Saúde. Segundo Carlos, as operações do laboratório de fachada serviriam para Youssef receber dinheiro devido por Leonardo Meirelles e lucrar ele próprio com contratos. O convênio chegou a ser assinado, mas terminou suspenso pelo governo federal.

Pedro Argese, um dos diretores do Labogen, disse à Polícia Federal que recebeu orientação de um diretor do Ministério da Saúde, Eduardo Jorge Oliveira, para fechar negócio com a EMS, o que poderia acelerar o desenvolvimento dos medicamentos. Segundo Argese, o diretor do Ministério disse que a EMS era o “parceiro ideal”, porque já tinha um produto certificado em testes, o citrato de sildenafila – a substância é o princípio ativo do Viagra.

A pergunta que fica é: por que um laboratório, com um faturamento anual de bilhões, precisaria de um outro laboratório tão pequeno para desenvolver a atividade?

A EMS, em nota, afirmou que “não celebrou contrato com o laboratório Labogen” e que a empresa de Youssef “é um laboratório independente e não tem qualquer vínculo com a empresa.

E, como se não bastasse, o site O Antagonista, em 2018, revelou que Luiz Carlos Rocha Gaspar, aquele amigo do José Dirceu, confessou ter usado a mulher como laranja para ocultar seu patrimônio, inclusive cotas de empresas, imóveis e contas bancárias. Com o divórcio, Gaspar tentava recuperar seus bens, – inclusive um crédito de R$ 25 milhões que ele diz ter com a ACS Construtora. A ACS Construtora é de… Carlos Sanchez, também dono da EMS. Enorme coincidência que o principal cliente de José Dirceu deva a Gaspar o triplo do que o próprio Dirceu recebeu com consultorias.

OS NEGÓCIOS VEM ANTES DA SAÚDE

No mesmo ano de 2018, uma briga judicial entre a EMS e a Novartis trouxe problemas na distribuição de medicamentos pelo Ministério da Saúde.

O Fingolimode 0,5mg é essencial para o tratamento da Esclerose Múltipla e 24 mil paciente em todo país são beneficiados no tratamento da doença. O medicamento era adquirido por inexigibilidade de licitação, pois apenas a NOVARTIS fabricava. Posteriormente a EMS S/A adquiriu o registro sanitário na Anvisa e passou também a fornecer o Fingolimode.

Desde 2017, o Ministério vinha enfrentando problemas para aquisição desse medicamento, em razão das duas empresas, Novartis e EMS, possuírem registros válidos para fornecimento do produto, e disputavam na Justiça pela resolução do conflito. Enquanto isso, os pacientes ficaram sem o medicamento, tão necessário para reduzir a progressão da doença.

Em 2019, a indústria farmacêutica peregrinava pelo Palácio Bandeirantes, para pedir ao governador João Dória incentivos tributários.

Entre eles…Carlos Sanchez, junto com outras entidades.

DORES DE CABEÇA?

Os negócios de Carlos Sanches se tornaram gigantescos. A EMS, que era uma empresa, tornou-se parte de um conglomerado de Carlos Sanchez: o Grupo NC. Das empresas pertencentes a Carlos Sanchez, incluiu-se a Novamed. Esta empresa, em 2018, comprou o laboratório Multilab, que pertencia à Takeda Brasil.

E, por uma estranha coincidência, problemas conhecidos surgem com empresas do Grupo NC. Dois produtos feitos pela Multilab tiveram lotes de remédios suspensos, o Deltalab Loção 100ml e o Keltrina Plus 5% de, de 60ml. A suspensão dos lotes ocorreu devido à reprovação nas análises microbiológicas desses produtos.

Em 2019, novo recolhimento de lotes. Dessa vez, lotes de remédios reguladores da pressão arterial. Lotes foram recolhidos dos remédios Valsartana genérico, da Germed; Valsartana genérico, da EMS , Germed e Legrand; Brasart, da EMS Sigma Pharma; Brasart BCC e Brasart HCT, todos pertencentes ao conglomerado de Carlos Sanchez.

Em 2020, um dos remédios mais populares para tratar azia, úlceras e refluxo tem, como princípio ativo, o cloridrato de ranitidina. A Anvisa identificou uma presença que pode causar câncer. Por isso, o medicamento está sendo recolhido preventivamente das prateleiras das farmácias. O Grupo NC novamente aparece com produtos nos quais lotes são suspensos. O Grupo notificou a Anvisa sobre seu recolhimento voluntário.

Além da Anvisa, o Ministério da Justiça e segurança Pública multou o grupo EMS em R$ 6,5 milhões por ter comercializado remédios de pressão alta com impurezas que podem causar câncer. Segundo o ministério, as empresas do grupo foram omissas em promover campanhas de recall desses remédios.

A nota da Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) afirma que “foram encontradas, em lotes de remédios de pressão alta, impurezas que podem causar câncer, por se tratar de medicamentos de uso contínuo”. A Senacon, vinculada ao Ministério da Justiça, decidiu multar o grupo “considerando a gravidade e a extensão da potencial lesão causada aos consumidores em todo o país, em razão de não retirar os medicamentos potencialmente cancerígenos das mãos dos consumidores que adquiriam”.

O mais engraçado disso tudo é que a EMS, 2007, já teve um anticoncepcional injetável proibido para comercialização, o Contracep. Análises feitas pelo Instituto Adolfo Lutz apontaram que as ampolas de certos lotes do produto continham menor quantidade hormonal do que o previsto. O problema comprometia a eficácia do medicamento na prevenção da gravidez. A previsão era de que um espectro de 200 mil mulheres estavam usando o medicamento interditado.

MELHOR QUE MANDETTA.

Com a saída de Mandetta do Ministério da Saúde, várias indicações surgiram no cenário. Entre elas, cresceu a de Cláudio Lottenberg, presidente do Albert Einstein.

Porém, quando se analisa o nome, suas relações surgem em turbilhão. Lottenberg é Vice-Chairman do LIDE e Presidente do LIDE Saúde, fórum setorial do grupo empresarial fundado por nada mais, nada menos, que João Doria. E o LIDE Saúde é subordinado ao grupo Doria.

Claudio Lottenberg foi secretário de Saúde na gestão de José Serra na Prefeitura de São Paulo.

Foi cogitado, pelo Partido dos trabalhadores, a ser vice do então Ministro da Saúde, à época, Alexandre Padilha, na disputa pelo governo de São Paulo em 2014. O presidente do diretório do PT estadual de São Paulo, Emídio de Souza, brincou a possível chapa formada por dois médicos. “Já temos até slogan: mais médicos”, disse.

E quem a LIDE empresarial premiou por nove anos consecutivos? Mesmo com todos os escândalos nas quais encontrou-se envolvida?

“Pelo nono ano consecutivo, a EMS foi uma das vencedoras do Prêmio Líderes do Brasil. A iniciativa, idealizada em 2011 pelo Grupo de Líderes Empresariais (LIDE), reverencia empresas e executivos de referência em 33 segmentos pela contribuição para a economia brasileira”.

No final das contas, depois de tantas constatações, tomar um medicamento genérico pra dores de cabeça talvez ajude a aliviar a impressão que os fatos passam, às nossas vistas.

Se o medicamento não for da EMS, claro.

A quem você recorreria, caro leitor, para aliviar sua dor? A um gestor com fama de competente?

Se assim for, o que se pode concluir de um gestor municipal que doou remédios perto do vencimento para a população, a fim de que empresas ganhassem milhões de reais em isenções fiscais?

Você confiaria num gabinete de crise criado por um gestor municipal que, em seu histórico de nomeações, trouxe para a Secretaria de Saúde um investigado no Ministério Público por improbidade administrativa, em transações com o Hospital das Clínicas, a Santa Casa e o Hospital do Servidor? Seria a pessoa adequada para atravessar uma crise?

Pergunte a João Doria sobre sua gestão como prefeito.

fim
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