Um documentário sobre as forças que usam a esquerda brasileira para arrebentar a soberania nacional, sugar os recursos naturais e lucrar MUITO

Em três continentes e seis capítulos


CAPÍTULO I – O ESPECULADOR AZUL É O MUN-RÁ

MALANDRO É MALANDRO, MANÉ É MANÉ

Era 1997.

Armínio Fraga, atuando como gestor do Fundo Soros para mercados emergentes, teria obtido informações privilegiadas que o levaram a planejar e executar um ataque especulativo contra a Tailândia, o qual gerou lucros estimados em 2,5 bilhões de reais (pela cotação de 2014) para Fraga e o bilionário George Soros, fundador da Open Society Foundations. A revelação explosiva foi feita no livro More Money Than God: Hedge Funds and the Making of a New Elite (Bloomsbury), publicado pelo jornalista inglês Sebastian Mallaby em 2010. 

Segundo matéria da Carta Maior, a moeda tailandesa, o Baht, foi a primeira a ruir na Crise Asiática de 1997, que deixou milhares de cidadãos desempregados, arruinou empresas e as finanças públicas de diversos países, além de detonar a reversão de um ciclo de expansão de liquidez para os chamados “mercados emergentes”, o que acarretaria a crise do Real no Brasil em 1999. 

As fontes do livro são documentos privados dos investidores e um conjunto de entrevistas gravadas com os operadores dos hedge funds — empresas de gestão de recursos que realizam operações especulativas a descoberto, com alto grau de alavancagem financeira. Embora Armínio e outros operadores do Fundo Soros tenham sido entrevistados (um deles entregou notas diárias, tomadas durante a crise), seria de se imaginar que as informações fossem questionadas pelos especuladores depois da publicação, considerando-se o sensível conteúdo político de algumas delas. Mas não. Surpreendentemente, em 24 de maio de 2013, Armínio concedeu ao jornal Valor Econômico uma entrevista na qual o livro é citado sem alterações, embora não contendo a parte mais explosiva. 

A especulação bem sucedida contra a Tailândia é um misto de formação privilegiada e informação privilegiada, obtida antes dos demais agentes de mercado junto a uma autoridade política ingênua do Banco Central da Tailândia. Quando a vulnerabilidade externa de um país coincide com a fragilidade financeira de seu sistema bancário, o banco central enfrenta um dilema: elevar taxa de juros para contornar o desequilíbrio cambial, ou reduzir a taxa para limitar a inadimplência de empréstimos que tende a agravar a situação dos bancos. 

A informação privilegiada que motivou o ataque especulativo foi obtida em entrevista de Armínio e dois outros economistas ligados ao Fundo Soros com certa alta autoridade do Banco Central Tailandês, que foi questionado por Armínio sobre a prioridade do banco: elevar taxa de juros para defender a moeda de um ataque especulativo, ou reduzi-la para evitar o agravamento da situação dos bancos?

Segundo Mallaby (o entrevistador de Armínio a respeito da conversa), Fraga invocou sua própria experiência como diretor do Banco Central do Brasil (1991-1993), parecendo ao funcionário tailandês “mais um parceiro benigno de um mercado emergente que como um ameaçador predador de Wall Street”.

O funcionário ingênuo respondeu que a prioridade em defender a moeda tailandesa elevando a taxa de juros o quanto fosse necessário poderia estar mudando, em prol de uma taxa de juros mais baixa, requerida em razão dos problemas crescentes dos bancos. Fraga e seus colegas teriam visualizado uma maleta cheia de dinheiro, caso especulassem com a moeda tailandesa; mas fingindo não notar para não despertar desconfiança no funcionário do Banco Central da Tailândia. Caso desconfiasse, ele poderia elevar a taxa de juros para encarecer a especulação cambial, ou mesmo recorrer a bloqueios administrativos contra especuladores estrangeiros. 

Voltando a Nova Iorque, Armínio Fraga discutiu com o Fundo Soros o planejamento do ataque especulativo contra a moeda tailandesa. Um dos economistas presentes na reunião com a autoridade inocente do Banco Central da Tailândia, Rodney Jones, questionou os demais sobre a moralidade de especular contra países em desenvolvimento: “se as moedas forem desvalorizadas sem controle, milhões de inocentes serão levados à pobreza desesperadora”.

O autor do livro pareceu sugerir que Armínio Fraga e os outros não consideraram o argumento relevante para abortar o ataque especulativo, que viria a render 750 milhões de dólares. 

Desde a década de 1990, a porta giratória entre o mercado financeiro e o sistema político é usada por um grande número de economistas que ora especula contra a moeda e o sistema financeiro de diferentes países, ora são nomeados os restauradores da confiança e da credibilidade de certos países que servem de meio àqueles que lucram com crises cambiais e financeiras. Armínio Fraga usou a porta giratória em 1999, saindo do Fundo Soros para se tornar, sob o governo Fernando Henrique Cardoso, presidente do Banco Central do Brasil, ou seja, a autoridade responsável por defender a moeda e o sistema financeiro brasileiro. Isso logo depois de ter sido decisivo no ataque especulativo que gerou uma sucessão de crises cambiais que chegou ao Brasil, derrubando o Real, em 1999. 

TEM DEDO DE SETA ADOIDADO…

Em 1999, segundo Elio Gaspari, em artigo para a Folha de São Paulo, Armínio Fraga (futuro presidente do Banco Central do Brasil) e Fernando Henrique Cardoso se tornaram personagens de um penoso episódio. Depois de quatro anos de relações perigosas com banqueiros, o governo viu-se diante de uma situação constrangedora, com o nome de um funcionário de primeiro escalão associado, por uma renomada personalidade, a manobras de especulação financeira. 

Em 11 de fevereiro, Paul Krugman, economista com credibilidade das maiores no mundo, acusou o investidor George Soros de ter ganho dinheiro à custa da boataria que antecedeu a sexta-feira, 29 de janeiro. Nela, o dólar bateu a cotação de R$ 2,10. Segundo Krugman, Soros comprou títulos da dívida externa brasileira na baixa provocada pelos boatos de que o governo pretendia dar calote em sua dívida interna. Vendeu-os na alta, uma semana depois, quando se viu que o governo não fizera confisco algum. Quem jogou nessas cartas ganhou, em sete dias, pelo menos 5% do capital investido. Soros teria feito isso com base em informações privilegiadas que Fraga recebera do próprio governo. 

Tanto Fraga quanto o secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Pedro Parente, tinham insistido em declarar nula a questão, sob o argumento de que ele só foi sondado e convidado para assumir a presidência do Banco Central nos dias 30 (sábado) e 31 (domingo). Como a especulação aconteceu entre os dias 25 (quando o boato começou a correr) e 29 (quando se deu o pânico, mas não a moratória), Krugman estaria com o calendário errado. Mas não era esse o ponto do economista. A data da indicação de Fraga ao Banco Central era irrelevante. O professor havia afirmado que ele sabia, antes do dia 29, que não haveria moratória. Nesse aspecto, Krugman estava correto. 

Fraga estava em Brasília, hospedado na casa do ministro Pedro Malan. Na quarta-feira, dia 27, jantou no Palácio da Alvorada na companhia do presidente Fernando Henrique Cardoso, de Malan, André Lara Resende e Francisco Lopes. Conversaram durante quatro horas. Falaram de economia, da estratégia defensiva do governo contra os especuladores, de câmbio e de dívida. No dia seguinte, Fraga tomou café da manhã com o presidente do Senado, Antônio Carlos Magalhães, e escutou conselhos para retornar ao Brasil. Soube no Alvorada o que era do conhecimento geral: não haveria moratória. 

Para que a acusação de Krugman fosse verdadeira, seria preciso provar que Armínio Fraga passou a Soros as informações privilegiadas que obteve.  Não havia vestígio. O professor americano não mencionou um só elemento da manobra financeira feita pelo investidor. Tampouco se conhecia um só ato ou palavra de George Soros estimulando a boataria. 

Sabe-se, no entanto, que um boletim da Chase Securities, publicado em Nova York na sexta-feira, dia 22, propunha claramente o calote, espichando a dívida interna com papéis de 5 a 10 anos de prazo e juros de 6% ao ano. 

O histórico de suspeitas de especulação com figurões não ajuda. Em 1995, outro presidente do Banco Central, Pérsio Arida, quase caiu porque, sabendo da iminente desvalorização do real, passou algumas horas na fazenda do banqueiro Fernão Bracher, seu amigo pessoal. O presidente do BNDES e o ministro das Comunicações tiveram que deixar o governo depois que tiveram seus telefones grampeados. Provas confirmando essas suspeitas não foram apresentadas, contudo.         

Relações desse tipo atropelam aparência e conflitos de interesse. Antes do jantar do dia 27, Fraga já se sentara à mesa do Alvorada (em março de 1997) para almoçar. Na ocasião, discutiu-se o déficit comercial. Ao final do encontro, os comensais, entre os quais estava o investidor Ibrahim Eris, fizeram um pacto de silêncio. Como uma casa de investimentos não é um instituto de pesquisas, o conhecimento que um operador adquire em conversas desse nível é, no mínimo, uma vantagem em relação aos seus concorrentes. Fraga, por exemplo, viria a cuidar dos interesses de Soros na Companhia Vale do Rio Doce, da qual era acionista. 

Entre almoços e conversas impróprias, o presidente Fernando Henrique, que interveio no banco da nora (Nacional), no de um ex-ministro (Bamerindus), e no de um admirador que ajudou a pagar a festa de sua primeira posse (Econômico), acabou desgastando a imagem do governo

No blog de Luíz Müller, há um trecho curioso:

“Relator da CPI da Petrobras: ‘Acho que temos de ir no passado da Petrobras e investigar coisas como a entrega a baixos preços um bilionário lote contendo 40% das ações preferenciais da Petrobras em março de 1999 (arrematadas na Bolsa por George Soros pela bagatela de US$ 1 bilhão e valiam mais de US$ 45 bilhões)…”

Mais: uma notícia da Gauchazh Política traz outra informação relevante sobre um acordo de leniência feito em 2017. O estaleiro de Cingapura Keppel Fels relatou, em acordo de leniência assinado com autoridades do Brasil, Estados Unidos e Cingapura, que pagou propina ao governo de Fernando Henrique Cardoso (PSDB) para assegurar que ganharia um contrato para a construção de uma plataforma da Petrobras. 

De acordo com documento conservado no Departamento de Justiça dos EUA, teria sido pagos, entre 2001 e 2002, o equivalente a US$ 300 mil  a “funcionários do governo”, com o objetivo de garantir, para a Keppel Fels, a construção da plataforma P-48.

O que parece se depreender é que Fernando Henrique, George Soros e especulações financeiras frequentam as mesmas festas. 

E os melhores anos de festanças ocorreram de 1999 a 2002.

AMIGO DO DONATÁRIO É AMIGO DO REI

Em dezembro de 2002, as eleições presidenciais já estavam definidas. Luiz Inácio Lula da Silva fora eleito presidente da República. Mas Fernando Henrique, seu antecessor, disse que ele deveria convencer o mercado internacional de que poderia controlar a inflação e a subida do dólar. Em entrevista à imprensa brasileira durante evento em que recebeu um prêmio, FHC disse confiar na capacidade de Lula. 

Fernando Henrique afirmou que o seu governo representou o começo do trabalho, mas que ainda era preciso fazer muito. Apesar do alerta, tinha confiança de que Lula continuaria controlando a inflação. 

George Soros, megainvestidor, compareceu à cerimônia de entrega do prêmio a FHC, em Nova York, e também falou sobre as perspectivas do governo Lula. 

“Acho que ele vai continuar o que Cardoso iniciou”, disse Soros. Mas afirmou também que isso apenas não bastava, já que havia um “grande problema no sistema financeiro internacional, que está em crise”. Para Soros, o Fundo Monetário Internacional precisaria encontrar uma forma de manter crédito internacional disponível ao novo governo, para que o Brasil continuasse a seguir políticas macroeconômicas sólidas – o que, segundo ele, Lula certamente faria. 

Soros diz ainda que manter o fluxo de investimento no Brasil é um desafio da comunidade internacional e que ele não é otimista quanto à possibilidade de o mercado compreender esse desafio. 

Mas, num encontro em Davos, o megainvestidor afirmou que o governo Lula “tem de dar certo”, e se disse disposto a ajudar o governo brasileiro em organismos internacionais e na complicada batalha para reduzir o risco-país. 

O Ministro da Fazenda, Antonio Palocci, contou à Folha que Soros propôs ajudar também na operação de redução dos “spreads” (a diferença entre o que agentes financeiros cobram pelos seus empréstimos e o que pagam aos investidores ou correntistas). Essa era uma das questões microeconômicas em que o governo PT apostava para irrigar a economia com mais crédito e estimular o crescimento. Segundo Palocci, Soros tinha várias experiências a respeito de redução de “spreads”, as quais seriam analisadas pela nova equipe econômica. Havia até a possibilidade de que técnicos da Fazenda viajassem ao exterior, para aprofundar os estudos. 

Perceba, caro leitor. Técnicos governamentais brasileiros do Ministério da Fazenda aprendendo, com um megaespeculador e seus mega interesses, as manhas de controle dos “spreads”. Parece novela repetida, não é?

Mas o que será que fez Soros mudar tão drasticamente de ideia? Em junho de 2002, ele chegou a afirmar que os mercados financeiros imporiam o caos se os eleitores não optassem firmemente por José Serra, o candidato de FHC. O que ocorreu, se Lula e FHC eram adversários políticos, durante a corrida presidencial?

Aí é que está a maldade, meu caro. Lula e FHC eram inimigos, por acaso? Olhemos o histórico da relação entre a dama e o vagabundo…

CAPÍTULO II – O DONATÁRIO AZUL E O DONATÁRIO VERMELHO

AMIGOS PARA “SIEMPRE”…

Em 2015, um artigo do Spotniks veiculado pelo PBHoje, mostrou que sempre houve mais pontos em comum entre Fernando Henrique e Lula do que julga a nossa vã filosofia. PT e PSDB, por exemplo, nasceram no mesmo lugar, no coração da esquerda paulistana, com concepções políticas e econômicas muito parecidas. Lula, sobre a relação entre os partidos, disse uma vez: 

“Nós estamos que nem dois jogadores de futebol, somos amigos, somos até irmãos e estamos jogando em times diferentes”.

Já Fernando Henrique disse: 

“Nossas diferenças com o PT são muito mais em relação à disputa de poder do que sobre ideologia”.

É muito difícil dissociar a história de ambos. O sociólogo francês Alain Touraine, de esquerda, ex-professor e amigo pessoal de Fernando Henrique, chegou a afirmar que o futuro do Brasil seria a união dos partidos. Em 2004, Touraine disse que os governos de FHC e Lula faziam parte de um mesmo projeto. E tal cenário é assumido por seu amigo. Para FHC, havia uma massa política atrasada no país e a polarização entre o PT e PSDB servia para tirar a nação desse atraso. 

“Os dois partidos que têm capacidade de liderança para mudar isso são o PT e o PSDB. Em aliança com outros partidos. No fundo, nós disputamos quem comanda o atraso”.

Lula e FHC quase criaram um partido político, no final da década de 1970, em uma reunião no ABC paulista, com intelectuais e dirigentes sindicais, para discutir o que fazer diante da iminente redemocratização no país. Nesse espaço, discutiram a criação de um partido socialista. Mas a ideia não foi pra frente. Como conta Francisco Weffort, fundador do PT e posteriormente ministro do governo FHC:

“Apesar das muitas afinidades, prevaleceu a divergência. Daquele grupo, uns saíram para criar o PT e outros, anos depois, o PSDB”.

Segundo Eduardo Suplicy, que reuniu Lula e Fernando Henrique diversas vezes em sua casa para discutir o futuro do país e a possível criação de uma nova legenda, ela só não nasceu pelo conflito de liderança entre os dois:

“Cada um avaliava que seria o líder maior da organização que se formasse. Tinham dificuldade de aceitar a liderança um do outro, e ficava muito difícil para ambos ficar no mesmo partido”.

Lula, em 1978, garantiu eleição para Fernando Henrique Cardoso, na estreia de ambos na política partidária. Em sua estreia política, Fernando, um membro ativo da comunidade acadêmica, concorria ao Senado pelo… MDB. 

Lula, por sua vez, era líder de movimento sindical. Convencido por amigos, pediu votos para o sociólogo emedebista em troca de sua adesão às bandeiras econômicas dos sindicatos, prontamente atendida. Lula também era estreante nas corridas eleitorais, e relembra:

“Acontece que em 78, primeiro ano das greves do ABC, o MDB estava lançando sua chapa de senadores. Algumas pessoas, alguns jornalistas, cujos nomes não vou dizer, queriam que a gente apoiasse Cláudio Lembo, da ARENA. Fui apresentado a Fernando Henrique Cardoso. Aí fomos para a campanha. Fui representar Fernando Henrique Cardoso em vários comícios”. 

Lula levou FHC às portas de fábrica e rodou com ele pelo interior do Estado. Fernando Henrique acabaria eleito primeiro suplente do Senador Franco Montoro e, quatro anos depois, quando Montoro virou governador, assumiu a vaga, dando princípio à carreira política que o levaria ao cume do poder nacional. Sem o apoio de Lula, nada disso seria possível. 

Em 1989, o recém formado PSDB, criado por dissidentes de esquerda do MDB, lançou o senador Mario Covas candidato à presidência em 1989. Covas alcançou pouco mais de 7 milhões de votos no primeiro turno e terminou a corrida na quarta colocação. O que pouca gente lembra é que o PSDB apoiou Lula no segundo turno – o PMDB, de Ulysses Guimarães, tentou seguir o mesmo caminho, mas acabou rejeitado pelo Partido dos Trabalhadores. Os tucanos, por outro lado, foram acolhidos. Em almoço com o prefeito de Belo Horizonte eleito pelo PSDB, Pimenta da Veiga, Lula ouviu do tucano:

“Eu tenho também a alegria de saber que, pela primeira vez, aqui se reúnem representantes de todas as forças progressistas do país, nesta tarde, neste almoço. E acho que deve ser assim, porque o Brasil deseja mudanças em profundidade. E só essas forças progressistas podem fazer essas mudanças”.

Apesar da união, Lula perderia a eleição para Collor em poucas semanas. 

Em 1993, o Brasil passou por um plebiscito sobre forma e sistema de governo. De um lado, o PT articulava a formação de uma Frente Presidencialista. De outro, o PSDB defendia a implementação do parlamentarismo. Em conversa informal, Lula e FHC chegaram a conversar sobre um plano em que o operário se tornaria presidente e o sociólogo, primeiro-ministro. 

Em 1998, como revela em conversa com Cristovam Buarque, FHC recebeu Lula no Palácio da Alvorada e arriscou uma nova previsão:

Cristovam Buarque: “Em novembro de 1998, acompanhei o Lula para visitá-lo. Quando o senhor abriu a porta do apartamento residencial no Alvorada, disse: “Lula, venha conhecer a casa onde você um dia vai morar”. Foi generosidade ou previsão?

Fernando Henrique Cardoso: “Não creio que tenha sido uma previsão, mas sempre achei uma possibilidade. E também um gesto de simpatia. Eu disse ao Lula naquele dia: ‘Temos uma relação de amizade há tantos anos, não tem cabimento que o chefe do governo não possa falar com o chefe da oposição’. Era uma época muito difícil para o Brasil. Eu disse lá, não sei se você se lembra: ‘algum dia nós podemos ter de estar juntos’. Eu pensava numa crise. E disse ao Lula: Não quero nada de você. Só conversar. É para você ter realmente essa noção de que num país, você não pode alienar uma força…”

No início dos anos 2000, Henrique Meirelles foi eleito o deputado federal mais votado por Goiás. Seu partido era o PSDB. Com o sucesso eleitoral e o respeito do mercado financeiro, por ter sido executivo no setor, Lula o convidou para ser o primeiro presidente do Banco Central de seu governo, cargo que ocuparia por 7 anos. Meirelles ainda receberia a benção de FHC, antes de se desfiliar do PSDB e deixar o cargo a que havia sido eleito. Lula telefonou para Fernando Henrique a fim de avisar sobre a escolha. 

Em 2002, FHC retaliou José Serra, candidato do PSDB à sucessão presidencial, por ataques feitos a Lula durante a campanha. Fernando Henrique disse também, em conversas reservadas, que foi um erro o ataque direto ao presidente do PT, o então deputado federal José Dirceu. Dirceu era o petista mais próximo de seu governo e a ordem era que se suspendesse as críticas a ele. Seu puxão de orelha foi transmitido ao comando do marketing da campanha de Serra.

Com Lula eleito, FHC iniciou uma campanha secreta em sua defesa. A história é narrada no livro “18 dias – Quando Lula e FHC se uniram para conquistar o apoio de Bush”, escrito por Matias Spektor, doutor em relações internacionais pela Universidade de Oxford e colunista da Folha de São Paulo. Conta Spektor:

Lula despachou José Dirceu [que viria a ser o chefe de sua casa civil] para os Estados Unidos e acionou grupos de mídia e banqueiros brasileiros que tinham negócios com a família Bush. Disciplinou as mensagens de sua tropa e abriu um canal reservado com a embaixada americana em Brasília. Lula não fez isso sozinho. Operando junto a ele estava o presidente brasileiro em função – Fernando Henrique Cardoso. FHC enviou o seu ministro-chefe da casa civil, Pedro Parente, em missão à Casa Branca para avalizar o futuro governo petista. O presidente também instruiu seu Ministro da Fazenda, Pedro Malan, a construir uma mensagem comum junto ao homem forte de Lula, Antonio Palocci. Eles fizeram uma dobradinha para dialogar com o Tesouro dos Estados Unidos, o Fundo Monetário Internacional e Wall Street. Fernando Henrique ainda orientou Rubens Barbosa, seu embaixador nos Estados Unidos, a prestar todo o apoio a Lula”. 

Sem esse apoio, Lula certamente não conseguiria a estabilidade internacional que obteve. Não fosse FHC, sua história teria tomado outros rumos. 

Em 2003, Marcos Lisboa, outro homem forte da economia do primeiro governo Lula, declarou à equipe econômica do governo que Fernando Henrique Cardoso merecia uma “estátua em praça pública” por ter promovido os acordos com os governos estaduais e municipais na negociação da dívida, assim como por ter criado a Lei de Responsabilidade Fiscal. Anos mais tarde, Fernando Henrique revelou comemorar as conquistas do governo Lula. “Eu também comemoro a melhoria na distribuição de renda. A política dele é a minha”, disse. 

Em 2005, no auge do escândalo do Mensalão e com a pressão por impeachment, Lula orientou seus dois homens fortes que pedissem a FHC para aplacar os ânimos da oposição. O tucano aceitou de prontidão. Na conversa com Thomaz Bastos, FHC concordou que um impeachment de Lula, à época uma ameaça real, “tornaria o país ingovernável”. Fernando Henrique dizia que não queria criar “uma cisão no Brasil”. Os tucanos acataram a ordem e a história do impeachment perdeu força.

Durante todo o governo Lula, duas figuras construíram uma ponte entre ele e FHC: os então ministros Antonio Palocci, da Fazenda, e Márcio Thomaz Bastos, da Justiça. Os encontros foram confirmados por ambos – Palocci confirmou que esteve pessoalmente com FHC “pelo menos cinco vezes”; Bastos disse ter conversado pessoalmente com o ex-presidente apenas uma vez, em junho de 2005, mas confirmou que os contatos por telefone eram muito frequentes. Lula sempre soube das conversas e, mais de uma vez, em momentos difíceis, sugeria a Palocci: “Vai conversar com Fernando Henrique”. 

Em eleições municipais recentes, pelo menos 999 cidades tiveram coligações contendo PT e PSDB na chapa.

CAPÍTULO III – O LOBO DAS AMÉRICAS, NÃO DE WALL STREET

MALANDRO TEM SEMPRE UMA BOA COMUNICAÇÃO….

Em 2013, houve uma mudança de planos nas agendas do bilionário Soros. A Open Society planejara cortar a subvenção a sites latino-americanos de reportagem. Entre os meios eletrônicos beneficiados, estavam o salvadorenho El Faro, o colombiano La Silla Vacía, o chileno Ciper, o brasileiro Agência Pública, e a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji). 

O apoio fornecido pela Open Society, em muitos casos realizado em paralelo ao da Fundação Ford, ajudou a estabelecer uma rede on-line de jornalismo alternativo na região. Os veículos, por causa do corte, buscaram outras formas de financiamento que permitissem a sobrevivência dos sites. 

O advogado Pedro Abramovay, ex-secretário nacional de Justiça (governo Lula), assumiu naquele ano a direção da Open Society para a América Latina. Ele explica que a instituição passava por uma “grande reestruturação interna”. Os programas regionais, como o latino-americano, estavam “ganhando força” em detrimento dos temáticos, como o programa de mídia, que vinha financiando sites de jornalismo. 

Abramovay foi indicado para a fundação pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que presidia, à época, a Comissão Global sobre Política de Drogas, “financiada em grande medida”, segundo o advogado, pela própria Open Society. 

A reestruturação e a escolha do diretor brasileiro apontam para a priorização do tema das drogas nas ações regionais da instituição. Além da aproximação com FHC e Abramovay, o próprio Soros se encontrou com Lula, quando o ex-presidente recebeu prêmio do International Crisis Group, organização nova-iorquina também financiada, em parte, pela Open Society. 

Paralelamente, o fundo de investimento de Soros, baseado nas ilhas Cayman, passou a investir no setor brasileiro de comunicações, em 2012. O primeiro passo foi a aquisição da operadora de TV paga Sunrise, de São Paulo. O segundo, o lançamento da On Telecom, operadora que começou oferecendo acesso à internet de banda larga no interior paulista.

….E O GOVERNO COMO SEU PARCEIRO DE NEGÓCIOS…

Em uma reportagem do Valor Econômico, Pedro Abramovay mostra o porquê foi escolhido para dirigir a Open-Society na região: “A minha escolha teve a ver com um perfil mais político mesmo que a fundação queria dar a seu trabalho aqui”. O orçamento da Fundação para a região, em 2014, estava cotado em US$ 34 milhões, com um fundo reserva de US$ 4 milhões. Cerca de 85% dessa verba seria convertida em doações para Organizações Não Governamentais e centros de estudos. Embora a Open Society tenha muita visibilidade na campanha pela descriminalização da maconha, a maior parte das doações na região estava ligada a direitos humanos. Eram alvo de benefício, em especial, ONGs que atuam em questões de justiça criminal: direito de defesa, desarmamento, combate à redução da maioridade penal. Entre elas, estava o Sou da Paz, no Brasil. 

Já se disse de Soros que ele é a única pessoa física com uma política externa própria. Nesse sentido, Abramovay era uma espécie de embaixador, reunindo-se tanto com gente de ONGs e acadêmicos quanto com autoridades. “Acho que o Soros gosta desse estilo propositivo, que eu exploro por ter tido uma trajetória no Estado”. 

Em São Paulo, a fundação investiu no programa municipal Braços Abertos, que oferecia trabalho e abrigo aos dependentes da Cracolândia do bairro da Luz. A organização É de Lei recebeu verbas para treinar agentes do programa; o Instituto Brasileiro de Ciências Criminais, para fazer a avaliação da iniciativa. O quarto dos cinco filhos de Soros, Alex, que acompanhou o pai no Brasil, assistiu a uma exposição sobre o Braços Abertos no gabinete do prefeito… Fernando Haddad. 

…E, COM UM BOM ‘PARÇA’, TODO MUNDO ACABA ACEITANDO TUAS ‘IDEIA’.

Em maio de 2015, a Open Society apoiou a criação da Plataforma Brasileira de Políticas de Drogas, uma rede de 36 entidades. Em agosto, quando a descriminalização do porte de drogas para uso pessoal começou a ser votada no STF, grupos da plataforma atuaram como “amicus curiae” dos defensores da descriminalização. Amicus curiae, ou amigo da corte, é uma espécie de especialista do assunto e consultor do Tribunal em questão para o auxiliar no tema abordado. Um advogado da parte contrária provocou: “Isso tudo é armação do Soros”. 

Parece que o advogado tinha motivos para bradar tal suspeita…

No Brasil, a filantropia esteve por muito tempo associada às obras de caridade católicas. Nos anos 90, a disseminação dos conceitos de “responsabilidade social” e “sustentabilidade” levou as empresas a procurar valorizar suas marcas investindo nessas áreas, por meio das fundações empresariais. As fundações familiares só surgiram recentemente, impulsionadas pela abertura do capital das empresas. Os donos viraram acionistas, e suas fortunas ficaram líquidas. O Grupo de Institutos, Fundações e Empresas (Gife) reúne uma amostra representativa da filantropia brasileira. Na época da reportagem, havia 132 associados, 70% deles sendo empresas ou fundações empresariais; O restante, fundações familiares e estrangeiras. 

DE BOAS INTENÇÕES…

“No Brasil não há uma cultura cívica em que se entenda o papel do terceiro setor como mais um pilar na democracia. A cultura de doação é grande para as igrejas, para o pobre, mas não para causas de interesse público”, afirmou Ana Toni, uma das pessoas que mais entendem de filantropia no país. Ana foi por dez anos diretora da Fundação Ford no Brasil e dirigia, à época da reportagem, o Instituto Clima e Sociedade. Tinha uma consultoria, a Gestão de Interesse Público (GIP), que assessorava associações sem fins lucrativos. 

“Não conheço nenhuma organização de peso aqui – Cebrap, Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Transparência Brasil, Ibase, Instituto Socioambiental, Instituto Patrícia Galvão de Mulheres, Instituto da Mulher Negra Geledés – que existiria sem a Fundação Ford e outras filantrópicas estrangeiras”, comentou. 

Em um artigo de 2013, o cientista político Rob Reich, da Universidade Stanford, disse que as fundações são uma anomalia na democracia americana porque manipulam altas verbas, em parte públicas porque decorrentes de isenções fiscais, sem que a destinação do dinheiro seja submetida à deliberação dos cidadãos. 

“Eu amo o ‘grantmaking’ (doação de fundações), mas não é a coisa mais transparente do mundo”, disse Ana Toni sobre a provocação de Reich. As fundações “têm que ter padrões de transparência muito altos” para não haver abusos. A Ford e a Oak, por exemplo, divulgam em seus sites os beneficiários de suas doações e o valor que recebem. A Open Society publica apenas os gastos por regiões, programas e fundações nacionais. Para Ana, as ONGs devem zelar por sua credibilidade buscando financiadores múltiplos e doações do público: 

“De onde vem a legitimidade da sociedade civil? Nós não somos eleitos. Eu recebo dinheiro de um nazista ou de um progressista e viro um ator na sociedade. No fim, ou presto contas para uma fundação lá fora, ou para 60 mil pessoas no Brasil. Com uma base de doadores ampla, você se protege como ator político”.

“EU TE DOU DINHEIRO, E VOCÊ ME DÁ SUA MILITÂNCIA. PODE FICAR COM A FAMA; EU FICO COM OS BENEFÍCIOS” 

Segundo uma reportagem de 2017 na Gazeta do povo, a Mídia Ninja (Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação), que ficou conhecida nas manifestações de 2013 dizendo-se independente, havia recebido US$ 80 mil da Open Society. Vinculado ao Fora do Eixo, entidade chefiada por Pablo Capilé, a Mídia inaugurou uma nova sede na região central de São Paulo. Agência Pública, à época do esquerdista Leonardo Sakamoto, recebeu R$ 1 milhão em cinco anos. 

Ronaldo Lemos, comentarista da Globonews, cofundador e diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio (ITS Rio), recebeu da Open Society US$ 350 mil entre 2014 e 2015. Lemos foi talvez o nome mais conhecido na elaboração e defesa do Marco Civil da Internet, que abriu a possibilidade de regulação e de controle pelo Estado e que foi usado pela Justiça como fundamento jurídico para suspender o aplicativo WhatsApp.

Ainda sobre o ITS Rio, junto com Ronaldo Lemos, integravam a equipe Eliane Costa, que foi gerente de patrocínio da Petrobras de 2003 a 2012 (ou seja, durante todo o governo Lula); Lucia Nader, que era Fellow da Open Society e… Ana Toni, (já mencionada aqui como diretora da Fundação Ford no Brasil)  integrando o conselho editorial do jornal socialista Le Monde Diplomatique Brasil.  

O ITS criou o site Mudamos.org, idealizado pelo sociólogo socialista Luiz Eduardo Soares. Soares foi secretário de Segurança Pública do governo Anthony Garotinho, no Rio de Janeiro, e secretário nacional de Segurança Pública do governo Lula. Luiz Eduardo é notório defensor da desmilitarização da Polícia Militar e da descriminalização das drogas. 

O Instituto Igarapé recebeu mais US$ 670 mil, entre 2014 e 2015. A diretora-executiva era Ilona Szabó de Carvalho, comentarista da Globonews (e voz cada vez mais conhecida na defesa da legalização das drogas).

Outras organizações que receberam dinheiro de Soros para influenciar a sociedade brasileira para a liberação de drogas foram o Movimento Viva Rio, que recebeu US$ 107 mil entre 2009 e 2014 e… O Instituto Fernando Henrique Cardoso, que recebeu US$ 111.220 entre 2015 e 2016. 

FHC tornou-se a voz mais famosa a defender a legalização. 

O Instituto Arapyaú, fundado por Guilherme Leal, um dos donos da empresa Natura e que, em 2010, foi candidato a vice-presidente de Marina Silva, petista durante 24 anos, até se desfiliar em 2009. Um dos membros do conselho de governança era Oded Grajew, idealizador do Fórum Social Mundial, ex-assessor especial do presidente Lula e coordenador-geral da Rede Nossa São Paulo, que recebeu US$ 500 mil da Open Society entre 2014 e 2015.

O projeto Alerta Democrático recebeu US$ 512.438, em 2014. Tinha na sua equipe Pedro Abramovay, já citado neste artigo. Outro integrante da equipe foi Jean Wyllys, ex-deputado federal pelo PSOL do Rio de Janeiro.

Wyllys foi enviado à Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, para fazer uma pesquisa sobre o tema “fake News e discursos de ódio contra minorias sexuais e étnicas”. Tudo financiada pela Open Society. Nas próprias palavras de Wyllys, “sou bolsista da Open Society Foundation, que financia os meus estudos sobre a articulação das fake news com discursos de ódio, e faço muitas conferências a convite deles”.

Foi graças a um investimento de 10 milhões de dólares da Open Society (junto de Fundações como Ford e Kellogg ‘s) que surgiu a Fundação Marielle Franco, fruto de um investimento com objetivo de “formação de lideranças políticas na América Latina”. Através da atuação do PSOL, a Open Society já paga uma bolsa aos familiares da vereadora morta no Rio de Janeiro. 

MAS DE QUE LADO TÁ ESSE VÉIO, CACETE?

O Blog Esquerda Online, em 19 de novembro de 2016, explica um pouco a trajetória pessoal e os perigos das relações com George Soros. 

O bilionário inicia suas atividades supostamente filantrópicas em 1979, financiando com US$ 3 milhões anuais, movimentos políticos e veículos de comunicação de dissidentes dos regimes do Bloco Soviético, a exemplo do Solidariedade, na Polônia. 

Com o enfraquecimento das precárias políticas públicas nos países periféricos, as Organizações não-governamentais e fundações privadas apareceram como uma oportunidade de redenção de grupos sociais vulneráveis, e solução instantânea para problemas e conflitos sociais. Por trás de intenções aparentemente descompromissadas dessas entidades transnacionais e, apesar da boa-fé de parte dos indivíduos envolvidos em suas ações, há questões obscuras a serem esclarecidas. 

A história da Open Society não tem gestão humanitária impecável. As primeiras ações do Open Society Institute (posteriormente rebatizado Open Society Foundations) ocorreram em países do Leste Europeu, Cáucaso e Ásia Central. 

Em 1990, na Antiga Iugoslávia, por exemplo, a Open Society destinou US$ 100 milhões de dólares a movimentos políticos OTPOR (Resistência), para auxiliar na derrubada do presidente Milosevic, ocorrida em 2000. Um dos interesses em jogo era a compra do complexo siderúrgico de Trepca, avaliado à época em US$ 5 Bilhões de dólares, uma vez que a abertura do regime facilitaria sua privatização. 

Em 2003, Soros destinou US$ 42 milhões para apoiar organizações políticas na Geórgia, como o KMARA, com o propósito de derrubar o ex-ministro das Relações Exteriores da União Soviética e então presidente Eduard Shevardnadze. Com recursos da Open Society, mil ativistas obtiveram treinamento em técnicas de desestabilização com membros do antigo OPTOR iugoslavo e do Centre for Applied Non-Violent Actions and Strategies, localizado em Belgrado, para a desestabilização do governo. 

Em 2005, as ações de George Soros intensificaram-se e se estenderam à Ucrânia, ao Quirguistão e ao Azerbaijão. A Open Society destinou recursos financeiros a organizações e veículos de comunicação de oposição ao recém-reeleito presidente. 

Esses são apenas alguns exemplos que compõem o quadro das chamadas Revoluções Coloridas, as quais não se diferenciam muito da Primavera Árabe, no tocante à intervenção estrangeira encoberta, realizada por meio de ONGs e fundações.  Com receio de tal intervenção “colorida”, a Rússia, em 2015, pediu investigação e baniu do seu território cerca de 12 ONGs e fundações estrangeiras, entre as quais a própria Open Society Foundations, sob a alegação de ameaça à ordem constitucional e à segurança nacional do país. 

O historiador e cientista político brasileiro Luiz Alberto Moniz Bandeira compila dados interessantes sobre as ações da Open Society Foundations. Há um padrão de atividade de movimentos de desestabilização, financiados por essas entidades transnacionais, que Gene Sharp, diretor do Albert Einstein Institute, classifica como “revolução não-violenta”. O intuito geral da agenda vem sendo o de subsidiar, com recursos e treinamento, a desestabilização e a mudança de regimes ou governos não-alinhados a uma política de abertura de mercados, de privatizações, de pilhagem de recursos naturais e de favorecimento à especulação cambial e financeira. 

Para essas finalidades, as entidades buscam fomentar pautas políticas, encabeçadas por movimentos locais, que encontram, por sua vez, dificuldades de financiamento local. A pretexto de apoio descompromissado a demandas quase sempre legítimas da população, as ações dessas entidades transnacionais escondem interesses sub-reptícios. No primeiro deles, encontram-se a ampliação de oportunidades de negócios a partir de demandas que levem a isso, bem como oportunidades de especulação cambial e financeira a partir da promoção da desestabilização econômica do país. No segundo, a formação de uma hegemonia (neo)liberal e “democrática”, a partir da mudança de regime ou governo, levando à quase impossibilidade de ascensão de opositores não-alinhados. 

Aí, pelo trecho do artigo do Esquerda Online, você pensa: “tudo bem, então Soros é um bilionário imperialista capitalista safado”, não é?

Mas, Felipe Moura Brasil, em artigo de 2014 para Veja, atualizado em 31 de julho de 2020, mostra outra face de George Soros: a progressista. Seu principal executivo na Soros Foundation Network era ninguém menos que Aryeh Neier, fundador da Students for a Democratic Society (SDS), o maior e mais radical grupo de esquerda dos Estados Unidos nos anos 60, uma de suas dissidências sendo o Weather Underground, grupo terrorista de inspiração comunista liderado por Bill Ayers, o lançador da carreira política de Barack Obama. Soros é tão poderoso no Partido Democrata americano que foi chamado de “dono” do partido no programa humorístico Saturday Night Live. Na prática, é bem por aí. Dentro do Partido Democrata, candidatos não ligados a Soros são cada vez mais raros. 

Nos EUA, Soros mantém o poderosíssimo Media Matters, que dá o tom de praticamente toda imprensa americana, além de ser o principal financiador do The Huffington Post, um ícone da esquerda mundial. 

Soros financia também inúmeros grupos defensores de “valores progressistas”, de “redistribuição de renda”, o que inclui o recrutamento e treinamento massivo de candidatos a cargos eletivos, militantes, ativistas e lobistas. A ideia central é expandir ao máximo os programas assistencialistas e o welfare state para corrigir o que ele vê como “imperfeições” do capitalismo. Algumas dessas organizações miram diretamente na imprensa, no sistema judiciário, o que inclui a formação de juízes, e em instituições religiosas, treinando clérigos

Outras agendas políticas importantes incluem a flexibilização das fronteiras dos EUA e a facilitação das regras de imigração, além de oposição a toda ação militar americana (classificadas como “morais” e desnecessárias). Incluem-se aí as pautas:  cortes no orçamento militar, ambientalismo, ativismo feminista radical, mais poder para organizações globais como a ONU, legalização das drogas e eutanásia, “antissionismo”, além do financiamento bilionário de candidatos do partido democrata. Soros também financia o movimento abortista.

Soros é tão próximo de Bill Clinton que alguns dos mais importantes ocupantes de cargos públicos no seu governo são considerados indicações diretas dele. 

Em dezembro de 2006, George Soros recebeu Barack Obama em seu escritório em Nova York. Duas semanas depois, Obama revelou que seria candidato a presidente dos EUA e, uma semana depois, George Soros anunciou publicamente que apoiava sua indicação nas primárias contra Hillary Clinton. Em 2014 apoiou Hillary para campanha presidencial americana. 

E agora, José? George é imperialista malvadão ou safado socialista? Ou apenas um velho malandro de fino trato?

E OS NEGÓCIOS VÃO BEM, OBRIGADO.  

Em 2013, Soros já fazia apostas no Brasil, aplicando R$ 1 bilhão por aqui no segmento de etanol e energia pela Adecoagro (baseada na Argentina). Em 06 de agosto de 2013, já havia planejado dar início a outro negócio: a provedora de banda larga On Telecom, com tecnologia 4G. O investimento que se previa beirava a cifra de R$ 500 milhões de reais. As licenças foram licitadas pela Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações) em julho de 2012, no mandato de Dilma Rousseff. A empresa conseguiu licença para operar em 136 cidades.

E olha que curioso: a On desenvolveu com a chinesa Huawei um aparelho com bateria interna que funciona por quatro horas, em caso de queda de energia.

Paulo Bernardo, ministro das Comunicações à época, esteve presente no evento de lançamento da On, com a presença do presidente da Anatel, João Rezende. “Inclusive temos novas faixas que vamos leiloar esperando que Soros abra o bolso pra comprar”, disse Rezende.

VOCÊ QUEBROU? FALA, MEU “SÓCIO” !!!

A empresa Oi vivia uma situação crítica em 2019: em recuperação judicial, reportou uma queda de 97,5% no lucro líquido, em relação ao mesmo primeiro trimestre de 2018. 

Naquele momento, o fundo Soros aumentou em 123,6% a participação em recibos de ações de depósitos (ADRs) da companhia de telecomunicações brasileira. O número total de ações da Soros Fund Management Llc estava em 4.173,192, alcançando um valor total de US$ 7,8 milhões. A participação na Oi mais que dobrou.

AH, OS JANTARES!

Há alguns meses, no periódico “Disparada”, Cibele Laura escreveu sobre encontros inusitados.

Luciano Huck, animador de programa da Rede Globo, tem sido considerado um dos possíveis candidatos a presidente em 2022. De 2015 para cá, ele tem se aventurado a dar pitacos sobre política. Houve boato sobre ser presidenciável em 2018, o que não ocorreu. Huck participou apenas indiretamente, dando apoio financeiro à formação de candidatos através de movimentos de renovação política. Reapareceu como presidenciável possível depois de ter comparecido a evento durante o Fórum Econômico de Davos, Suíça. Palestrou para 40 executivos durante um almoço. A pauta foi desigualdade social e renovação política. Huck, claro, recebeu holofotes. Mas o que está por trás desses eventos? Voltemos a 2015. 

Em seu suntuoso apartamento na Avenida Vieira Souto, Rio de Janeiro, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso recebeu convidados para um luxuoso jantar oferecido ao bilionário George Soros. O assunto do jantar? Terceiro Setor, com aula magna do velho húngaro, destacando educação, segurança pública, drogas e, obviamente, política. 

Soros estava em companhia de Jorge Paulo Lemann,  ninguém menos que o homem mais rico e influente do Brasil, outro convidado seleto de FHC. O jantar foi organizado pelo então petista Pedro Abramovay, responsável pela Open Society Foundations na América Latina, ONG de Soros, e pelo Instituto Igarapé, na época liderado pela socialite e cientista-política Ilona Szabó. Szabó é co-fundadora do movimento Agora!, cujo mais famigerado membro é… Luciano Huck.

 Sobre o movimento Agora!, fundado em 2016, o discurso é de renovação política, com agenda voltada a políticas públicas e intenção de romper a polarização, alegando não ser um movimento nem de direita, nem de esquerda. A BBC Brasil, em reportagem sobre o movimento, destaca:

“Um encontro improvável. É assim que integrantes do movimento Agora! definem sua composição, que abrange gente como o economista Humberto Laudares, assessor parlamentar do senador Tasso Jereissati (PSDB), o ex-secretário de Justiça da gestão Dilma Rousseff (PT) Beto Vasconcelos (…)

“Participam ainda Rafael Poço, cofundador da Rede Sustentabilidade, partido de Marina Silva; o diretor do grupo educacional Somo, Eduardo Mufarej (também criador do Partido Novo); a presidente do Grupo Todos pela Educação, Priscila Cruz; o secretário de assuntos estratégicos de Michel Temer (MDB), Hussein Kalout, e o analista político João A. de Castro Neves, da Eurasia Group”

O movimento Agora! Foi apenas um dos grupos no leque de plataformas do potencial gerado pela mina de influências decorrentes do Terceiro Setor, modelado pelas Fundações bilionárias de Soros e aliados de negócios. Um negócio da filantropia, formando representantes desses homens de negócios na sociedade, mas com a legitimidade popular. 

Em outubro de 2017, surgiu o movimento de renovação política RenovaBR, idealizado pelo empresário Eduardo Mufarej, apoiador do Movimento Agora!. Luciano Huck foi notável contribuidor e parceiro do RenovaBR. 

RenovaBR elegeu 11 novos políticos, com os quadros pulverizados em partidos políticos. Ao todo, esses grupos de renovação elegeram 34 novos políticos em 2018. Os grupos são: Agora!,  RenovaBR, Livres, Nós, Ocupa Política, Muitas, Vote Nelas, Acredito, Rede de Ação Política pela Sustentabilidade (Raps) e Movimento Brasil Livre. Cibele Laura considera esses grupos como verdadeiros Think Tanks. 

A RAPS foi o movimento que mais elegeu candidatos. Seu presidente do Conselho Diretor é Guilherme Leal, um dos convidados ao jantar de FHC em 2015. A plataforma do movimento não se restringe a formação de quadros para renovação política, mas também de novas lideranças, pulverizando-os em partidos diversos, à esquerda e à direita. Os apoiadores do RAPS são do terceiro setor: institutos, fundações, como Fundação Lemann e Estudar, ambos de Jorge Paulo Lemann; Fundação FHC, do ex-presidente FHC, entre outros.

Das crias do RenovaBR, Tabata Amaral, do PDT, foi quem mais se destacou. Tabata é pupila de Jorge Paulo Lemann, o homem mais rico do país e produtor de políticos. Além de Tabata, outro pupilo de Lemann é Felipe Rigoni, do PSB. Em comum, ambos têm Lemann como padrinho de formação acadêmica e política; o RenovaBR como escola de formação de candidatos; e o Movimento Acredito, outra plataforma de renovação política. O plano do Movimento Acredito é auspicioso: renovar praticamente toda política nacional com a benção de Jorge Paulo Lemann. 

Segundo Pedro Abramovay, Diretor para a América Latina da Open Society Foundations, Lemann e Soros, os dois “filantropos” bilionários presentes no banquete de Fernando Henrique Cardoso em 2015, são colegas, porém, de estilos diferentes:

“O Lemann e o Soros se conhecem. Mas têm estilos muito diferentes de fazer filantropia e mesmo de visão política” – informou.  

Essa frase por acaso lembrou outra dupla de amigos para “siempre”, caro leitor?

Sobre diferença de estilos, procede a afirmação. Em Lemann há a atuação direta na construção dos futuros políticos, como se fosse uma fábrica. 

Soros atua mais no âmbito da sociedade civil. Pedro Abramovay contou para Cibele Laura que, durante o jantar de 2015, “o tema que Soros mais falou foi sobre a necessidade de se ter uma sociedade civil forte para enfrentar eventuais ameaças à democracia. E que se não se repensasse a filantropia no Brasil, seria muito difícil fortalecer a sociedade civil”.

Para o bilionário, a grande ameaça à liberdade é o nacionalismo, necessariamente autoritário, em sua leitura. Com o poder do dinheiro, estocado por especulações financeiras, o velho húngaro abraça a missão de defender a sociedade aberta a qualquer custo. Soros faz da filantropia sua epopeia, dispondo-se a doar bilhões de dólares para proteger a sociedade, o que facilitaria também seus negócios na especulação financeira internacional. Combater o nacionalismo com uma sociedade aberta modelada por diretrizes de filantropos bilionários. 

 Um traço comum a Soros e a Lemann é o modus operandi de expandir influências: a formação de lideranças. Lemann introduz as lideranças na política diretamente. Soros prefere encaminhá-las à Sociedade Civil, fazendo-as atuar em movimentos sociais que desembocam na política, naturalmente. Uma exigência aos candidatos para a formação de lideranças feministas, por exemplo, expressa no site da Open Society, é “demonstrar experiência em organização comunitária ou ativismo em nível local, nacional ou regional”.

Outro ponto harmônico entre os colegas bilionários, além da amizade com FHC, é o interesse na educação. Lemann investe pesado em educação no Brasil. Para isso, criou uma rede de institutos e fundações que interagem, envolvendo empreendedores, estudantes, executivos, professores e Universidades respeitadas. 

Em novembro de 2018, Lemann organizou um evento na Universidade de Oxford, através da Fundação Lemann, para discutir gestão pública e educação com várias autoridades. Políticos de centro-esquerda participaram: Tabata Amaral, Manuela D’Ávila (PCdoB), Katia Abreu (PDT) e Alessandro Molon (PSB). Também a intelectual Claudia Costin, ex-ministra da Administração e Reforma do Estado durante o governo Fernando Henrique Cardoso (entre 1995 e 2002), e hoje funcionária da Fundação Lemann.

QUEM DISSE QUE É PELA NATUREZA??

Em 23 de janeiro de 2020, George Soros anunciou o investimento de US$ 1 bilhão em uma rede acadêmica para combater os “ditadores de agora e em gestação”, assim como as mudanças climáticas. A iniciativa, batizada de Open Society University Network, foi divulgada publicamente em seu tradicional jantar anual no Fórum Econômico Mundial em Davos. 

Soros atacou o presidente Jair Bolsonaro por sua atuação na área ambiental. Ele afirmou que o brasileiro falhou em prevenir a destruição das florestas tropicais no país e abriu a Amazônia para a criação de gado.

Apesar dos palpites sobre a Amazônia, o bilionário investiu numa usina acusada de realizar queimadas ilegais, segundo o Diário do Poder. A Adecoagro (lembra dela?), dona das usinas de Invinhema e Angélica, no Mato Grosso do Sul, perto do Pantanal, foi responsabilizada pela Polícia Ambiental pela queimada ilegal que saiu de controle e devastou mais de 87 hectares de Área Protegida de Preservação Permanente. 

O incêndio ocorreu em 2015 e destruiu o equivalente a 87 campos de futebol de matas ciliares de cursos d’águas e nascentes, rendendo uma multa de R$ 1,71 milhão a Adecoagro, de Soros. 

O velho húngaro tem uma estratégia de negócios muito boa. 

Por um lado, investe numa rede complexa de representantes de seus interesses nos governos locais, espalhados desde o Terceiro Setor, através de fundações e redes criadas por meio delas, até a administração governamental, através de agentes nos Três Poderes, entre os quais criam uma ponte firme e perene. Por outro lado, negocia em setores estratégicos do país de forma bem agressiva. 

E numa estratégia de negócios tão boa, onde joga o especulador azul, também joga o vermelho. Com estratégia semelhante. E semelhante linha de raciocínio. 

CAPÍTULO IV – O ESPECULADOR VERMELHO É O XING LING

Em 2016, um palestrante nada, nada trivial, discursa no auditório da Fundação Fernando Henrique Cardoso: o chinês Lanxin Xiang, professor do Instituto de Graduação em Estudos Internacionais e de Desenvolvimento de Genebra. O palestrante faz uma análise sobre as ambições chinesas e as estratégias utilizadas para alcançá-las. 

O governo chinês desenvolveu uma iniciativa apelidada de “One Belt & One Road” (OBOR), algo como “um cinturão e uma estrada”, em português. A ideia era conectar o território chinês, por meio de estradas, ferrovias, oleodutos e gasodutos, à Rússia e aos países da Ásia Central e do Oriente Médio, chegando até a Europa. 

Segundo o jornal Financial Times, a estimativa de investimento chegaria a US$ 890 bilhões. O financiamento deve ser realizado por diversos bancos chineses, através do suporte de um novo banco multilateral de desenvolvimento especificamente para o projeto OBOR: Asian Infrastructure Invest Bank (AIIB), com capital de 100 bilhões, sendo 30 bilhões disponibilizados pela China. O Brasil se encontrava entre os dez principais acionistas do banco. 

Além do banco, Xi Jinping anunciou à época a criação do Fundo da Rota da Seda, com capital de 40 bilhões. O NPD (Novo Banco de Desenvolvimento), ou banco dos BRICS, do qual o Brasil faz parte, também deve contribuir com o financiamento.

As ambições chinesas em relação ao OBOR estão além da perspectiva econômica. O objetivo geopolítico pesa: consolidar Pequim como ‘player’ central da Eurásia.

 Apesar de ter sustentado o objetivo pacífico da iniciativa OBOR, LanXin admite que ele também foi pensado pelo governo chinês como alternativa para o caso de, no futuro, ocorrer conflito na região do Pacífico entre China e EUA:

“A ideia de construir uma conexão terrestre até a Europa está relacionada ao temor de que uma eventual guerra no Pacífico bloqueie rotas marítimas essenciais para a China”, disse Lanxin. Hoje, a China é altamente dependente do exterior em energia, alimentos e matéria-prima.

A relação sino-russa ia de vento em popa, com ambos os países adotando posições semelhantes em uma variedade de temas relacionados à Europa, Ásia e Oriente Médio, além do aspecto complementar das economias dos dois países. Segundo LanXin, Vladimir Putin, presidente da Rússia, no começo não gostou do projeto, pois era a favor de uma União Euroasiática. Mas, a crise da Ucrânia levou a ideia dessa União a praticamente morrer. Passou então a apoiar a iniciativa de Pequim. 

O interesse pela América Latina tornou-se mais concreto na passagem do século 20 para o 21. “Foi quando o presidente Jiang Zemin (que governou de 1993 a 2003) abordou a estratégia de ir até os países que produzem energia, alimentos e minério (para assegurar o suprimento dessas matérias-primas à China). Naquela época, descobrimos que a América Latina tinha um nível educacional, um know-how e uma infraestrutura que os países africanos em geral não tinham. Desde então, é impressionante a rapidez com que a China se envolveu em projetos na região”, explicou Lanxin.  

A estratégia de Pequim coincidiu com o fato de diversos países latino-americanos serem, na época, governados por líderes de esquerda, como Luiz Inácio Lula da Silva e Hugo Chávez. 

No caso do Brasil, o país é visto como estratégico para seus objetivos comerciais e diplomáticos, não apenas em função do tamanho do território, da economia e da população, mas também por integrar o grupo dos BRICS, junto com Rússia, Índia, China e África do Sul. 

Por mirar nos setores de energia, alimentação e minério, se há a possibilidade de comprar essas áreas, não seria nada estranho:

  • Acordos chineses diretamente com entes federativos, a despeito do governo federal.
  • Compras, voltadas a esses setores-chave de um país, feitas por empresas nem um pouco afetas à área, como a possibilidade de compra da Sabesp, companhia de águas paulista, pela China Railway Construction Corporation — caso curioso explicado em artigo da Revista Esmeril.

O palestrante ressalta a importância estratégica do Brasil. “Para a China, o Brasil é a âncora da América Latina. Há muitas ideias e projetos em andamento, inclusive ligando o Brasil a outros países da região, abrindo uma ponte para o Pacífico. Sou muito otimista quanto à relação entre os dois países”.

Não pudemos deixar de notar, ao final da palestra, um caloroso abraço de Fernando Henrique Cardoso, conectando outra iniciativa chinesa mais profunda: agrupamento de agentes políticos com mesmo espectro ideológico. 

Você pode encontrar essa linda foto na aba “galerias Conteúdos relacionados/ Fotos” do link referenciado. Salvo engano é a… décima nona foto, de vinte . 

Lá no finalzinho, na rabeta. 

Vai que alguma checagem vagabunda, preguiçosa não consiga achar, não é mesmo, seus lindos?

Em 2019, a UNESP produziu um material interessante: “ONE BELT, ONE ROAD: A INICIATIVA CHINESA DE INFRAESTRUTURA E SUA REPERCUSSÃO NO BRICS”. 

O artigo explana a visão de expansão da influência chinesa, tanto na economia quanto na política mundial, através de iniciativas globais de aproximação nos dois âmbitos. 

Na Eurásia (Ásia e Europa), a evolução das relações sino-russas e sino-indianas foi crucial. O projeto também previu ações na África e América do Sul, em especial no Brasil e no Peru, a partir da mesma estratégia de expandir a capacidade de infraestrutura para catalisar a intensificação das relações econômicas. O BRICS, nesse contexto, torna-se a plataforma política receptora da iniciativa OBOR. 

Em suma, a iniciativa OBOR abrange forte intensificação das relações comerciais e importantes programas de integração político-econômica e de infraestrutura. 

Uma ambição da magnitude do OBOR gera um problema: como unir tantos interesses, inclusive delicados, como a adesão da Índia? A respostas está no conceito de parceria estratégica, que supera a relação amistosa ou restrita ao comércio. Segundo trecho do artigo:

“Para além desse nível de cooperação, postula-se aqui que a parceria opera em um nível mais profundo: no intercâmbio de ideias e pontos de vista sobre os contornos da ordem internacional. Essa troca de perspectivas, sobre temas globais, nos quais as vozes russa e chinesa possuem entonação diferente dos Estados Unidos e dos demais países ocidentais, encontra seu lastro nos documentos oficiais e na análise da atuação comparada dos dois na ONU, assim como influencia a criação de um foro de Estados como BRIC e nos entendimentos em nível trilateral entre China, Rússia e Índia”. 

O OBOR, esse ambicioso corredor econômico inspirado na antiga Rota da Seda, tem como objetivo declarado, com início de seu implemento em 2015, “[…] conectar o vibrante círculo econômico asiático, de um lado, até o círculo econômico europeu, do outro, e alinhar países com grande potencial para desenvolvimento econômico”. Porém, os desdobramentos dessa iniciativa, tais como crescimento econômico, integração de infraestrutura entre países membros e aproximação aos países da Eurásia visam expandir a influência chinesa, considerando seu ascendente padrão tecnológico na produção, e a sua ampla capacidade de acúmulo material. 

O que parece ocorrer, segundo articulações realizadas por iniciativa chinesa, é a construção de um imperialismo capitaneado por Pequim; um imperialismo não americano, não-ocidental, alinhado com Rússia e Índia, potências emergentes nessa nova ordem internacional.  A título de exemplo, lembremos que a política externa chinesa de engajamento em parcerias estratégicas, a partir de 2013, principalmente (sob o governo de Xi Jinping), buscava um alinhamento político que viabilizasse ganhos econômicos mútuos e arrefecimento de conflitos, priorizando o desenvolvimento econômico. Porém, segundo o mencionado artigo sobre a Rota da Seda na Ásia Central, a Rota da Seda Marítima e o corredor Bangladesh-China-Mianmar, qualquer oposição ao crescimento chinês implica isolamento e sanções. 

O mesmo procedimento restritivo “imperialista” ianque, em tese. Mas comunista. Curioso, não?

A ideia de um “novo imperialismo” é reforçada nos intercâmbios promovidos por partidos de esquerda, através de suas fundações, com o Partido Comunista chinês, através de agentes enviados a debates e seminários. Em 2015, no 6º Seminário Teórico Partido dos Trabalhadores e Partido Comunista, Iole Ilíada, à época vice-presidenta (sic) da fundação Perseu Abramo, afirmou:

“Creio que não é nenhum exagero dizer que a Sexta Edição do Seminário Teórico Partido dos Trabalhadores – Partido Comunista da China foi realmente muito bem sucedida. Eu tive o privilégio de participar, na verdade, das seis edições. Isso me permite analisar a sequência desses eventos como um processo, um processo progressivo, em que cada vez mais se ampliou, tanto conhecimento mútuo, dos dois países, como a confiança. E eu ressalto isso porque, como ficou claro hoje, isso nos permite cada vez realizar edições do seminário, em que as análises são mais profundas, em que os dois partidos não se furtam a falar também das suas contradições, dos seus erros e dos seus desafios… Não tem problema em apontar suas divergências, mas sobretudo sempre saem, destes eventos, convencidos da importância dessa colaboração, tanto no âmbito dos nossos partidos, que são importantes partidos de esquerda no mundo, como no âmbito dos nossos países. Afinal de contas, como ficou claro aqui no debate sobre os BRICS, Brasil e China têm um papel a jogar fundamental na construção de uma Nova Ordem Internacional…”

Documentos como a Declaração Conjunta para o Estabelecimento de uma Nova Ordem Internacional, de 1997, salientam China e Rússia comprometendo-se a que suas relações sejam obrigatoriamente calcadas em cooperação, respeito à soberania, aos diferentes regimes políticos e um protagonismo das potências emergentes. O BRICS foi formado a partir da confluência de visões de tais países sobre a ordem internacional, considerando que as tendências para a futura economia global consistem na formação de megablocos econômicos de integração intercontinental. Tais pressupostos culminaram na formação do New Development Bank (NDB), popularmente conhecido como Banco do BRICS. A crise financeira global de 2008-2009 abriu a oportunidade para que demandas à construção de uma nova ordem internacional ganhassem ouvidos, apesar deste tema estar incluído, oficialmente, na parceria estratégica sino-russa e, de maneira talvez mais contundente, no histórico das demandas postas por Brasil e Índia. 

Há um porém…

As parcerias estabelecidas entre os países do BRICS continuam dependentes das visões de política externa dos seus respectivos governos, as quais sofreram mudanças recentes, no caso brasileiro. O estabelecimento do governo de Michel Temer provocou desconfiança nos governos dos demais países do BRICS, visto que o grupo não é prioridade nas diretrizes da atual política externa do governo brasileiro. Tal desconfiança foi expressa em um artigo editorial da Xinhua, agência estatal chinesa de notícias, em 2016. O documento tem participação de Zhou Zhiwei, membro da Academia Chinesa de Ciências Sociais, e o trecho que segue revela o grau das preocupações chinesas quanto à continuidade do Brasil no BRICS:

“O Brasil sempre valorizou as suas relações de cooperação com os outros países BRICS após o nascimento do bloco em 2009 (final do mandato Lula). Entretanto, os acontecimentos políticos no Brasil desde a suspensão de Rousseff do cargo estão resultando em um reajuste da sua política externa. O Ministro interino das Relações Exteriores, José Serra, delineou novas prioridades na política externa em sua primeira aparição pública, em 18 de maio. Segundo o mesmo, o Brasil deveria enfatizar relações bilaterais com a Argentina e o México, enquanto prioriza a restauração de ‘parcerias tradicionais’ com os Estados Unidos, Europa e Japão. Sobre a cooperação com os outros países BRICS, Serra afirmou que o Brasil irá aproveitar as oportunidades trazidas por esse mecanismo, com vistas a melhorar a cooperação em investimentos e comércio entre os membros. Uma diferença sutil foi notada dos termos frequentemente utilizados por Rousseff, como ‘cooperação estratégica’ e ‘prioridade diplomática’”.

Pelo que se depreende do exposto no artigo, os projetos de aprofundamento da parceria intra-BRICS dependem da participação ativa como diretriz de política externa de seus respectivos governos, como um projeto de parceria estratégica. Buscar associar-se de novo com potências como Estados Unidos e Japão acaba comprometendo a participação brasileira em projetos como o OBOR e afasta o país do centro da convergência de novos valores para uma ordem internacional de maior favorecimento aos emergentes

Entretanto, a partir de novas instituições financeiras criadas no BRICS, as mesmas podem contribuir ativamente para a expansão do projeto

Afinal de contas, os objetivos chineses na articulação entre os dois projetos, um de caráter majoritariamente econômico (OBOR), e o outro majoritariamente político (BRICS), indica uma iniciativa chinesa de projeção coordenada, do seu próprio território a outros, em forma de raios de ação e alcance. Tais elementos conjugados cada um com seus objetivos, porém concomitantemente coordenados, possuem capacidade de projetar a China como líder emergente, a partir da expansão de sua acumulação material em associação com parceiros regionais. Tal conjuntura se torna possível a partir da sua ação intensiva para dominar o ciclo tecnológico atual, em um investimento massivo no progresso técnico que permite e projeta os objetivos chineses de cooperação para o desenvolvimento.  

Assim, a partir de uma visão econômica e geopolítica compartilhada, Rússia, Índia e China pretendem aumentar a sua influência sobre o continente eurasiático expandido com o maior projeto de infraestrutura e integração econômica da atualidade, que permitirá rápidas trocas comerciais entre a Europa ocidental e o Extremo Oriente; o que, além de beneficiá-los mutuamente, promove a cooperação entre vastas regiões da União Econômica Eurasiática, a União Europeia, a China e o Sul-Sudeste Asiático, com grandes potenciais de promoção do desenvolvimento a partir da intensificação do comércio entre os dois extremos geográficos e a Ásia Central. Da mesma forma, a América do Sul se insere no OBOR a partir de uma nova conexão bioceânica, em uma inédita ligação do Brasil com a costa do Pacífico, o que permitirá a intensificação das trocas comerciais e uma aproximação com a China, grande parceiro comercial da região. 

Enquanto uma visão política, neste caso, na conjuntura de transição para uma nova ordem internacional multipolar, o BRICS representa uma das plataformas de expansão dos valores compartilhados pelas potências emergentes, enquanto a plataforma OBOR promove compartilhamento de projetos de expansão econômica. 

China, Rússia e Índia pretendem aumentar seu protagonismo (leia-se influência) na política internacional, tanto no continente asiático, como atraindo parceiros globais; tanto dinamizando e aproximando blocos econômicos expandidos, quanto via confluência de interesses entre as principais potências emergentes na elaboração de projetos em comum. 

E os chineses, claro… Sempre zelosos pela primazia de suas ambições nos projetos. 

CAPÍTULO V – LUTANDO PELO MEU IMPERIALISMO E CONTRA O DOS OUTROS 

“Vamos precisar de todo mundo

Um mais um é sempre mais que dois…”

(Beto Guedes – O Sal da Terra)

O NEGÓCIO É MONTAR O BONDE CHINÊS…

Ficou límpido como água do nascedouro o objetivo geopolítico do OBOR/BRICS: estruturar-se via parcerias estratégicas dirigidas pelos países emergentes que almejam protagonismo (China, Rússia e Índia). A China é a maior beneficiária do projeto por capitanear a nova Rota da Seda e ter os meios de desenvolver infraestrutura nos países-alvo, como já se explicou em artigo da Revista Esmeril:

“A China tem um mercado estruturado, com empresas estatais coordenadoras de planejamentos estratégicos em infraestrutura. Através das subsidiárias criadas a partir das estatais, forma-se um complexo empresarial e de mercado, provedor de material necessário a seus projetos. Os preços são controlados dessa forma, garantindo um atrativo a potenciais clientes. 

Por outra via, a China faz oferta de crédito aos países clientes, infiltrando-se em suas economias através da dependência creditícia, em aquisições nas privatizações, ou em parcerias, sejam estas público-privadas, em regiões menores, ou em acordos com países parceiros estratégicos, como o BRICS, por exemplo. Como o governo de Pequim tem uma estrutura de mercado, oferecida através de suas subsidiárias, é naturalmente compreensível a China Railway Construction Corporation, inclusive, comprar companhias brasileiras.

A maldade está em que, nas negociações dos estados com os chineses, não é uma empresa a comprar setores energéticos brasileiros. É o próprio governo chinês, travestido de um enorme dragão empresarial”. 

Fica no ar uma pergunta: se ocorrer uma mudança de governo, como ficam as ambições chinesas naquele país? Os investimentos são muito altos, e uma alternância de poder não pode parar um projeto de tamanha magnitude, ou travar bilhões de dólares em desenvolvimento, sob os ventos de algum presidente antipático aos projetos. 

A resposta? Se o problema é político, resolve-se com a política. Por isso, junto com as parcerias econômicas, o Partido Comunista Chinês constrói e reforça alianças com os partidos de esquerda e partidos interessados no território. Na prática, há um exército aliado dentro do próprio país-alvo. Camaradas sempre ajudarão camaradas. E qual é o parceiro comunista, ou simpático à causa, que não ajudará o colega a criar um imperialismo para chamar de seu?

O agente político não necessariamente é um parlamentar, mas aquele que luta diligentemente para cumprir a agenda política. E é aqui que entram… os Partidos políticos, as Fundações e organismos afins. 

Um ano após a implementação do BRICS, em 2010, O Partido Comunista da China (PCCH) e o Partido Democrático Trabalhista (PDT) assinaram convênio para promover intercâmbio cultural entre os dois países. O vice-reitor da Escola Central do PCCH, Shi Taifeng, e comitiva, composta por professores, foram recepcionados pelo deputado Dagomar Carneiro (PDT), no Plenário Deputado Paulo Stuart Wright, no Palácio Barriga Verde, com o comparecimento de militantes e várias autoridades do partido. Segundo Dagomar Carneiro, o intercâmbio entre a Escola de Formação Política do Governo Chinês e a Fundação Leonel Brizola prevê a renovação de lideranças e a ampliação de conhecimentos. “A partir de agora vamos traçar os programas de seminários, convenções, congressos, etc”.

No mesmo ano, seis dirigentes do Partido Comunista Chinês (PCCh) iniciaram, em 14 de junho, uma intensa agenda de atividades pelo Brasil. Chefiada por Sun Gan, secretário-executivo do Conselho de Trabalho dos Órgãos subordinados diretamente ao Comitê Central do Partido Comunista, a delegação chinesa saudou o PCdoB como “partido amigo” e manifestou interesse em “reforçar os laços e os investimentos” entre as duas legendas.

Segundo o dirigente chinês, o PCCh compartilha os princípios resguardados pelo PCdoB, como a combinação de firmeza nos princípios revolucionários com flexibilidade no modo de perseguir os objetivos táticos e estratégicos, além do pressuposto de que não há modelo único de socialismo. 

Renato Rabelo, presidente nacional do PCdoB à época, afirmou: “O PCCh se mostrou especialmente interessado em temas como o formato de uma disputa eleitoral no Brasil, o processo de escolha dos candidatos, as chances de vitória da pré-candidata Dilma Rousseff e as garantias de que os êxitos do governo Lula terão continuidade”.

Rabelo enumerou ao menos quatro trunfos de Dilma na corrida presidencial:

  • Capacidade política de Dilma, que representa como poucos o sucesso do governo Lula;
  • O prestígio de Lula, cuja popularidade mantém nível recorde após sete anos e meio como presidente;
  • Ampla aliança em torno da pré-candidatura, que inclui PT, PMDB , PCdoB, PSB, PDT, entre outros partidos;
  • O respaldo popular de Dilma que conta com o apoio das principais lideranças sociais, estudantis e sindicais do Brasil.

Havia reuniões agendadas com o líder do PMDB na Câmara Federal à época, deputado Luis Henrique Eduardo Alves, e os presidentes do Senado, José Sarney (PMDB) e do PT, José Eduardo Dutra. Os chineses tinham em sua agenda também a participação de uma apresentação do Ipea sobre o Estado Brasileiro, suas instituições e o serviço público.

No dia 16 de junho, cumprindo a agenda, houve o encontro da delegação chinesa com as direções do PT e PMDB. Da parte do PT, foram recebidos em Brasília por Valter Pomar, naquele ano secretário-executivo do Fórum de São Paulo e membro da direção nacional petista. Logo depois, foram recebidos pelo deputado federal Tadeu Filipelli, vice-líder do PMDB e membro da direção nacional peemedebista.

Na reunião com José Sarney, presidente do Senado, Sun Gam, secretário-executivo do Conselho dos Órgãos Subordinados ao Comitê Central do Partido Comunista Chinês, ficou muito satisfeito em saber que praticamente todos os partidos brasileiros querem ter uma relação próxima com o PCCh. Sun Gam disse também que José Sarney era considerado em seu país “um amigo da China”.

Por isso que eu adoro pluralismo político…à brasileira. 

Em 2011, uma delegação de partidos de esquerda do Brasil percorreu a China em missão de amizade, estudos e intercâmbio, a convite do Departamento Internacional do Partido Comunista da China. A delegação brasileira foi composta por dirigentes e parlamentares do PCdoB, PT, PSB e PDT. Em todas as conferências e conversas com os dirigentes chineses se ressaltou a importância da China e do Brasil no mundo atual, em transição, e a necessidade de intensificar as relações de amizade, intercâmbio e cooperação entre os povos e entre os partidos da China e do Brasil. 

Segundo Ricardo Alemão Abreu, secretário de Relações Internacionais do PCdoB, “após duas semanas estudando e conhecendo de perto a experiência socialista chinesa, a delegação brasileira chegou, informalmente, a algumas conclusões”. Primeiro, “a consistência e as enormes perspectivas do desenvolvimento chinês, e seu grande e crescente impacto na situação internacional”. Segundo, a necessária intensificação da cooperação em todos os níveis (econômico, científico-tecnológico, político, social e cultural) entre Brasil e China. E terceiro, a enorme potencialidade de um projeto nacional brasileiro de orientação socialista”.

No mesmo ano, foi a vez de o PT continuar seu trabalho de diálogo com o PCCh, iniciado em 2001. Os frutos desse intercâmbio geraram cinco encontros entre delegações, e quatro seminários. Qual o saldo? Paulo Frateschi responde:

“Além de termos realizados (sic) uma série de visitas, encontros com membros importantes do Partido Comunista Chinês, do seu comitê central, além de termos tido a oportunidade de conhecer mais a fundo uma escola de formação deles, também conhecemos um complexo de produção siderúrgica…”

“…Fica muito evidente que Brasil e China, como Estados, estão construindo uma parceria estratégica. Seja no âmbito dos BRICS seja na relação bilateral, com discussão sobre diversos temas. Isso se evidencia no tratamento dado à delegação do PT. Nós fomos tratados quase como uma delegação de Estado, tamanha a importância que eles dão ao nosso país e tamanha a visão que eles têm de que o Brasil é cada vez mais sujeito político internacional fundamental, e que se eles querem ter uma boa relação com a América Latina, eles precisam de fato aprofundar esses laços com o Brasil”. 

“…E também firmamos um compromisso de aprofundar essa relação em quatro aspectos centrais: um deles é na formação de quadros – trocar experiências e delegações de quadros políticos. Aprofundar a relação entre governos locais e parlamentares. Aprofundar as relações – um aspecto interessante – entre os movimentos sociais, com destaque para mulheres, juventude, e movimento sindical. (…) E finalmente firmamos um compromisso de, por ocasião da próxima cúpula do BRICS, realizar também uma reunião dos partidos dos respectivos países que estão à frente desses governos”. 

Em 2015, a Juventude Socialista Brasileira (JSB), do PSB, participou de um encontro com o Partido Comunista Chinês. O intercâmbio buscou estreitar ainda mais as relações entre a China e os partidos socialistas e comunistas do Brasil. Participaram do encontro também outras juventudes partidárias do Brasil (UJS, JS PDT e JPT). 

Guarde, leitor: Juventudes partidárias. Entre elas, a UJS (União da Juventude Socialista).

Na pauta das reuniões estavam, entre outros temas, o modelo de governabilidade chinês, a relação diplomática da China com países da América Latina e a abertura e reforma do país asiático. As atividades ocorreram em diferentes localidades. A visita dos brasileiros começou em Guangzhou, cidade piloto da abertura econômica da China. 

“É papel da nossa juventude protagonizar e debater os rumos da política nacional e mundial. Não vivemos isolados. Precisamos, cada vez mais, estreitar as relações com os países identificados historicamente com a luta de classes e com o socialismo”, afirmou o chefe da delegação socialista na China, Tony Sechi.

Em 2017, foi a vez de o PMDB visitar os chineses. Um grupo de 7 deputados peemedebistas embarcou em março à China a convite do Partido Comunista da China. O líder do partido na Câmara, Baleia Rossi (SP), chefiou a delegação brasileira. A previsão de estada foi de nove dias. Segundo Rossi, o convite foi feito ao PMDB, não aos deputados. O objetivo é impulsionar o intercâmbio na área de tecnologia e promover a aproximação dos partidos, disse o congressista. A viagem foi integralmente custeada pelos anfitriões, autores do convite.

Baleia Rossi protagoniza um dossiê publicado pela Revista Esmeril.

Em julho de 2017, ocorreu um evento no mínimo curioso. PDT e PCCh promoveram, no Rio de Janeiro, uma reunião para debater a crise econômica e política do Brasil, a importância da candidatura de Ciro Gomes em 2018, além da integração das instituições, com foco no desenvolvimento social. O discurso polarizante contra os Estados Unidos era a tônica para Manoel Dias, secretário-geral do PDT. “O nosso país tem uma posição estratégica na América Latina. Devemos buscar aliados, como a China, que façam a contraposição aos Estados Unidos e executem a necessária posição independente ao governo Trump”, acrescentou, ao defender o compromisso com uma nação justa, democrática e socialista.

O  representante do PCCh, Du Qinglin, relembrou o legado de Leonel Brizola, que, para ele, “sempre foi um amigo do povo chinês”. “Os partidos têm semelhanças nas ideologias. Com base nos princípios de independência, estamos totalmente dispostos a fortalecer o intercâmbio, o conhecimento e a confiança”, declarou.

Esse debate do PCCh sobre a candidatura de um presidente da república brasileiro lembrou-me o artigo 17 da Constituição Federal:

“Art. 17. É livre a criação, fusão, incorporação e extinção de partidos políticos, resguardados a soberania nacional, o regime democrático, o pluripartidarismo, os direitos fundamentais da pessoa humana e observados os seguintes preceitos:

        I –  caráter nacional;

       II – proibição de recebimento de recursos financeiros de entidade ou governo estrangeiros ou de subordinação a estes;”

Mas parece que o TSE decidiu…Usar óculos com piche nas lentes pra ver melhor.

Em 2018, representantes da Fundação Mauricio Grabois, ligada ao PCdoB, e da Fundação Perseu Abramo, ligada ao PT, reuniram-se para instalar o grupo de cooperação sobre a China e sua Nova Rota da Seda (One Belt One Road Initiative).

Segundo Aloísio Barroso, pesquisador da Grabois, “a reunião já vinha sendo entabulada, por meio de contatos da Perseu Abramo conosco e algum interesse da embaixada chinesa no sentido de acompanhar este processo vinculado aos partidos das fundações”, contou. O objetivo era, além da instalação, discutir um calendário e operacionalidade do grupo, a fim de estabelecer um processo de estudos e pesquisas sobre a realidade chinesa. 

O professor Diego Pautasso, de Relações Internacionais, observa que o grupo pode produzir estudos, fazer seminários, “realizar articulação entre acadêmicos progressistas e partidos políticos de esquerda e também uma concertação com acadêmicos chineses e embaixadas chinesas”.

O economista da UFPA, Cláudio Putty, considera que os dois partidos, PT e PCdoB, colocam-se como protagonistas de preocupações acerca da geopolítica mundial. “Com a ausência de um governo, propriamente dito, no país, os dois partidos assumem tarefas de pensamento estratégico”, acredita o paraense.

Em 2019, Manoel Dias, secretário-geral da Fundação Leonel Brizola-Alberto Pasqualini (FLP-AP), reuniu-se com o diplomata chinês Wang Jie e com o Conselheiro Político da Embaixada China, Jia Chen, para firmarem compromisso de cooperação entre os dois partidos. O encontro foi na sede nacional do PDT, em Brasília. 

A FLB e a Escola do Comitê Central do Partido Comunista Chinês planejam desenvolver pesquisas nas áreas da economia e educação, além de trocas de informações e experiências na formação política de ambos os países.

Em novembro do mesmo ano, a fundação participou de um Seminário na China. Arison Fernandes, diretor de formação política da seção pernambucana da Fundação, analisa a importância da visita, endossando a ambição chinesa: “Somente um país industrializado, com soberania forte e que não se curva aos interesses do imperialismo norte americano pode se tornar desenvolvido”.

A INICIATIVA VERMELHA BRASILEIRA: AS FUNDAÇÕES PROGRESSISTAS.

Em 2019, primeiro ano do mandato Bolsonaro, Fundações instituídas por partidos de esquerda formam uma frente política em oposição ao governo atual. Constituíram o Observatório da Democracia, que se traduz em uma iniciativa oposicionista com ampla mobilização partidária advinda das fundações integrantes. No lançamento, ocorrido a 31 de janeiro no Plenário 3 do Senado, em Brasília, a tropa das fundações se apresentou a público, através dos discursos de seus representantes. 

A fundação Lauro Campos e Marielle Franco, instituída pelo PSOL, trouxe um discurso voltado à ascensão do poderio chinês, a crise econômica, e impactos da Revolução 4.0.

Já a fundação Leonel Brizola-Alberto Pasqualini, do PDT, faz uma análise sobre a crise que vive o Brasil, a corrupção, e um retrato da elite brasileira, segundo o pensamento progressista. 

A Fundação Mangabeira, ligada ao PSB, mencionou a disputa pelo petróleo e as  contradições do atual governo a serem consideradas na luta pela democracia. 

A Fundação Maurício Grabois, ligada ao PCdoB, apresentou o objetivo das fundações ao construir o Observatório da Democracia. “Buscamos uma grande convergência das forças progressistas brasileiras neste momento”

Finalmente, o representante da Fundação Perseu Abramo afirmou que existe um grande esforço pelo controle dos recursos estratégicos dos países em desenvolvimento, como minerais estratégicos, não somente quanto ao petróleo.

Em todas as declarações, um discurso de oposição ao governo vigente claro e forte.

  Em 2020, nova reunião do Observatório. Novos atores se reúnem à tropa. As fundações preparam relatórios mensais, para registro e legado. A Fundação Claudio Campos, do Pátria Livre, sublinhou o tema meio ambiente

O discurso da Fundação Lauro Campos e Marielle Franco ressaltou que os partidos de esquerda possuem o bolsonarismo como um inimigo comum, além do tema meio ambiente. Perceba que, ao falar de combate ao Bolsonarismo, a fundação estendeu para além do Presidente da República a luta proposta, pois o bolsonarismo enquadraria também os apoiadores do militar-presidente.

É notável que os partidos de esquerda construíram, durante os mandatos progressistas, estreita e crescente relação com a China. Mas, com o impeachment da Presidente Dilma, o mandato tampão de Temer e a eleição de Bolsonaro, os planos de continuidade de suas pautas tiveram de ser reajustados. Com uma estrutura partidária pujante, literalmente se preparam para uma guerra longa. O objetivo é apenas um: derrubar o governo atual para dar continuidade ao projeto político-econômico chinês.

As fundações fizeram as interligações mais profundas. Vejamos agora o trabalho na superfície. 

CAPÍTULO VI – EU SOU DE TODO MUNDO E TODO MUNDO É MEU TAMBÉM.

A CONFEDERAÇÃO NORDESTINA: OS REBELDES-CAMARÃO

A Revista Esmeril fez um breve resumo sobre o Consórcio Nordeste, do qual extraímos uma passagem:

“Após várias tratativas desde o início do ano, em agosto de 2019, foi criado o Consórcio Nordeste. Nove governadores, seis deles de partidos de esquerda, tinham como objetivo obter a relevância política necessária para digladiar com o governo, por um lado; e engrossar o rugido para exigir demandas ao governo federal.

No papel, o plano é nobre: uma parceria entre os governos estaduais para realizar editais de compra em bloco de produtos e serviços, sobretudo serviços relacionados à saúde, educação e segurança pública, amenizando a concorrência e barateando o custo. Não propõe a independência, ou confederação, ou algo similar. 

Mas a prática é diferente. O grupo funciona como uma ponta de lança contra o governo federal. As pautas partidárias da esquerda são exigidas em bloco, com maior força, aumentando a pressão. Ademais, tem pujança vertical contra municípios que sejam de oposição à esquerda. Com a redistribuição obrigatória do orçamento direto aos municípios, um bloco regional coeso da esquerda tem um maior controle orçamentário local, podendo fazer o realocamento através de acordos conjuntos. As palavras de ordem dos membros do consórcio remetem à velha conhecida “luta de classes”. 

Com o grupo coeso, tornou-se cada vez mais fácil trazer o melhor patrono para se ter força: a China, articulada com o PT, com quem o partido comunista chinês tem aliança histórica”. 

Assim como a Bahia, todos os estados do Consórcio Nordeste têm estreitado relações com a China visando a prospecção de novos empreendimentos, com visitas das comitivas chinesas ao Brasil e idas de governadores a Ásia. Tudo conforme o modelo aplicado à Etiópia. Ou Sri Lanka, que contraiu uma dívida de mais de oito bilhões para a construção do porto de Hambantota, concedendo em troca o terminal à China por 99 anos. O governo cingalês voltou a anunciar contratos e a solicitar empréstimos para o desenvolvimento local, incluindo a construção de uma rodovia que liga o centro da ilha do Oceano Índico a um porto marítimo construído em sua região sul

Mas o Consórcio do Nordeste não é composto por países, e sim por Estados. Politicamente, contudo, agem como confederados. Unidos pela China, para a China”.

Em 2019, as empresas de tecnologia da China, inclusive aquelas banidas pelo governo americano, aumentam seus laços e vendas com os governos do Nordeste. Huawei, Dahua e Hikvision avançam tratativas por lá. 

Conforme reportagem da Gauchazh, o intercâmbio entre a China e os nove estados nordestinos nunca foi tão intenso. Em 2019 apenas, quatro governadores e dois vice-governadores da região estiveram no país asiático. A peregrinação de secretários foi ainda maior. A China também mandou inúmeras comitivas para os Estados. 

O grupo Consórcio Nordeste, formado no início do ano por governos estaduais para promover parcerias na região, tem em seus projetos o programa Nordeste Conectado, uma PPP (parceria público-privada) para instalar milhares de quilômetros de fibra ótica e conectar os estados. 

“A Huawei e a ZTE estudam as etapas de tele-educação, tele-segurança e tele-saúde, e estão muito interessadas no Nordeste Conectado”, disse o governador do Piauí, Wellington Dias (PT). Os estados da região também querem se unir para comprar sistemas de monitoramento para segurança pública, aproveitando a experiência do país na área. Câmeras de companhias como Dahua Technology e Hikvision são usadas pelo governo chinês para monitorar cidadãos da minoria muçulmana ulgure na província rebelde de Xinjian. 

Conforme as palavras da cônsul da China no Recife, Yan Yuqing, “as empresas chinesas de telecomunicações estão participando ativamente da cooperação de cidades inteligentes e seguras, governança eletrônica e comércio eletrônico no Nordeste”. 

Ainda, ela afirma que “estamos dispostos a contribuir para o desenvolvimento da tecnologia de informação no Brasil sob o Belt and Road Initiative (OBOR)”. 

Para os governadores do Nordeste, os investimentos chineses são vistos como salvação, em meio à penúria orçamentária da maioria dos estados e a economia anêmica no país. 

O único país que investe maciçamente é a China, que ainda oferece empréstimos do banco de desenvolvimento com juros subsidiados”, disse o vice-governador do Maranhão, Carlos Brandão (PRB), que esteve seis vezes na China desde 2016.

MAS, NO MEIO DO CAMINHO, PODE ROUBAR UM POUQUINHO, NÃO PODE?

Em junho de 2020, o Ministério Público Federal instaurou inquérito civil para investigar eventuais atos de improbidade administrativa no contrato firmado pelo Consórcio Nordeste com a empresa Hempcare, alvo da Operação Ragnarock, realizada pela Polícia Civil da Bahia. O processo que tramitava na Justiça baiana foi encaminhado ao Superior Tribunal de Justiça (STJ), responsável por processar e julgar governadores. 

Citado pela empresária Cristiana Prestes, dona da Hempcare, como responsável pela negociação de 300 respiradores, Bruno Dauster foi exonerado da Casa Civil do governo da Bahia. O contrato previa a aquisição de 300 respiradores, ao custo de R$ 48,7 milhões. Os equipamentos nunca chegaram. 

A Polícia Civil da Bahia suspeita que as empresas HempShare e Biogeoenergy usariam os R$ 48,7 milhões pagos pelo Consórcio Nordeste na produção de respiradores não autorizados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Irregulares, portanto.

UMA RAMPEIRA DORME COM TODOS

Em 28 de maio de 2019, o periódico Diário do Centro do Mundo veicula uma notícia. O governador do Maranhão, Flávio Dino, do PCdoB, membro do Consórcio Nordeste, encontrara, no dia anterior, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Os dois falaram sobre a democracia no Brasil – Dino estaria preocupado com o retrocesso institucional ensaiado por Jair Bolsonaro. 

Mas o consórcio nordeste funcionar como uma espécie de confederação, fazendo oposição clara ao governo vigente, não parece ser um retrocesso institucional, não é?

Alguns dias depois, em 04 de junho, Dino se encontrou com o maior parça brasileiro de FHC: Lula. De acordo com o governador maranhense, Lula pediu para fortalecer a luta pela soberania do Brasil, que considerava ameaçada em temas como energia, ciência e tecnologia. Para Dino, Lula “estimulou a continuidade desses movimentos que temos feito em defesa da democracia e dos direitos dos mais pobres e sobretudo acentuando a importância da luta pela soberania do Brasil”. Flávio ainda ressaltou que, assim como Lula, o PCdoB tem “uma visão crítica do que vem acontecendo com o Brasil e evidentemente essa convergência se materializou nesse diálogo”.

Em 27 de junho, Flávio Dino se reuniu com o seu adversário histórico, o ex-presidente José Sarney (MDB), o amigo da China, para discutir o suposto “perigo” que a democracia brasileira corre em face às crises enfrentadas pelo atual quadro nacional. O encontro ocorreu em Brasília e foi divulgado pelas redes sociais do governador. Com o ‘centrão’ ao seu lado no estado (o DEM, que compõe grande parte da sua base), o governador estaria transformando opositores em aliados para construir um campo ainda mais amplo de apoio, que abrange de petistas a tucanos. O MDB de José Sarney seria o próximo a entrar neste plano. 

Toda a campanha de Dino para chegar ao governo do Maranhão teve como principal premissa a queda da família Sarney, que, à época, encontrava-se no comando do Estado havia 50 anos. Por isso, o encontro com o ex-presidente surpreendeu, já que foi interpretado como uma possível “reconciliação” entre os dois opositores históricos. Ao mesmo tempo que vinha ampliando sua base, o governador do Maranhão intensificava a oposição a Jair Bolsonaro. A postura contrária às táticas do Governo Federal era justamente onde as perspectivas de Flávio Dino e José Sarney se encontravam: em entrevista, o emedebista criticou a governabilidade de Bolsonaro, chegando a afirmar que o presidente estava “no meio de um furacão” e “colocando todas as cartas na ameaça do caos”. 

Além dos líderes citados, Dino já contava com a proximidade de outras personalidades da esquerda, como Fernando Haddad (PT), Guilherme Boulos e Sonia Guajajaras (PSOL). Ciro Gomes, à época, permanecia uma incógnita, mas o partido não deixava de compor a base governista no Maranhão.

Qual o teor da conversa de Dino com Sarney? Sigiloso. Mas informações sobre os personagens podem nos dar uma pista. 

Dino é a maior liderança nacional das esquerdas, após Lula. Por isso, tem procurado o espaço franqueado pelo desmantelamento do PT e dos partidos do mesmo universo.

A vitória de Bolsonaro em 2018 trouxe à tona uma nova situação política no Brasil. Como uma onda, o “Bolsonarismo” quebrou as expectativas políticas dos mais conhecidos partidos. É nesse ambiente de crise institucional que Dino se movimenta. Ele sabe que na conjuntura atual terá que formar uma frente que faça contraponto ao governo. Os três partidos cujas lideranças Dino procurou para discutir o Brasil são vozes que decidem e são capazes de passar ao Brasil uma visão abrandada da esquerda, longe do que a direita conseguiu enraizar na mente do público, que carimbou a esquerda como o mal maior, graças aos governos do PT. Desmanchar isso é o maior desafio de uma eventual candidatura de Dino. 

O analista político Valerio Arcay traça um rumo previsível para o que chama de “tática quietista”: consiste em disputar o espaço de oposição e aguardar as próximas eleições. Quietismo deriva de ficar quieto, na moita. “A oposição deve aproveitar as posições institucionais que ocupa, nos governos estaduais, Prefeituras e nas Câmaras, Assembleias e no Congresso para a melhor redução de danos possível. A unidade de ação com os partidos do Centrão, sob o mínimo denominador comum, deve ser priorizada! A esquerda não deve desafiar, frontalmente, o governo, porque pode provocar um endurecimento das tendências bonapartistas”, ensinou. 

E a tática quietista ganhou força. 

“EU NO MEU CANTINHO, BOTO PRA QUEBRAR…” 

Em 02 de setembro, foi lançado o movimento “Direitos Já – Fórum Pela Democracia”, na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), ampliando a frente de oposição ao presidente Jair Bolsonaro. 

O sociólogo Fernando Guimarães, coordenador nacional do movimento, contou que o grupo começou a ser articulado após as eleições de 2018. “Percebíamos que havia um sentimento de aflição com a agenda anti civilizatória do presidente eleito”, disse

Um dos articulistas do movimento, o constitucionalista Pedro Serrano, explicou que a unidade do grupo se dá justamente na oposição ao governo federal. “Atravessamos um processo de desconstituinte. A democracia está ameaçada e não pode haver divergência política, temos que estar juntos contra a barbárie que nos assola”, argumentou. 

O sociólogo Noam Chomsky também compareceu ao teatro da PUC e participou do evento, ressaltando a importância da união de diferentes campos para defender o Estado de Direito. “São muitos os motivos para que a gente se una para preservar a democracia com muito empenho e dedicação”, resumiu. 

O governador do Maranhão, Flávio Dino, criticado recentemente pelo capitão reformado, disse sentir orgulho de fazer oposição a Bolsonaro. “Com muita honra, sou aquele que Bolsonaro considera o pior governador do Brasil”, ironizou. “Devemos fazer a defesa da soberania nacional, contra aqueles que se dizem patriotas, mas que entregam o país aos interesses internacionais”, completou. 

Claro que entregar o Nordeste pra China numa promoção de “camarada pra camarada” não conta. 

Também participaram representantes do Instituto Fernando Henrique Cardoso, da União Nacional dos Estudantes (UNE), da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e centrais sindicais como Força Sindical, CUT e UGT. 

Pergunta pra você, caro leitor.

Quantas figurinhas repetidas do Fernando Henrique Cardoso você tem?

Dependendo de quantas você e eu tivermos, a gente pode jogar bafo, combinado? 

COMO TODO CASAMENTO, TEM “DE ÉRRES” E CONCILIAÇÕES

Em 20 de janeiro de 2020, o governador do Maranhão Flávio Dino (PCdoB), participou da atividade de campanha do ex-presidente Lula Livre, em São Paulo. A atividade reuniu representantes de organizações e movimentos que fazem parte do Comitê Nacional Lula Livre, entre eles integrantes do Partido da Causa Operária (PCO), Partido Comunista do Brasil (PCdoB), Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) e Partido dos Trabalhadores (PT).

O governador aproveitou o encontro para defender a ideia de uma frente ampla para enfrentar o governo Bolsonaro.

 A proposta da ampliação da frente, defendida por ele, enfrentou forte resistência no PT. Lula disse, em entrevista, que Flávio Dino não tem chance na eleição de 2022. A declaração não agradou ao PCdoB, já que Dino é um dos nomes que despontam no campo progressista e tem a simpatia dos comunistas para disputar o Planalto em 2022. 

Após o encontro no PT, o governador do Maranhão se reuniu com o ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso, do PSDB (de novo, cacete!) e o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite.

Em fevereiro, Flávio Dino, defendeu um diálogo com o PSDB e o apresentador Luciano Huck para que seja construída uma frente ampla de oposição ao governo.

Alguns trechos da entrevista concedida ao Congresso em foco merecem destaque:

O intuito dessas visitas não tem nada a ver com as eleições, nem agora nem no futuro, mas sim no enfrentamento dos temas da conjuntura, situações que estão postas e que dizem respeito a retrocessos em políticas culturais e sociais, a temática do desemprego muito agudo. Essa tem sido a agenda desses contatos, essas conversas, palestras, reuniões, etc. Com o ex-presidente Fernando Henrique em particular; eu fiz um debate com o governador Eduardo Leite, que é do PSDB, fizemos um debate lá no Instituto Fernando Henrique Cardoso, iFHC, ficou registrado em vídeo, e nós conversamos sobre todos os temas da conjuntura brasileira, econômica, privatizações, etc. O que eu verifico propriamente desses setores ditos ao centro é que nós temos muitas diferenças, muitas divergências, mas ao mesmo tempo há possibilidade de atuar conjuntamente, construir alianças temporárias, pontuais, em um tema ou outro. É nosso dever fazer, buscar convergências possível para que a gente posso (sic) ajudar o país, esse foi o sentido da conversa com eles e outros políticos importantes desse setor que vamos chamar de centro político do Brasil”.

Engraçado ele dizer que esses encontros não tem nada a ver com as eleições, mas, quando conversou com o ex-presidente Lula…

“Eu transmiti a ele como eu via o quadro político brasileiro, a importância da liderança dele como a principal referência de nosso campo nacional popular, ou seja, a principal liderança política em atuação no país, foi, é e continuará a ser nos próximos anos. Ele é um personagem fundamental tanto nas eleições de 2020, como de 2022. Nesse caso da conversa em particular em São Paulo girou muito em torno da temática das eleições de 2020, desafio grande da gente conseguir o maior número possível de alianças, unidades, uniões dos partidos do nosso campo para poder disputar prefeituras”.

Flávio mandou a real:

”Você precisa movimentar o quadro político quando você tem dificuldades como nós estamos enfrentando, a esquerda vem de um ciclo de derrotas, você tem de criar movimentos, aquela situação do lutador de boxe que está no canto do ringue, tem que sair do canto do ringue, nunca é um bom lugar para ficar, tem que tomar a iniciativa, para você retomar a iniciativa tem que apresentar um novo programa, ideias para frente, prospectivas e não apenas retrospectivas. Tenho defendido isso, uma frente orgânica, organização nova da esquerda brasileira, mas preservando partidos”. 

O pragmatismo é claro em alguns pontos da entrevista:

“O que eu tenho dito é que essa união, esse caminho natural do PT com o PCdoB não é suficiente, não é negar a aliança com o PT, é dizer que ela é importante, mas não é suficiente para enfrentar o bolsonarismo e vencer as eleições, ou seja, tem que ampliar a partir desse núcleo PT, PCdoB e outros partidos do nosso campo político. 

Sobre Luciano Huck e outras alianças:

“Agora, conversar com ele é importante porque ele representa um segmento social, tem representatividade, está articulando em torno de si uma série de políticos, pensadores, economistas que pensam também na direção. Teremos agora em 2020 e também em 2022 muitas eleições em dois turnos, então você tem que ter diálogo com quem pensa diferente porque amanhã você enfrenta o segundo turno e não pode ficar isolado, tem que ter amplitude. Eu me reuni com ele e reunirei outras vezes seguramente”. 

SÓ FALTAVA O RODRIGUINHO BOTAFOGO…

As articulações ganham força. Uma live a 06 de junho, promovida pelo movimento “Direitos Já!”, através de Fernando Guimarães, reúne personagens de vários espectros políticos, como o Presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ). Flávio Dino e FHC já são figurinhas repetidas no pacote. E claro, nosso velho socialista, parça de bilionários cheios de segundas intenções, quer botar o bloco na rua:

“Não está na hora de escondermos o nosso sentimento democrático. A cultura democrática ainda não está enraizada. “Ele (Bolsonaro) tem uma agenda que não é democrática, e nós que somos democratas temos de nos contrapor a isso”, disse FHC. 

No bojo da raiva, a falta daquela “governabilidade” marota no atual presidente.  “Tem que governar conjuntamente, mas hoje nosso atual presidente motiva um setor e desconsidera o outro”, afirmou. “Quando deixa de ser moderador e passa a ser agressor a coisa vai mal. É o que vivemos hoje”, complementou o tucano.  

BOTINAS PRA REBELDES, CAUDILHOS E VERDADES SORRIDENTES PRA ALIADOS

O ex-presidente do STF e ex-ministro da Justiça Nelson Jobim também participou da live. Destacou o fato de policiais militares de todo o País posicionarem-se claramente a favor do governo Bolsonaro. 

O governador do Ceará, Camilo Santana, do PT, enfrentou um motim policial no começo do ano. Segundo o petista, policiais que devem trabalhar para proteger a população ameaçam governantes por questões salariais e ideológicas. “O que fizemos aqui foi um movimento de resistência. Aprovamos uma PEC que veta anistia e aumento diante de motins, o que nos ajudou a impedir movimentos semelhantes em outros Estados”. 

Nesse contexto, FHC ressaltou que é preciso incluir os militares no diálogo. “O momento exige muita responsabilidade para construirmos um caminho. Criar uma base comum por vez, depois brigarmos por questões partidárias. O que está em jogo é nossa sobrevivência como pessoas e como Nação. Precisamos criar, abrir espaços para as outras gerações”.

Maia assegurou que uma frente ampla pela democracia tem se consolidado nos últimos meses, com representantes de espectros políticos distintos aceitando debater conjuntamente. “Tenho conversado com políticos que não conversava antes. Mas são os alicerces atuais da sociedade que precisam mudar, para reduzirmos concentração de renda e desigualdade social”, afirmou.

E, em outro trecho, afirmou:

“Eu acho que há um movimento que apoia o presidente nessa linha de colocar as instituições numa posição abaixo do governo e o que nós temos feito é mostrar o contrário. Eu mesmo durante as eleições disse que tinha compromisso com a pauta econômica, mas não com o resto da pauta do governo. O resto da pauta nós estamos travando, os avanços em relação à terra indígena, a questão das armas”, destacou Rodrigo Maia. 

Num momento de descontração, Flávio Dino disse que algumas ponderações de Maia sobre suas propostas eram naturais. “Até porque, se ele concordar com tudo, terá que sair do DEM e se filiar ao PCdoB”, brincou. Maia respondeu dizendo que “na Câmara há uma aliança bem conhecida, que pode ser chamada de DEMdoB ou PCdoBdoD”.

 Todos riram muito.

ATÉ AS MÚMIAS SAÍRAM DO SARCÓFAGO…MAS SEM RETROESCAVADEIRA

No dia seguinte, Fernando Henrique (PSDB) e os ex-ministros Ciro Gomes (PDT) e Marina Silva (Rede) reforçaram a necessidade de união de lideranças políticas contra retrocessos democráticos em meio à crise política pela qual passa o país. Os três participaram de um debate mediado pela colunista do Globo, Mirian Leitão, na “Globo News”.

Para FHC, o atual governo seria um símbolo do atraso, e criticou a forma pela qual o presidente vem lidando com a crise do novo coronavírus, criando uma crise econômica e também institucional. 

FHC, que por sinal está em todas, mandou uma frase que destaco:

“O problema maior que temos no Brasil, e simbolizado pelos que estão no poder, é o atraso. Não é questão de ser de direita: eles são atrasados. Eles têm teia de aranha na cabeça, não conseguem ver a realidade, se agarram a fantasmas”. A melhor parte é agora: “inventaram agora um tal de marxismo globalista. Não sei o que é isso, e olha que eu entendo dessas coisas”.

Tenho de concordar com FHC que ele entende dessas coisas. Porra, o cara anda de mão dada com Soros e República Popular da China, mandando beijinho, no meio da rua, há um cacete de tempo! Ele tá certo: entende dessas coisas. 

Ciro Gomes também afirmou que as forças políticas, mesmo que sejam adversárias, devem se unir para combater o que enxerga ser um risco para a continuidade da democracia no país. 

“Nós vamos fazer o que for necessário. Dar as mãos a adversários políticos? Isso é nada. Ninguém do povo vai entender a superficialidade de qualquer um de nós que, por mimimi, por manha, não cumpra sua tarefa de proteger a democracia que custou vidas a vários brasileiros”, afirmou o ex-ministro. 

A ex-ministra Marina Silva também reforçou a necessidade de união de diferentes lideranças políticas. Segundo ela, os políticos terão que saber compartilhar a luta pela democracia. 

Democraticamente…

FRENTES POPULARES…DE BATALHA.

“Mas por que é que eu cheguei aonde cheguei? Porque eu tenho por detrás de mim um movimento. Eu tenho por detrás de mim uma grande parte dos ESTUDANTES, do PT, a CUT, A BASE DA IGREJA CATÓLICA…” – Lula, sobre questões políticas.

A Frente Brasil Popular é um braço político da esquerda, com ramificações em vários grupos identitários e da sociedade civil. Engloba artistas, intelectuais, religiosos, parlamentares e governantes, assim como integrantes e representantes de movimentos populares, sindicais, partidos políticos e pastorais, indígenas e quilombolas, LGBT, negros, mulheres e JUVENTUDE.

Como se vê, há grupos abarcados pela frente que também são alvo de trabalho da Open Society. Não causa estranheza ver, por exemplo, Manuela D’Ávila (PCdoB) em reunião com a Open Society em temas comuns de militância

Importa se é um bilionário capitalista malvadão que você sempre odiou e contra o qual pregou ódio intestinal? Para satisfação de interesses, claro que não. Ah, como é boa a coerência!

Na parte “Compromissos da militância”, publicada pela Frente em 2015, mencionava-se a finalidade de defender a “integração regional”. Um exemplo disso é o Consórcio Nordeste, mediante o qual governadores de esquerda concretizaram esse processo. Aí você me dirá: eles estão relacionados? O Consórcio Nordeste estava nos planos da Frente Brasil Popular? Há interligação?

Não vou bater o martelo sobre isso, caro leitor. Mas deixarei fatos para analisarmos. 

Em “Organizações participantes”, da própria página da frente popular, o grupo elenca aqueles que dela participam. Destacamos um trecho que, por estranha coincidência…

“…e ainda, parlamentares e dirigentes de diversos partidos e correntes partidárias, entre os quais o PT, o PCdoB, o PSB, PMDB, PCO, PCML, Refundação Comunista e o PDT. Também participam diversos intelectuais e jornalistas que atuam em diferentes espaços da mídia popular e que compartilham desse esforço”

Dentre os participantes, destaco alguns:

ABGLT – Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais;

Associação de Advogados da União pela Democracia (hã? Pode isso, Arnaldo?)

A Marighella 

ANPG – Associação Nacional dos Pós-Graduandos (fez uma pós, torna-se de esquerda com o canudo na mão?)

ESTOPIM (explode alguma coisa?)

– Fora do Eixo e Mídia Ninja (lembrou-se deles, leitor?)

Juventude Revolução

Levante Popular da Juventude

– UNE (União Nacional de Estudantes)

– UBES (União Brasileira de Estudantes Secundaristas)

– UJS (União da Juventude Socialista)

Percebeu entidades que lidam com jovens, leitor?

E os governadores do Consórcio Nordeste, de seus respectivos Estados, por uma mera coincidência, pertencem aos seguintes partidos:

Alagoas: Renan Calheiros Filho (PMDB)

Bahia: Rui Costa dos Santos (PT)

Ceará: Camilo Santana (PT)

Maranhão: Flávio Dino (PCdoB)

Paraíba: João Azevêdo (PSB)

Pernambuco: Paulo Henrique Saraiva Câmara (PSB)

Piauí: Wellington Dias (PT)

Rio Grande do Norte: Fátima Bezerra (PT)

Sergipe: Belivaldo Chagas Silva (PSD). Na chapa, a vice é Eliane Aquino, do PT. Ah, antes que me esqueça: a chapa de Belivaldo Chagas continha os seguintes partidos coligados: PSD, PT,PMDB,PP,DC,PHS e PCdoB

A lista de membros do Consórcio consta na própria documentação expedida por ele, como a Carta de Natal, em 16 de setembro de 2019, disponível no site do PT (outra coincidência?)

A AGENDA DA FRENTE BRASIL POPULAR? ADIVINHA. 

Em março de 2020, a Frente Brasil Popular fez um calendário de protestos contra o governo vigente. As manifestações tinham como marco o dia 08 de março, Dia Internacional da Mulher. A Secretária de Mobilização e Relação com os Movimentos Sociais, Janeslei Albuquerque, explicou que as entidades somarão forças num “grito único das ruas contra o governo Bolsonaro”. Valter Sorrentino, secretário de Relações Internacionais do PCdoB, afirmou

É uma contra revolução econômica que acompanha uma realidade mundial de avanço do conservadorismo que favorece o setor produtivo e isso impacta nos mais pobres e nas nações em desenvolvimento”.

Se é uma contrarrevolução, então combate uma… Revolução, não é? Só pra ver se eu ainda tô bom de português.

Mas o mesmo setor de relações internacionais do PCdoB, conforme lemos nos apontamentos de Ricardo Alemão Abreu sobre estudos versando a China, concluiu que havia uma necessária cooperação entre Brasil e China em todos os níveis, além de uma enorme potencialidade de um projeto nacional brasileiro de orientação socialista. 

Quem não lê as entrelinhas, até acredita no discurso revolucionário, não é, amigo?

TÁ COM MEDO, CUMPADI? VEM SEM MEDO PRA NOSSA FRENTE.

Em 07 de agosto, Brasil 247 noticia que várias centrais centrais sindicais, como CUT e CTB (estas são participantes da Frente Brasil Popular), e duas Frentes de esquerda (Frente Brasil Popular e Frente Povo Sem Medo), protestaram contra Jair Bolsonaro pela falta de rumo quanto à retomada do crescimento econômico e pela falta de coordenação no enfrentamento ao coronavírus. 

Nada de novo, ao sabermos que esse evento nacional era parte do calendário de lutas, preparado desde março. E que a Frente Brasil Popular engloba uma miríade de organizações. Mas… Quem é a tal frente “Povo sem Medo”?

Vamos ao Wikipedia?

Segundo o site, a Frente Povo Sem Medo (FPSM) é uma organização política brasileira, formada em 08 de outubro de 2015, como uma frente nacional de mobilização popular, a partir de associação entre partidos políticos de esquerda, movimentos sociais e centrais sindicais, para combater o que percebiam como uma escalada do conservadorismo e da direita política no Brasil.

Entre as organizações que compõem a FPSM, estão:

– Central Única dos Trabalhadores (CUT)

– Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB)

Bloco de Resistência Socialista (ligado à CSP-Conlutas – Central Sindical e Popular)

– Associação Nacional dos Pós-Graduandos (ANPG)

– Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST)

o Polo Comunista Luiz Carlos Prestes e militantes e entidades ligadas ao PSOL.

– União Nacional dos Estudantes (UNE)

-União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES)

– Juventude Socialismo e Liberdade (JSOL), organização de juventude de uma tendência do PSOL

– Coletivo Juntos!, organização de juventude de uma tendência do PSOL

– União da Juventude Comunista

-União da Juventude Rebelião (UJR), ligada ao Partido Comunista Revolucionário

-Juventude da Esquerda Marxista (ligada à Corrente Marxista INTERNACIONAL, tendência trotskista)

– Partido da Causa Operária. 

– Mídia Ninja

-Brigadas Populares (movimento de inspiração bolivariana)

-Igreja Povo de Deus em Movimento (IPDM)

Em suma, quando a esquerda fala em frente AMPLA, é ampla mesmo, parça. Tão ampla que se perde no horizonte. 

Uma pergunta: você percebeu, numa frente de mobilização política, vários grupos de juventude? 

Outra coisa: União Nacional dos ESTUDANTES e União Brasileira dos ESTUDANTES SECUNDARISTAS tem espectro político-ideológico?

Cara, eu gostei muito desse nome: Coletivo Juntos! 

Fui procurar sobre eles e encontrei alguma coisa…

Logo lindo, não?

Mas que raios é esse negócio de “antifascista” no logo do coletivo?

Não tenho a menor ideia. 

Ainda bem que… O PCdoB ministra curso dessa bagaça. 

Segundo a Revista Oeste, em meados de 2020, em meio às manifestações supostamente “antifascistas”, um braço político do PCdoB vem aproveitando esse clima de mobilização coletiva para promover cursos com um viés claramente ideológico e impor sua visão de mundo sobre o tema. 

O partido, por meio da União da Juventude Socialista (UJS), financia a Escola de Formação Política Castro Alves, que oferece um curso gratuito para candidatos a militante antifa. Com duração de seis dias, “entenda o fascismo para ser antifascista”, são aulas online sobre temas como “Lições de antirracismo para ser antifascista” e “Bolsonarismo e neofascismo”. Por trás do nome fantasia da escola, está o CNPJ DA UJS, UNIDADE DE FORMAÇÃO JUVENIL DO PCdoB.

Outro detalhe presente na reportagem é que o CNPJ da UJS está em nome de Carina Vitral Costa, que foi presidente da UNE entre os anos de 2015 e 2017 e filiada ao PCdoB. 

A ligação desse tipo de curso de formação com partidos políticos ratifica suspeitas de órgãos de inteligência do governo federal sobre a real motivação dos protestos antifas no País. 

Será que esse movimento antifa faz parte dessas frentes de esquerda?

Eu não tenho a menor ideia no momento. 

Pô, cara, tem jovens no negócio. Não seria legal um treco desses. 

Estudantes… Polícia… Conflitos. Lembrou-me 2013, não sei o porquê. 

Acho que tô pensando bobagem, não é?

Deixa pra lá.

CAMINHANDO E CANTANDO E….SE DESENTENDENDO? DEU PT!!!

Gazeta do Povo fez uma análise da dificuldade de a esquerda mobilizar uma frente única na rua, apesar de seus representantes partidários e institucionais estarem em uníssono, trabalhando a toque de caixa. 

Dois episódios recentes mostram a dificuldade dos partidos de esquerda. 

Em abril, PDT e PSB lançaram com outros partidos, logo após o pedido de demissão do ex-ministro Sergio Moro, o movimento Impeachment Já. O PT foi convidado a aderir ao movimento, mas se recusou afirmando que ainda não era a hora. Mas, no fim de maio, os petistas apresentaram um pedido de impeachment em separado, com apoio do PSOL e do PCdoB

No dia 5 de junho, houve desentendimento sobre manifestações. No dia anterior, diante do risco de haver novos casos de violência, partidos de oposição ao governo no Senado, incluindo o Partido dos Trabalhadores, recomendaram que as pessoas não fossem às manifestações previstas para o dia sete de junho. Mas, em nota assinada por lideranças petistas, o partido contrariou colegas de oposição e aconselhou a ida às ruas. Os protestos ocorreram sem maiores problemas. 

Na visão do cientista político Mário Sérgio Lepre, falta à esquerda alguém que personalize a oposição ao governo e unifique a oposição. “De certa forma, o lado bolsonarista é o Bolsonaro. E quem é a cara da oposição? Não tem”, diz. “Você vê uma sociedade polarizada, com um apoio [ao presidente] que não cessa e uma oposição que cresce, mas não é representada”, resume. 

Líder da oposição na Câmara, o deputado André Figueiredo (PDT-CE) acredita que não é o momento de dar um rosto às pautas da oposição. “Nós não estamos personalizando nossas pautas, estamos trabalhando com as pautas. Não temos como, evidentemente, ficar reduzindo uma pauta à figura de uma liderança carismática”, disse. “Essa é uma estratégia de soma de vários partidos sem querermos atrelar isso a uma eventual liderança única”, completou. 

Figueiredo destaca que há uma oposição organizada na Câmara e no Senado. “Nós temos tido uma posição praticamente uníssona no Parlamento e até extrapola a questão da oposição”, garante. “Nós temos trabalhado dentro dessa perspectiva de somar força, mesmo não sendo do nosso campo ideológico, mas que tenha a pauta da defesa da democracia em suas bandeiras”, afirma.

UMA MÚSICA PRA RELAXAR: “WE DON´T NEED NO EDUCATION…”

Uma pergunta pertinente pode surgir na cabeça de nós, meros mortais: que diabos fazem a União Nacional dos Estudantes e a União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UNE e UBES, respectivamente), participarem de uma ampla frente de esquerda? Para se ter uma ideia, as duas entidades estão associadas a duas frentes: Frente Brasil Popular e Frente Povo Sem Medo. Estudantes não deveriam ter, na sua formação como cidadão, o máximo de conhecimento plural, e não uma unilateralidade ideológica? Pois, sem pluralismo de conhecimento, o que se têm é apenas mais um tijolinho a reforçar o muro de uma fortaleza político partidária, tendo um exército entre crianças e adolescentes. 

Essa resposta, caro leitor, não a tenho pronta pra você. Vamos “construí-la”, já que um tal de “construtivismo” é uma modinha bem popular por estas bandas. 

Em 2017, Marianna Dias, presidente da UNE, em entrevista para a Carta Capital, ostenta um currículo político pujante: feminista e filiada ao PCdoB. Para ela, naquele ano, o foco era radicalizar a oposição ao governo Michel Temer, barrar suas reformas e lutar pelas Diretas Já. “Será uma gestão das ruas”, disse. Sua chapa: “Frente Brasil Popular: A unidade é a bandeira da esperança” arregimentou 79% dos votos e garantiu mais uma gestão ligada ao PCdoB, que desde 1990 estava à frente da entidade estudantil. 

Vejamos então, caro leitor: um partido político de esquerda está à frente de uma ENTIDADE ESTUDANTIL NACIONAL POR VINTE E SETE ANOS, segundo a informação passada pelo próprio site da UNE. 

Parece que o pluralismo de ideias mandou lembranças… Lá de Plutão. Por carta. Para os Correios entregarem. 

Ah, quase ia me esquecendo: Marianna Dias integrava a gestão anterior de Carina Vitral. Conhece, leitor?

E a prova dessa pluralidade de ideias se denota nas falas da recém-empossada presidente da entidade estudantil. Marianna Dias, acreditava que as esquerdas e o movimento estudantil organizado precisavam entrar de cabeça na disputa de consciência da sociedade, diante do avanço conservador. 

Lembrem-se do ano: 2017. O atual presidente, Jair Messias Bolsonaro, era um “player” já considerado no tabuleiro. Porém, o combate ia além: era realmente ao avanço de pautas contrárias à esquerda, independentemente de quem viesse ciscar no galinheiro. Pois o problema era o avanço conservador. 

Para a presidente, uma das prioridades para a UNE e o Movimento estudantil organizado a ser destacada era…

“Nosso maior desafio, por fim, é promover mobilizações e passeatas. Será uma gestão das ruas”. 

Na entrevista, foi levantada a ocorrência de movimentos, como o MBL, se inscreverem e disputarem chapas em centros acadêmicos em universidades, buscando ocupar esses espaços. Marianna, de início, respondeu de forma diplomática…

“Em primeiro lugar, achamos que o caminho mais saudável é a disputa de ideias. 

…E continuou respondendo, de forma estratégica:

“Precisamos nos desafiar cada vez mais – e é um papel da UNE e da esquerda – a fazer essa disputa da consciência da população. O movimento estudantil e o setor da juventude é estratégico para isso. A PRINCIPAL estratégia é UNIFICAR A ESQUERDA EM TORNO DA DISPUTA IDEOLÓGICA”. 

Nada mais salutar considerar a UNE e a esquerda como duas forças unidas no combate à disputa pela consciência contra um novo player tentando penetrar na entidade. Afinal, se um partido político histórico, como o PCdoB, tem DÉCADAS DE DOMÍNIO NA ENTIDADE, tudo fica mais fácil. E, a julgar pelo título que a própria chapa se atribuiu, o bonde da Frente Brasil Popular não vai ficar de fora no combate, não é mesmo?

Então ela não respeita a diversidade de ideias? Vejamos: 

“Mas, ao mesmo tempo, percebemos uma presença mais organizada da Juventude do PSDB no Congresso da UNE. É importante que eles enxerguem a UNE como um espaço de construção do movimento estudantil, e também é importante que a UNE tenha uma diversidade de pensamentos e de opinião e, sobretudo, que represente a disputa na sociedade hoje”.

Olha que estranho: quando se fala em MBL, a UNE e a ESQUERDA devem DISPUTAR IDEIAS. Em relação ao PSDB, o discurso é de os chamar como parceiros na construção de um movimento estudantil. E que é interessante para a entidade ter uma diversidade de pensamentos e de opinião. Mas por que dois pesos e duas medidas? É bipolar a UNE?

Não. É estratégica. 

Segundo vídeo da mídia Spotniks, Fernando Guimarães, coordenador do PSDB Esquerda Pra Valer em 2017, diz, aos 2:12min, respondendo qual era o espectro ideológico do partido:

“O PSDB é um partido de esquerda porque é um partido social-democrata. Social-democracia é de esquerda”.

Então, a coisa é muito simples, caro leitor: você pode sim, ter uma diversidade, desde que seja do seu bonde. Bonde dos “alemão” é guerra, saca? A Marianna Dias foi esperta. Ela só ajuntou mais manos pro bonde pra deter a invasão. 

E ela tá errada?

Voltando à entrevista com a presidente da UNE, uma pergunta, feita pela Carta Capital, melhora nossa visão acerca da UNE. Acompanhemos.

Carta Capital: DESDE 1990, CHAPAS LIGADAS À UNIÃO DA JUVENTUDE SOCIALISTA (UJS) E AO PCdoB ESTÃO NA PRESIDÊNCIA DA ENTIDADE. Essa HEGEMONIA não prejudica, de alguma forma, a pluralidade de pensamentos dentro do movimento estudantil?

Marianna Dias: “Em primeiro lugar, o processo da disputa da UNE é muito democrático. A eleição para a diretoria da UNE se dá de forma proporcional. Então, todos os estudantes que montam chapa no Congresso terão representação dentro da entidade”. 

Cara, que resposta! Já estava pegando o lenço… Quando li o resto, onde ela explica como a representação ocorre na prática.

“Por exemplo, a juventude do PSDB e a juventude mais ligada ao PSOL fazem parte do corpo de direção. Como a UNE é uma entidade única do movimento estudantil universitário no Brasil, precisa ter essa pluralidade representada não só no Congresso, mas também na direção da entidade. Portanto, tantos anos à frente da presidência por parte da entidade da qual faço parte (UJS) não compromete a democracia e nem a representatividade por ter essa conformação”. 

‘OU SEJE’, caro leitor: a ideia da diversidade só dentro da facção é um fato confessado que enche o bonde vermelho de orgulho.  Quem for alemão, vai esquentar alguns pneuzinhos pra queimar gordura. 

E assim se mantém a hegemonia, ops, democracia, essa palavra linda, maravilhosa, com cores de néon, luzindo a cabeça dos nossos mencheviques. 

Só faltou comemorar com tiros para o alto a hegemonia na favela.

E pra fechar com chave vermelha e amarela, vejamos um Manifesto em favor da União da Esquerda, feito em 2018, publicado no site OCafezinho

A carta era um chamado às direções do PT, PDT, PSB, PCdoB e PSOL, tendo em vista a urgência que o pleito de 2018 exigia, devido ao fenômeno Bolsonaro ter escapado do controle de reação. 

Diante disso, só havia, pela carta, uma maneira de evitar o caminho desastroso, cheio de mazelas imaginadas: a unidade do campo progressista. Por isso todos esses partidos foram chamados, no sentido de tentar construir uma chapa única, já no primeiro turno das eleições. 

E o detalhe mais importante. Entre vários representantes de entidades educacionais, Pedro Gorki, presidente da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas, assina a carta, junto com Marianna Dias, Presidente da UNE. Fica reconhecido o espectro ideológico militante institucional na cúpula da UBES, assim como fica clara a adesão, não só da entidade, mas de seus esforços e comprometimento numa força militante de união das esquerdas. 

Uma entidade…De estudantes. Para militância partidária. 

A propósito — Como está seu filho, ou sua filha, na escola? Vai indo bem?

Não se preocupe. Se não puder olhar por ele ou ela, haverá sempre alguém muito bem disposto a…Ocupar o teu lugar. 

Fica tranquilo, parça.

FIM DO PASSEIO. A ESTRADA ATÉ AQUI…

O que se observa nas análises da direita e da esquerda, por um lado, é Soros encarnado como um real e potencial inimigo. Mas é muito menos dolorido alegar que ele é um monstruoso representante do espectro adversário, e não apenas mero homem de negócios, usando dinheiro como chamariz, a comprar quem se oferece, de qualquer lado que venha. Os adjetivos para esse inimigo de cabelos brancos são os mais variados: patrocinador da contrarrevolução, financiador da esquerda brasileira, ou similares. É mais palatável criar uma teoria elaborada em vez de se ver uma resposta muito simples: “é somente a porra do dinheiro e poder”. 

Um progressista, ou um direitista nunca aceitará que representantes de seus devidos espectros se vendam a bilionários pelo preço que mais lhes apetecer. E, ao se venderem ao projeto político desses velhos mega investidores, aceitam de pronto suas pautas. Há um processo de engenharia social em curso, engendrado e formado por essas fundações. O modelo de sociedade aberta, por exemplo, arrebenta qualquer nacionalismo, causa comum e cara aos dois espectros políticos. Seja num Estado forte. Seja num Estado mínimo. Se os dados dos Estados Nacionais estão submetidos a uma transparência internacional, qual a confiabilidade desses órgãos a ser ofertada na proteção das informações? A mesma da OMS, uma entidade supranacional, com orientações cada vez mais confusas acerca da pandemia que assola a humanidade ultimamente, por exemplo? Qual a independência que tem uma nação quando as ações executivas dos Estados aos seus povos são frutos de parcerias com essas fundações? Como defender um Estado pujante, grande, sugado por essas fundações? Como defender um Estado mínimo, valorizando o particular, se as diretrizes desse mesmo Estado são modeladas para atender aos interesses desses mega especuladores? Que legislação interna representa a vontade popular, quando bilionários entram na arena de debate como representantes da sociedade, como amigos técnicos de Tribunais ou Audiências Públicas, através de fundações estruturalmente aparelhadas para vencer qualquer obstáculo técnico, dado seu profissionalismo?  

A sociedade aberta é inimiga de uma sociedade civil. A sociedade civil é a manifestação composta pelo povo, cheio de sua personalidade, manifesta em sua cultura. Independentemente de espectro político. Valores nacionais reforçam nacionalismos. Quando temos valores culturais vindos de entidades e/ou fundações financiadas por particulares, como o multiculturalismo, nós temos a substituição dos valores de um povo por valores de alguns bilionários. Cada grupo identitário, estimulado por essas fundações, passa a exigir mais do que seus semelhantes que não se identificam com o grupo. A identidade nacional é pulverizada em grupos identitários. Eles se digladiam com quem não está junto, pressionando a legislação a privilegiar mais do que procurar por isonomia, fragmentando cada vez mais a harmonia entre os irmãos da mesma terra. Seja de direita, ou de esquerda. Na terra arrasada, da guerra entre irmãos, os bilionários passam. 

Comprando na baixa. 

Vendendo na alta. 

Enquanto a sociedade aponta o dedo pra si mesma. Procurando em si a culpa. 

Não é uma excelente estratégia de negócio?

Por outro lado, a China, com estratégia semelhante a de Soros e de seus parças bilionários, pega sua fatia das riquezas brasileiras, usando os próprios voluntários do país, camaradas de ideologia, dispostos a participar da dilapidação, apenas para ver seu “parça bombado camarada” bem na fita. Seja através de compra de setores estratégicos do país, independentemente de mandatários federais, por atuarem em esferas estaduais e municipais. Seja ampliando sua própria iniciativa de imperialismo particular, com o apoio inquestionável de seus militantes locais. O que também é perigoso para uma nação, pois ela é modelada segundo os ditames de um imperialismo, só que chinês. Ou melhor, segundo os ditames de uma “nova ordem internacional…”. Não importa de onde venha o apoio, ainda que seja de vendidos a bilionários globalistas, ou militantes entusiasmados. O que importa é que, se ajuda o reizinho Xing Ling, é aliado. Não é?

A Fundação FHC em 2018, ao trazer Xie Chuntao, vice-presidente da Escola Central do Partido Comunista da China, traz-nos também uma pista do ambicioso objetivo nos Estados-alvo, com uma singela frase dita pelo convidado:

“A democracia (sic) chinesa é diferente da ocidental, ao mesclar eleição direta com indireta. É um sistema que funciona no país e sua consolidação é um dos desafios que o presidente Xi tem pela frente. Se retrocedermos nesse caminho, será um desastre não só para a China como para o mundo”. 

Tanto com representantes diretos, através de militantes na sociedade civil, como indiretamente, através de seus representantes nos partidos, a vontade popular é retirada das mãos do povo, ficando nas mãos dos interesses de outra nação. Não é também um “negócio da China”?

A ideologia também é boa para os negócios, não é? Seja uma sociedade aberta, seja uma ditadura fechada. 

Na mão do malandro, sempre dá lucro. 

E os otários? Trampam na porrada, entre si, no meio da rua. 

POR FALAR EM TRAMPAR NA PORRADA…

Tanto do lado da especulação de bilionários, tanto do lado da China e seus respectivos parceiros, que se juntam e se misturam, há um alvo em comum: o atual governo. Há uma ampla rede de alianças, dos mais variados espectros, juntos no velho e milenar objetivo humano: manutenção e/ou aquisição de poder. Mas não há um líder comum, dados tantos interesses diversos, egos diversos, e apetites diversos. 

E qual é o espólio para tantos interesses juntos?

Um país continental, cujas tendências podem se estender aos outros países da América Latina, como ocorreu no processo de eleições de governos progressistas nos mandatos de Lula e Dilma, e todo o processo de apoio a mandatários camaradas, com suporte do dinheiro público brasileiro. 

Recursos naturais gigantescos, o principal motor econômico para as próximas décadas. Um paraíso para ganhos econômicos em concessões e privatizações nos setores-chave. 

O que se vê, na prática, é uma tentativa de neo-colonialismo. 

Seja pela China, na extensão de seu império. 

Seja por bilionários e suas agendas mercadológicas.

Seja para um Estado totalitário precisando desesperadamente de recursos para si e suas iniciativas internacionais. Seja para bilionários e seus projetos megalomaníacos. 

Nossos dois atores têm boa experiência em influenciar países para rumos de desestabilização. E suas peças foram bem mobilizadas até aqui. 

E, desde que seus interesses não sejam atrapalhados, não há problema em haver agentes em comum. Para um objetivo comum. 

Porém, na iniciativa política mobilizada pela esquerda, não há líder para a representar. O que fazer?

No momento, não há que se falar em líder. Mas em pautas, pois as pautas mobilizam pessoas. Pautas, sem líder, só podem ser uma arma de desestabilização de governo na representação de uma… Coletividade: uma massa disforme que poderia substituir o líder, porque o que importa, na verdade, é retirar o “déspota militar”. Essa massa, autoproclamada “democrática”, seria um bom ator de desestabilização. Seria o brigão da escola no qual toda qualquer gangue de arruaceiros de colégio se apoia e se “agarante”. Com todos os eventos vindos da desestabilização institucional do Poder Executivo, qualquer um dos aliados pode assumir a cadeira. Enquanto os grandões ficam com os reais espólios. 

Mas, quem seria o brigão da escola que todos esses aliados e rede midiática cooptada apoiaria? Quem seria o brigão que bateria nas forças policiais, mas ela não poderia retrucar de volta, por alguma espécie de proteção, de blindagem, de inviolabilidade?

Só me veio à cabeça um clássico:

EU FICO COM A PUREZA DA RESPOSTA DAS CRIANÇAS…

É A VIDA!

É BONITA E É BONITA.

NO GOGÓ…

E ENQUANTO AS CORTINAS SE FECHAM…

No meio deste ano, a Open Society, de George Soros, decidiu doar simplesmente US$ 1 milhão ao governo de Flávio Dino para o… Enfrentamento do Coronavírus. Quem contou essa notícia feliz da vida? Pedro Abramovay. Lembra, leitor, da dificuldade de rastreamento do dinheiro de uma entidade como a Open Society, parça?

E Lula disse algo incrivelmente estranho

“Ainda bem que a natureza, contra a vontade da humanidade, criou esse monstro chamado coronavírus porque esse monstro está permitindo que os cegos enxerguem, que os cegos comecem a enxergar que apenas o Estado é capaz de dar solução a determinadas crises”.

Bom, se nos lembrarmos de um artigo na Revista Esmeril sobre um certo cientista, admirador convicto de Marx, que pensava num Estado grande, qual seria a solução para uma situação grave como essa?

Gente, a situação é uma questão de reprodução social, de quem produz alimentos a quem tira o lixo todos os dias, e a questão dos autônomos é igual pro professor de yoga, pra saxofonista, pra moça da escola de cerveja, pros Uber e iFood, pro comércio e coisas supérfluas, etc, só vai ter solução decente com uma GREVE GERAL FORÇADA pra não morrer trabalhador e um salário mínimo por cabeça no país…”

“…Senão vai ser uma guerra de todos contra todos infinita”. 

Aí você pensa com calma: o que são todas essas ‘quarentenas’ ao infinito e além?

Não são uma greve geral forçada?

Ah, mas isso é uma forçada de barra.

Bom, em 2019 tentaram. Não uma pandemia. Mas uma…Greve geral. Com atos previstos em mais de 170 cidades. Convocada por centrais sindicais e movimentos de oposição à reforma da Previdência e aos cortes na educação.

O corona poupou indignação, reuniões e a dor dos varapaus da polícia nos conflitos. É só ficar, de boas, em casa, fazendo cursinho. Lula tava certo. Corona foi a melhor coisa pra ficar em casa. 

O negócio é manter o medo. Mantendo o medo, fico em casa. Mesmo com protocolos médicos rodando na estrada. Salvando quase quatro milhões de candangos, na presente data

Se tudo quebrar, sem problema: a culpa é do Presidente. 

Se eu quisesse uma greve geral, só precisaria de uma coisa. Ficar em casa. 

Esticaria ‘quarentenas’ até onde pudesse.

E quando acabassem as desculpas?

Deixaria todos irem às ruas, mantendo a desestabilização através de um encontro marcado…

…Com os antifas.

Afinal de contas, os estudantes são os melhores alunos para causas revolucionárias, não são?

fim
Revista Esmeril - 2020 - Todos os Direitos Reservados


5 Comments

  1. Um primor de análise prospectiva.
    Dados bem fundamentados.
    Cronologia perfeita.
    Ratifica a impossibilidade de criação, no momento, de lideranças de direita mas sim de pautas!
    Uma pena Ribas Paiva não ter se unido ao D. Orleans para manter a pauta.
    Mas a conclusão é exata. Antifas 2021/2022.

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