O Brasil também já perdeu parte significativa de sua herança histórica para as chamas

É verdade que a nação é uma ampliação, no nosso caso em proporções continentais, da nossa própria família, portanto, também é verdadeiro que ver um monumento histórico de importância permanente devorado pelas chamas de um incêndio devastador nos causa a mesma angústia que testemunhar a nossa própria casa, ou a velha casa do nosso avô, sucumbir às chamas. Nesta matéria vão elencadas sete construções históricas destruídas pelo fogo.

I. Museu Naval de Chania

O museu, localizado na ilha grega de Creta, fora inaugurado em 1973. O seu acervo constitui-se de modelos de barcos, pinturas, arquivos de fotografias, artefatos de arqueologia submarina, instrumentos marítimos e objetos que remetem às Guerras Persas e à Guerra do Peloponeso. Em julho de 2018, um incêndio destruiu completamente o inestimável acervo.

Museu Naval de Chania/reprodução.

II. Museu Aeroespacial de San Diego

A instituição — sediada no histórico edifício Ford — localizada em San Diego, Califórnia, EUA, fora inaugurada em 1963. Seu acervo exibe peças únicas que remetem à História da Aviação e às conquistas espaciais dos Estados Unidos. Algumas dessas peças são o módulo de comando da Apollo 9, o Gumdrop; a réplica do Spirit of St. Louis, o monomotor no qual o aventureiro Charles Lindbergh atravessou o Oceano Atlântico, em 1927; o Flyer dos irmãos Wright; o Ford Trimotor, o “ganso de lata” e muitas outras peças de valor inestimável. Em 22 de fevereiro de 1978 o prédio do museu foi destruído em um incêndio criminoso.

No incêndio várias aeronaves de exemplar único foram consumidas: o Beecraft Wee Bee, a aeronave mais leve do mundo, e sua aeronave irmã a Beecraft Queen Bee; uma réplica do Spirit of St. Louis, e mais de 50 outras aeronaves, bem como incontáveis artefatos históricos.

“O incêndio foi inacreditavelmente trágico. Quando você passa esse período de tempo resgatando a história, construindo algo que foi até prestigiado internacionalmente, e então você vê tudo isso desaparecer em poucas horas, o que mais se pode fazer?”.

Owen Clarke, Diretor Executivo do museu à época do incêndio.
Incêndio no Museu Aeroespacial de San Diego/reprodução.

III. Centro histórico de Lisboa

Conhecido como o incêndio do Chiado, as chamas consumiram os prédios históricos localizados nas adjacências da Rua do Carmo, destruindo uma área equivalente a oito estádios de futebol. Alguns dos prédios, 18 no total, datavam do século XVIII. A capital portuguesa sofreu com esta perda de parte significativa do seu patrimônio no dia 25 de agosto de 1988.

Centro histórico de Lisboa consumido pelas chamas. Fonte: domínio público.

Felizmente, um projeto de reconstrução fora idealizado e posto em prática logo depois da destruição. A reconstrução fora dirigida pelo arquiteto português Álvaro Siza Vieira.

Placa afixada pela Câmara Municipal de Lisboa. Fonte: domínio público.

IV. Real Alcázar de Madrid

O prédio suntuoso fora a residência da Família Real Espanhola e sede da Corte desde o reinado de Carlos I, no século XVI, até a sua destruição por um incêndio durante a fatídica noite de Natal de 1734. As chamas destruíram mais de 500 obras de arte — incluindo quadros de Velázquez e Brueghel. Atualmente, o edifício restaurado voltou a abrigar a Família Real.

Pintura do século XVII representado o palácio Alcázar de Madrid. Fonte: domínio público.
O famosíssimo quadro “Las Meninas”, pintado por Diego Velázquez no Real Alcázer de Madrid. Fonte: domínio público.

V. Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro

Inaugurado em 1948, o MAM Rio, com o seu vão livre e as suas linhas modernas, é fruto do esforço do Brasil para assimilar as tendências artísticas do pós-guerra. O edifício está localizado entre os pontos mais significativos da capital fluminense: próximo ao Monumento Nacional aos Mortos da Segunda Guerra Mundial e ao Aeroporto Santos Dumont, no Parque do Flamengo. O projeto do edifício-sede é do arquiteto brasileiro Affonso Eduardo Reidy. Parte significativa do seu acervo, no entanto, fora destruída durante um incêndio em 1978 no qual perderam-se para sempre telas de artistas do século XX, como Pablo Picasso e Salvador Dalí.

Prédio do MAM destruído pelo incêndio de 1978. Fonte: domínio público.

VI. Museu da Língua Portuguesa

Na manhã de 21 de dezembro de 2015, muitos paulistanos que viajavam pelos trens e metrôs da capital foram surpreendidos pela notícia fatídica: as baldeações para a Estação da Luz haviam sido suspensas. O motivo: um incêndio que atingira os três andares do Museu da Língua Portuguesa (sediado no prédio histórico da estação) e partes da própria Estação da Luz. Contudo, porque a maior parte do acervo do museu estava alocado no formato digital, as perdas não foram significativas. O prédio centenário, que já sofrera outros incêndios, felizmente não foi destruído.

São Paulo, SP. 21/12/2015. Incêndio de grandes proporções atinge o Museu da Língua Portuguesa. Foto: Edson Lopes Jr./Veja

VII. Museu Nacional — a Quinta da Boa Vista

Para os brasileiros que acompanharam as tristes notícias daquele 2 de setembro (semana da Independência) de 2018, fora como se víssemos a casa do vovô em chamas. O palácio da Quinta da Boa Vista, a residência da Família Imperial Brasileira desde a chegada da corte, em 1808, até a partida para o exílio a mando das forças revolucionárias da República, em 1889, fora destruída por um terrível incêndio. Não há no Brasil prédio mais significativo para a nossa História do que a Quinta. Acolheu D. Maria I, “A Louca”; o casal D. João VI e D. Carlota Joaquina; o casal D. Pedro I e D. Leopoldina (substituída depois de sua morte por D. Amélia); todos os filhos do casal, incluindo D. Maria da Glória, que fora Rainha de Portugal e D. Pedro II, o nosso “Magnânimo”. A Quinta vira nascer a Princesa Isabel. Depois da revolução republicana, o palácio transformou-se num museu, o maior museu da América Latina — maior e mais antigo. A história da Quinta da Boa Vista renderia um calhamaço.

A associação da Quinta da Boa Vista com a imagem do Imperador D. Pedro II, com suas barbas brancas, é uma espécie de memória coletiva nacional depositada como o substrato da nossa brasilidade.

Bombeiros tentam extinguir o incêndio no Museu Nacional, Rio de Janeiro, Brazil September 2, 2018. REUTERS/Ricardo Moraes TPX IMAGES OF THE DAY
Projeto para a reconstrução do Museu Nacional. Fonte: portal UOL.

Com informações dos sites oficiais das seguintes instituições e veículos de comunicação: Museu Naval de Chania, Museu Aeroespacial de San Diego, Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, Museu Nacional Quinta da Boa Vista; RTP Notícias sobre o Incêndio do Chiado e Matéria do El País sobre o incêndio do Real Alcázer de Madrid.

“Se não fosse Imperador, desejaria ser professor”.

D. Pedro II.

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