Conto de José Anselmo Santos inspirado em Euclides da Cunha

Aconteceu pelos anos de 1890. num vilarejo do sertão baiano. Na paisagem de terra seca e chuva rara, as palmas do mandacaru eram servidas, depois de queimadas para limpar dos espinhos, às vacas de ancas esqueléticas, propriedade dos fazendeiros menos miseráveis que os habitantes das quase cinco mil casas de taipa, cobertas de palha.

José trabalhava como vaqueiro na fazenda do coronel Diomedes. Era divertido tocar o rebanho vestindo o gibão de couro. Sempre que podia levava para os pais, nacos de pão de milho, beijus e farinha de mandioca. Os velhos definhavam a olhos vistos como acontecia em cada palhoça do vilarejo. Uma situação dolorosa para os corações mais embrutecidos. Nem bichinhos do mato, nem passarinhos sobravam pra aliviar a ronqueira das barrigas. A água de beber era escassa e vinha de barreiros provocando diarreias nas pessoas que bebiam sem coá-la e fervê-la.

Foi quando o Santo apareceu por ali vestido numa camisola de algodão, barba e cabelos crescidos, magro que nem uma vara, reunindo o povo para rezar, aconselhando a gente a preparar as almas para o fim do mundo. Era um consolo! E cada vez mais gente passou, à falta do que fazer, a acompanhar o Santo Conselheiro em caminhadas e vigílias de oração.

Os pais de José, como era comum naqueles dias, morreram à mingua. Depois de sepultá-los, sentiu imensa tristeza no coração e passou a seguir os passos de Antônio Conselheiro, com a esperança de ver “o sertão virar mar com rios de leite e mel e o mar virar sertão.” Uma esperança doce e meio vingativa? Ele que nunca vira o mar ouvira dizer que todas as águas corriam para formar o imenso lençol, aquele montão líquido que alimentava a vegetação exuberante e a fartura de bichos e peixes, nunca faltando o de comer.

Diziam os fuxiqueiros que aquele homem defensor da fé, defensor da monarquia, contra a república que cobrava altos impostos e se afastava da autoridade da igreja, vinha do Ceará onde tinha uma boa vida como comerciante e professor, até que a mulher o traiu. A situação de corno, vergonha e desgosto, o levou a abandonar tudo e vagar pelos sertões. Canudos, às margens do Rio Vaza Barris, que só era rio quando as raras chuvas lhe davam vida temporária, foi o paradeiro final do Santo, acolhido pelos famintos.

José possuía, como muita gente, uma espingarda daquelas de carregar pelo cano com pólvora e chumbo grosso. Por isso mesmo foi um dos defensores dos beatos seguidores do Santo quando os soldados do governo resolveram atacar o Monte Belo, nome dado pelo Conselheiro ao povoado de Canudos. Uma, duas vezes os soldados foram vencidos e deixaram armas, que eram recolhidas para aumentar o poder defensivo do povoado resistente em santa rebeldia. Toda pólvora e chumbo também era recolhida e distribuída entre os que tinham armas e vigilavam emboscados ou nas trincheiras de proteção.

Na terceira investida os soldados cercaram Monte Belo e a carnificina foi cruel. Os soldados e os defensores da vila mataram e morreram como formigas e tudo acabou em fogo e com a morte do Santo que teve a cabeça decepada. As contas dos relatos dizem que foram presos e morreram umas vinte e cinco mil pessoas.

Menos José. Temendo a prisão e a morte ele reuniu o que poude de pólvora e chumbo e deu no pé. Decidiu fugir pelo leito seco do Vaza Barris em direção ao mar. Foi mais de mês em caminhada, dormindo no mato que no passar dos dias começava a ficar mais verde. No leito do rio começaram a aparecer poças d’água, fresca e cristalina entre as pedras. Melhor ainda eram as pacas, cutias e outros bichinhos que ele caçou com sua espingarda para matar a fome. Aquilo era que nem um paraíso, uma riqueza imensurável. A caminhada acabou quando ele divisou um grupo de índios. Chegou e foi bem recebido com sua espingarda, riqueza festejada e que ele soube aproveitar para ajudar os índios. O mar estava bem perto, a meia hora de caminhada. Ali aprendeu também a pescar e tecer redes e esteiras de junco. Construiu sua casa de taipa, cobriu com folhas dos abundantes coqueiros, formou sua roça e juntou-se com uma índia de cabelos e olhos negros. Com o passar dos anos, oito filhos foram crescendo e os cômodos da casa, como o tamanho do roçado aumentando, até que a terra de ninguém ganhou um dono. Seu Nicomedes visitou cada casa, montado numa égua. Era um homem bom e disse que todos podiam ficar nas terras, exigindo apenas que juntassem os cocos que seriam recolhidos pela tropa de jegues uma vez por mês. E assim foi. Os jegues apareciam tocados por um tal de Firmino e o comboio seguia com os caçuás presos às cangalhas, cheios de cocos secos, que a meninada se encarregava de juntar. Assim viveu José, o retirante de Monte Belo, contando aos filhos e vizinhos as histórias vividas no sertão. Bem ali, na localidade batizada como Oiteiro, está a capela de São Sebastião, aonde um padre chega para passar uma semana durante o ano, oficiando casamentos, batizados e lembrando nos sermões a pregação do Santo Conselheiro, convidando as gentes a preparar a alma para ganhar os céus depois da morte. O fim do mundo parece que ainda vai tardar. O governo está cada vez mais forte e presente, mas ali no Oiteiro reina a paz dos sobreviventes. Na casa construída por José, ainda vivem alguns de seus descendentes. Outros retiraram-se para a cidade. Araquém, um dos bisnetos de José formou-se em história usando como texto de conclusão de curso a narrativa das batalhas, heroísmo e incidentes de sobrevivência da própria família. Na sala da casa onde reside estão pendurados como relíquias, ao lado dos quadros de Jesus e Maria, um gibão de couro e uma velha espingarda.

Ref. “Os sertões” Euclides da Cunha, 1902 capítulos intitulados “O homem” e “A Luta”.

Estamos condenados à civilização. Ou progredimos ou desaparecemos.

Euclides da Cunha

Gosta de nosso conteúdo? Assine Esmeril, tenha acesso a uma revista de alta cultura e ajude a manter o Esmeril News no ar!

fim
Revista Esmeril - 2021 - Todos os Direitos Reservados

Leave a Comment

This div height required for enabling the sticky sidebar
Ad Clicks : Ad Views :