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quinta-feira, 27 janeiro, 2022

CRISE NO CAZAQUISTÃO | Protestos, poder e repressão

Revista Mensal
Rute Moraes
Rute Moraes é cristã, estudante de jornalismo, apaixonada por livros, café, política e nada feminista.

Alta no preço do gás foi estopim para protestos que levaram à renúncia do governo num dos principais aliados da Rússia na região

Nada indicava o surgimento de uma crise profunda no Cazaquistão, mas de modo repentino a ex-república soviética da Ásia Central tornou-se palco de protestos violentos. Dezenas de pessoas foram mortas na repressão aos protestos, e a reputação do país como uma nação pacífica e apenas moderadamente autocrática sofreu um golpe.

Segundo a mídia local, no dia 5 de janeiro os manifestantes invadiram o aeroporto da maior cidade do país, Almaty, entrando à força em prédios do governo e incendiando o escritório administrativo da cidade. Também houve relatos de confrontos mortais com a polícia e os militares, um apagão da internet em todo o país e edifícios danificados em três grandes cidades.

A imprensa informou que oito policiais e guardas nacionais foram mortos e mais de 300 ficaram feridos. Não está claro até que ponto os civis foram mortos ou feridos. O Ministério do Interior do país disse que mais de 200 pessoas foram presas.

O que causou os protestos?

De acordo com a Reuters, as manifestações começaram na região de Mangystau, rica em petróleo, quando o governo suspendeu os controles de preços do gás liquefeito de petróleo (GLP) no início do ano. Muitos cazaques converteram seus carros para funcionar com combustível devido ao seu baixo custo.

O Cazaquistão é o nono maior produtor de petróleo do mundo em extensão territorial, e atraiu bilhões em investimentos estrangeiros, mantendo uma economia forte desde sua independência, há 30 anos.

Mas os subsídios do GLP criaram uma situação na qual o país enfrentava regularmente escassez de petróleo. A elevação do teto de preços foi uma forma do governo amenizar esses déficits e garantir que os suprimentos chegassem ao mercado interno. No entanto, o tiro saiu pela culatra e os preços do GLP mais do que dobraram após a elevação dos limites. Os protestos então se espalharam rapidamente por todo o país.

Crise política

Existem também questões antigas que impulsionam os protestos, um pano de fundo que vai além do aumento dos preços: há uma importante necessidade de mudanças políticas e sociais três décadas após a independência desta antiga república soviética.

Nursultan Nazarbayev assumiu a liderança do Cazaquistão em 1984, quando ainda fazia parte da URSS, e permaneceu no poder por 35 anos consecutivos. No ano de 1991, ele ganhou a eleição pela primeira vez, sendo o único candidato. Por meio de uma chancela, ele prorrogou o próprio mandato de 1995 até 2000. Depois foi reeleito com 81% dos votos, sendo esse seu pior resultado. Nas eleições seguintes nos anos de 2001, 2005 e 2015, seus votos ultrapassaram a marca de 90%. E ele também promoveu mudanças constitucionais para poder concorrer à eleição quantas vezes quisesse.

No ano de 1999, criou a Nur Otan, o que seria uma frente nacionalista erguida em volta do próprio líder, uma proteção que acorbertava todos os cazaques. Em 98, ele havia fundado pela segunda vez a cidade de “Akmola” que passou a chamar-se Comotana (Capital City), mudando assim a sede do Governo para lá.

Tempos depois, ele decidiu olhar para um outro símbolo nacional; e no ano de 2006, mudou a letra do hino nacional. Aqui um detalhe chama a atenção, o próprio Nursultan foi o responsável pela modificação da letra. Em 2018, ele decidiu abandonar o alfabeto cirílico e iniciou a transição para o alfabeto latino.

Os investimentos estrangeiros não demoraram para chegar ao país. Atualmente grandes empresas ocidentais ligadas à produção de hidrocarbonetos, incluindo Chevron, Shell, Agip e Exxon, operam perto das costas do Mar Cáspio. Nazarbayev conseguiu manter um bom relacionamento com Moscou, e também com o Ocidente. Enquanto o petróleo e o gás continuassem a fluir, ninguém se concentraria na repressão política, censura, violações dos direitos humanos ou falta de democracia.

Em 2019, o ex-funcionário do partido comunista, renunciou à presidência, sem grandes conflitos. Em suas palavras, ele queria “dar origem a uma nova geração de líderes” e nomeou Kasim-Yomart Tokayev como seu sucessor. Porém, ele continuou como líder do Nur Otan (praticamente o único partido do país). A nova gestão renomeou a capital do país para “Nur Sultan”, como forma de culto a personalidade do ex-presidente.

Seu método autocrático de governança gerou preocupação internacional e viu as autoridades reprimirem duramente os protestos, prender críticos e sufocar a liberdade de imprensa. Segundo a Reuters, os críticos acusaram Nazarbayev de nomear parentes e aliados para cargos importantes no governo e acredita-se que sua família controla grande parte da economia do Cazaquistão.

Resposta do Cazaquistão

As autoridades declararam estado de emergência em todo o país com toque de recolher e restrições de movimento até 19 de janeiro, segundo informações da mídia local. Cortes na Internet foram relatados em todo o país e o presidente Tokayev disse que equipes militares foram enviadas.

Ele também ordenou ao governo que diminuísse o valor da GLP para 50 tenge (R$0,66) por litro, tudo isso para garantir a estabilidade do país.

Com informações de: Reuters, CNN e Infobae


“Nem todos que procuram estão perdidos”.

J. R.R Tolkien

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