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quinta-feira, 27 janeiro, 2022

OPINIÃO | “Verificadores de fatos” são parte de uma estratégia política perversa e perigosa

Revista Mensal
Aldir Gracindo
Aldir Gracindo é professor, escritor de artigos, palestrante, ativista político, realista esperançoso, nerd orgulhoso, nacionalista e violoncelista amador.

Episódios com Joe Rogan, Robert Malone e as vacinas mostram: “verificação de fatos” se tornou ferramenta de bloqueio de fatos e perseguição de dissidentes

Há poucos dias, informei no Esmeril News sobre o Twitter ter expulsado o Dr. Robert Malone, e de sua entrevista a Joe Rogan, onde o médico falou de algo chamado “psicose de formação de massa.”

Posteriormente, meios de informação como a Associated Press publicaram mais daquelas “verificações de fatos” — mas dessa vez resolveram chamar de “fact focus”. Com isso, veículos de imprensa passaram a afirmar que “psicose de formação de massa” é uma teoria infundada. Só que ali não há verificação, nem fatos.

Eles apenas citam especialistas escolhidos que aceitaram não só discordar de Malone, como dizer, nas palavras do falecido Padre Quevedo, que “isso non ecziste“. Não é à toa que a expressão “dizem especialistas” se tornou geradora de desconfiança. Qualquer um poderia encontrar especialistas com opinião a favor e “verificar a verificação” como falsa.

O episódio lembra a “verificação” de um vídeo de Joe Rogan em que ele dizia ter contraído o vírus da covid e estar se medicando com um coquetel vitamínicos e drogas, inclusive o antiparasítico Ivermectina. Joe Rogan também disse estar contando com orientação médica. A AP afirmou não haver evidência de manipulação da cor, pois um especialista havia verificado “quadro a quadro” os dois vídeos.

O absurdo na “verificação,” obviamente, é que a evidência não está em alguma alteração de um quadro para outro do vídeo, está nas cores e é óbvia. Mais suspeito ainda foi a AP sequer mostrar as imagens comparadas.

Postagem de Joe Rogan no Instagram. Link: https://www.instagram.com/reel/CYcLCESpFws/?utm_medium=copy_link

No caso do Dr. Robert Malone, psicólogos citados disseram que nunca ouviram falar de “psicose de formação de massa” e que isso não aparece no Dicionário de Psicologia da Associação Americana de Psicologia. O incrível é que ela seja apenas mais uma das várias expressões usadas para se referir a um comportamento de grupo considerado irracional, como “psicose de massa,” “histeria de massa” etc.

“‘Psicose’ é um termo que se refere a condições que envolvem alguma desconexão em relação à realidade. Richard McNally, um professor de psicologia clínica na Universidade de Harvard, escreveu em um e-mail que as pessoas que apoiam as vacinas para COVID-19 e orientações públicas de saúde não são delirantes. Em vez disso, são ‘plenamente responsivas aos argumentos e evidências aduzidos pelos especialistas científicos relevantes'”.

The Associated Press

A matéria da Associated Press chega a me parecer delirante. Alguém se esquece que, embora alguns talvez possam usar o que o Dr. Malone disse como argumentos contra vacinas, ele próprio é a favor do uso delas e diz ser vacinado? E que ele é um especialista científico relevante? O jogo de palavras só deixa transparecer que um único discurso sobre as vacinas é aceitável.

“A descrição de ‘psicose de formação de massa’ oferecida por Malone lembra conceitos desacreditados como ‘mentalidade de rebanho/multidão’ e ‘mentalidade de grupo’, de acordo com John Drury, psicólogo social na Universidade de Sussex, no Reino Unido, que estuda comportamento coletivo. As ideias sugerem que quando pessoas formam parte de uma multidão psicológica, elas perdem suas identidades e seu autocontrole; elas se tornam sugestionáveis e os impulsos primitivos instintivos predominam. Essa noção foi desacreditada por décadas de pesquisa sobre comportamento de multidões”.

Da matéria da Associated Press

“Nenhum psicólogo respeitável concorda com essas ideias agora”.

Drury

Curioso comparar isso com tantas matérias “delirantes” como esta abaixo, da BBC Brasil.

“Se muitas pessoas compartilham uma ideia, outras tendem a segui-la. É semelhante à escolha de um restaurante quando você não tem informação. Você vê que um está vazio e que outro tem três casais. Escolhe qual? O que tem gente. Você escolhe porque acredita que, se outros já escolheram, deve ter algum fundamento nisso. Um vai com a opinião do outro”.

Fabrício Benevenuto, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)

A AP também citou Steven Jay Linn, professor da Universidade de Binghamton em Nova Iorque.

“A alegação dele representa uma incompreensão séria da hipnose e reforça o equívoco popular de que a hipnose, de alguma forma, transforma as pessoas em robôs sem mente que pensam o que o hipnotizador quer que elas pensem e fazem o que o hipnotizador quer. O fato cientificamente estabelecido é que as pessoas podem facilmente resistir e até se opor a sugestões.

Jay Linn

Em setembro de 2020, a Fortune publicou um artigo intitulado “Donald Trump é um mestre do hipnotismo. Como ele usou seu poder sobre a América — e sobre si mesmo”, assinado por Ralph Benko.

“[Scott] Adams [criador do personagem Dilbert] preventivamente previu a vitória de Trump em 2016. Ele disse à Reason, mais de um ano antes daquela eleição, que ‘muitas das coisas que a mídia estava reportando como um tipo aleatório de insultos e fanfarronice e apenas Trump sendo Trump me pareceu como muita técnica profunda dos campos de hipnose e persuasão’. Agora, o novo livro de Bob Woodward relata que Jack Kushner recomenda o livro de Adams, ‘Win bigly: persuasion in a world where facts don’t matter’ [‘Vencer grandemente: persuasão em um mundo onde fatos não importam’, em tradução livre] como chave para entender Trump. O subtítulo diz tudo. Eu sou conhecido pela associação líder mundial de profissionais de hipnose, a National Guild of Hypnotists, com mais de 14.000 membros, como um hipnólogo não-clínico de elite, entre os melhores. Como Adams, em reconhecer logo de início o poder hipnótico de Trump, eu também admirei esse empreendedor transformado em político. Mas aqui está minha grande revelação: Trump pode ser talentoso demais em hipnose para seu próprio bem”.

Benko

Quando Adams e Benko falaram de Trump “hipnotizar massas,” isso foi publicado na Fortune, Bloomberg, Forbes, The Week e muitos outros. Mas, se a opinião for dissidente da “aprovada,” o autor é “verificado”, declarado portador de “uma incompreensão séria” e propagador de desinformação por veículos de imprensa (em manada), Google et cetera e expulso de redes sociais. É uma forma de violência moral feita através de empresas e do Estado.

Em dezembro de 2021, uma matéria da Salon perguntava no título: “A América está experimentando uma psicose de massa?” E, claro, a mesma matéria respondia que sim.

“Psicólogos dizem que sim; e mais, que o que está acontecendo foi realmente previsto há muito tempo pelo psiquiatra suíço Carl Jung”.

Matéria da Salon

Como diz Andrew Orlowski no Unherd, “psicose de formação de massa” é só mais uma descrição de histeria coletiva.

“Não é uma ideia nova. Formação de massa vem do trabalho do escritor do século XIX Gustave Bon, comumente considerado o pai da psicologia das multidões. Le Bon foi avidamente lido por Lenin, Hitler e Mussolini e se tornou uma enorme influência sobre Louis Bernays, sobrinho de Freud e o inventor das relações públicas modernas”.

Andrew Orlowski

Edward Louis Bernays também é o grande inventor da propaganda política contemporânea. Todos os marqueteiros políticos são influenciados por Bernays, que recomendava o uso dos desejos e medos mais profundos do público nas campanhas. Basicamente: projetar o candidato como a encarnação dos desejos e esperanças do povo e projetar os medos do público no candidato adversário.

“De fato, estudar como os meios de comunicação podem ser usados para fins totalitários costumava ser uma preocupação principal da esquerda. Foi a motivação por trás do estabelecimento do Radio Research Project na década de 1930 pela Fundação Rockefeller. Hitler tinha ascendido ao poder através do rádio, usando-o ao [nível do] efeito hipnótico, então o projeto convidou especialistas a considerar o papel desempenhado pelo novo meio [de comunicação] e como Hitler o tinha explorado”.

Andrew Orlowski
O Google quer determinar qual fonte de informação é confiável.

A julgar pela “grande mídia autorizada,” e “especialistas”, portanto: mentalidade de rebanho, grupo ou manada, cientificamente existe e cientificamente não existe. Depende do caso, do especialista e do “informador”. Histeria, ou psicose de massa, idem. E hipnose de massa, segundo especialistas, também existe e não existe. É isso mesmo?

Esses episódios envolvendo Rogan, Malone e vacinas não deixam dúvidas: esses “verificadores de fatos”, na verdade, são bloqueadores de fatos, de informação e discussão transparente. E, principalmente agindo coordenadamente com políticos empresas de redes sociais e militantes, são um uso de meios de comunicação para fins totalitários.

Alguns dirão que essas táticas de censura que envolvem falsas verificações de fatos “salvam vidas.” Isso é um grande equívoco. Criar um ambiente de intimidação, supressão, censura é a verdadeira ameaça.

No interesse público, e no da Ciência que o serve, nós precisamos das vozes dissidentes. Os que discordam da maioria podem estar certos e ajudar a corrigir e aperfeiçoar a posição majoritária, ou errados e validá-la, fortalecê-la. Silenciar e ostracizar os discordantes é o que nós não precisamos.

Se o público realmente é tão incapaz de pensar cientificamente, os meios de informação deveriam se ocupar em ajudá-lo a verificar as informações por si. Deveriam seguir a velha e sã ética de ensinar a pensar em vez de ensinar como pensar — ou pior, ensinar a apenas seguir sem pensar.

Em tempo, quero compartilhar uma teoria para algum “verificador” dizer que não existe.

Gaslighting ideológico de massa:

É quando poderosos e sua manada de cupinchas histéricos querem convencer toda uma população de que todos os que não seguem um pensamento e discurso únicos são “loucos desinformados”; e que a realidade, se não estiver de acordo com o discurso único aprovado no momento, “não existe”. Autor: Eu.


Com informações de Revista Esmeril, The Associated Press, Fortune, Bloomberg, Forbes, The Week, BBC, Salon, Unherd e psicanaliseclinica.com.


“Em vez de amor, de dinheiro, de fama, dê-me verdade”.

Henry David Thoreau

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