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quinta-feira, 27 janeiro, 2022

Correio europeu: Alemanha

Revista Mensal
Vitor Marcolinhttps://lletrasvirtuais.blogspot.com/
Apenas mais um dos milhares de alunos do COF. Non nobis Domine.

Crônica de Marques Rebelo

Eidelstedt

Todas as crianças do mundo são iguais — acenam para os viajantes. Depois é que as demagogias e falsos nacionalismos as tornam diferentes.

O ônibus continua na larga pista cimentada. Há bosques de salgueiros sob a gaze da bruma. Cerro os olhos ao surdo roncar do motor. Vejo-me acenando para o trem em terras de Minas Gerais.

Hamburgo

I

Os ingleses interpretaram o assunto bíblico com britânica ferocidade: dez dentes por um dente, dez olhos por um olho. E por isso Hamburgo praticamente não existe.

O eventual companheiro sorri da minha consternação: e toda a Alemanha Ocidental. E mais grandiosamente do que antes. E talvez mais perigosamente. Os americanos têm interesse numa muralha antissoviética… Os dólares jorrarão para a reconstrução. E dólar aliado à capacidade germânica… Espere um pouco, meu caro amigo, para se admirar…

II

É muito fácil a gente saber quanto custa uma coisa na Alemanha. É só chegar e perguntar:

— Zeferino Costa?

Eles informam logo o preço direitinho.

III

Não há nada mais triste do que um porto ao cair da tarde. Não há nada mais morto que um guindaste retorcido.

Delmenhorst

Tempo clemente, pausa outonal, a campina tem tons dourados. Pensando bem, há mais árvores na Europa do que no Brasil.

Bremen

Como eram inesquecíveis amigos de infância, tratei imediatamente de procurar os músicos da história. Perguntei por eles no barbeiro, na salsicharia, no ponto de jornais com revistas de adolescentes nuas, na tabacaria do velhinho estropiado, que ficava num subsolo, mas ninguém me pôde dar notícias do burro, do cachorro, do gato e do galo de crista escarlate.

Provavelmente foram vítimas dos bombardeios, sugeriu o hoteleiro, depois um inspetor de trânsito batendo prussianamente os calcanhares e ainda a mulher da papelaria, que tiveram suas famílias liquidadas, e eles mesmos, meio liquidados, guardavam nos olhos, nos gestos, nos tremores do corpo e nos tiques da fala o fogo das bombas, que não deixaram um quarteirão intacto.

Desolado, solitário, errei em vão pelos escombros que foram casas ou avenidas, pelas margens do Weser repleto de barcaças afundadas ou à toa, na esperança de um vestígio, de uma pista, zurro ou latido, miado ou canto glorioso.

Nada encontrei, mas numa ribanceira gramada que escorregava para o rio, ao lado de um velho estaleiro, encontrei Lotte, mais verdadeiramente Charlotte, que era musicista loura e que durante a semana vendia charutos e cartões-postais num tabique do Platz. Falava inglês por artes da ocupação e da necessidade, morava numa espécie de buraco ao pé duma muralha, que era resto de imenso armazém, toca cuja entrada ela vedava com um pedaço de lona de barraca.

Lotte, que ficou só no mundo, tem um único par de sapatos, um vestido escuro, uma boca clara de cereja, dois olhos celestes, um colar de matéria plástica e um coração sentimental.

Contemplava o rio de escuras águas manchadas de óleo, o vulto da ponte que já foi parcialmente reconstruída, a passagem dos barcos. E a sua silhueta, contra o fundo brumoso de ruínas, era a de estátua de um novo amanhecer.

— Fräulein!

Tinha busto de efebo e voz candente. Como as demais pessoas, ignorava a sorte dos quatro músicos bremenses, que também haviam sido bons companheiros de sua meninice, e isso foi o laço bastante para nos ligar forte e incontinentemente.

***

Estas — e muitas outras crônicas — apareceram originalmente no vespertino Última Hora, do Rio de Janeiro, em 1951 e 1952, e constituem o conjunto de impressões da viagem que o autor fez pela Europa Ocidental naquela período.

Referência: Rebelo, Marques, Correio Europeu, José Olympio Editora, 2ª edição, Rio de Janeiro, RJ, 2014.

“Boa romaria faz quem em casa fica em paz”.

Folha de rosto da coletânea de crônicas do M.R
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