Degradação urbana e saudades pastoris

O apartamento do hotel era aconchegante, embora da pequena sacada a visão de luzes e sombras quadriculadas lembrassem uma cerca surreal. Nem o verde, nem o azul do céu, nem os sons confortantes e familiares de pássaros em festa ou cães latindo. Ouvia sirenes, motores barulhentos, sons desconhecidos e vozes incompreensíveis.

Imaginou quantas pessoas estariam confinadas naqueles reduzidos espaços onde a civilização urbana competia para sobreviver e abrigar os filhos que as políticas educacionais instruíam para a obediência, profissões e serviços mais convenientes ao Estado.

Lembrou o painel que cobria a parede da sala de egiptologia do museu, figurando a construção das pirâmides: grandes fileiras de escravos semidesnudos arrastando grandes blocos de pedra à luz de um sol causticante, que pintava de amarelo as areias, enquanto o faraó e seu séquito apreciavam o trabalho abrigados à sombra de pálios imensos.

Olhou para baixo e divisou o pequeno espaço iluminado, onde uma casa cercada de jardins resistia ao sufoco entre os grandes prédios urbanos, quando um carro sinalizava para o acesso ao portão que se abria para o corredor lateral da residência e entrava vagarosamente. Antes que o portão se fechasse, uma moto com dois homens entrou e logo abordou o carro de onde saíram duas pessoas com as mãos para cima.

Ali mesmo, indefesas, foram agredidas e o passageiro da moto tomou a direção do carro. O assalto consumou-se e lá no jardim da casa, uma das pessoas ajudava a outra a levantar-se. Tanta proximidade, tanta gente, tantas intenções, tantos sentimentos, tantos perigos, tantas angústias, tanto convívio com a violência…

Lembrou o dia, há tantos anos, naquela metrópole, quando dirigia de volta  para casa, com Lua, sua companheira, ao lado, depois de ver a peça teatral que falava de liberdade.  Parou atrás de um coletivo esperando a luz verde do semáforo. Logo sentiu o cano do revólver na cabeça e o frio do medo. Outro homem abordava a mulher e lhe pedia as jóias, o dinheiro, enquanto aquele que o ameaçava pedia a carteira e o relógio. Ambos fugiram nas sombras da noite. Uma buzina o despertou e seguiu em silêncio, sentindo o amargo da impotência na procissão do trânsito. Foram-se os anéis e ficaram os dedos.

Quase não dormiu naquela noite depois da palestra para os estudantes. Ficou remoendo as imagens da insegurança e os limites impostos à liberdade dos indivíduos. Vencido pelo cansaço, depois da modorra matinal  abriu os olhos para a luz que, lá fora, parecia artificial, diferente daquela que os raios de sol proporcionavam, uma luz que permeava o ambiente como despertador anunciando a obrigação de começar um novo dia. Levantou-se e descalço foi ao banheiro para o ritual de lavar-se, escovar os dentes, pentear-se e olhar a própria imagem desgastada no grande espelho.

Mais um dia. E se os espelhos guardassem as imagens de todos os dias vividos? E se a gente fosse capaz de entrar nos espelhos, como num museu, para apreciar e meditar sobre fatos e experiências do passado? Seria possível identificar e classificar os atos movidos pela debilidade humana e aqueles devidos à essência anímica? O diálogo entre a alma e o cérebro, entre os sentimentos e a fé? Que momentos puros de regozijo e alegria? Que instantes de raiva e medo? Quais decisões produtivas e compartilhadas? Quais escolhas frutíferas e quais deram com os burros n’água? Quais propósitos?

Por falar em burros, naquele dia em que completava nove anos de idade, naquele sítio onde viveu na colina, o pai o presenteou com o burrico que nomeou Jeremias. Aprendeu a alimentá-lo e montar, passeando entre as mangueiras e cajueiros com o amigo, mantendo longas conversas e compartilhando com ele o sabor dos frutos maduros. Jeremias foi um companheiro puro e experiência   de amor incondicional.

O passeio pelos dias passados percorrendo os labirintos do espelho o levaram às imagens do assédio embaixo da moita de pitangueiras, quando a mãe flagrou a tentativa de invadir a intimidade de Nininha, a filha da cozinheira, da mesma idade, mas bem sabida de coisas que ele ainda não sabia. O castigo foi ficar sem sobremesa durante uma semana e um sermão sobre a tentativa de cometer o pecado mortal, faltando com o respeito à menina inocente. O rubor, a vergonha, a culpa e a pálida compreensão da consideração devida aos outros freando ações desastrosas para pureza de sentimentos.

Naqueles minutos, num desfile de longos anos, visitou muitos sonhos, contos e locais, caminhos trilhados e sabidos, desde os eventos infantis – canção de ninar, primeiros passos, risos e abraços – aos juvenis – da primeira comunhão ao encanto das leituras, rodas de ciranda, jogos e exploração das matas em grupos, cavalgando ou a pé, colhendo e saboreando os frutos maduros à beira das estradas.

Cada dia de vida foi diferente nos aprendizados e na orientação das ações. Reunindo tudo, o propósito de sua vida poderia resumir-se na busca de cumprir a lição: “amai-vos uns aos outros assim como Eu vos amei”. Servir, compartilhar, ser compassivo, estender a mão, abraçar, viver, sorrir, sorver o milagre da vida como se cada dia fosse o último. 

O telefone o fez despertar da viagem mental. Informavam que o veículo que o transportaria de volta à casa estava à sua espera. Um dia seriam dois veículos: um conduzindo o corpo de volta à terra e outro, invisível, conduzindo a alma para a dimensão eterna do infinito.


Pode-se ter saudades dos tempos bons, mas não se deve fugir ao presente.

Michel de Montaigne

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