sexta-feira 19, agosto 2022
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SANTO CONTO | O salvamento

Leônidas Pellegrini
Leônidas Pellegrini
Professor, escritor e revisor.

Conto baseado em um episódio da vida de Santo Amaro

Pra você ver, meu jovem, quem olha pra gente e não sabe do nosso passado, fica a achando que sempre fomos como no presente. Pois quem diria que eu, naquela época, iria ser monge? Eu era um moleque chato, atentado, impiedoso, gostava mesmo era de folgar e achava todas as coisas de Deus uma chatice sem fim. Sim, e também gostava de desafiar o Senhor. Fazia certas apostas com meus amigos, que vou te contar… Roubava imagens das igrejas, escondia, pregava peças nos padres, invadia os mosteiros, roubava dos pomares, fazia o diabo, meu filho. E a molecada, aqueles meus amigos, se torciam de rir.

Pois é, sim, sim, eles eram uns atentados também, mas nenhum se atrevia a aprontar as coisas que eu aprontava, divertiam-se vendo, me aplaudiam, gargalhavam. E eu adorava ser o centro das atenções, ficava me sentindo grande! Até aquele dia…

Me desafiaram a invadir justo este mosteiro aqui, este mesmo, meu jovem, e trazer daqui qualquer coisa sagrada que fosse, ou mostrar as partes para um monge e sair correndo, bulir com os bichos, fazer algazarra na hora das orações, fosse o que fosse. E eu vim animado, preparado mesmo para satisfazer a molecada e agradar ao diabo!

Então, sabe o pomar? Entrei por aqueles lados, escondido. Os meninos ficaram lá fora, esperando ansiosos. Queriam que eu levasse fruta para eles. Fui entrando e vi o açude, quis me divertir foi ali mesmo, estava um calorão logo cedo! Aí, quando chegasse algum monge eu ia gritar palavrão, fazer gesto obsceno, atentar, você sabe, já viu moleque fazendo isso por esses dias mesmo.

Pulei na água e comecei a me esbaldar, nadava como um peixe, e no meio daquela sensação gostosa de criança se divertindo até cheguei a sentir culpa, acredita? Culpa mesmo, remorso, dor na consciência, meu jovem. De repente me vi chateado de estar ali atentando contra os homens de Deus, eu que sequer O temia, mas fiquei triste. Acho que foi a primeira vez em muito tempo que Deus falava comigo e eu escutava…

Pois veja você como é o demônio. Eu naquela culpa toda, quase desistindo das traquinagens, e eis que vi dois monges vindo lá longe. Aí, a culpa foi-se embora! Me adiantei para chegar à outra margem e correr para eles, pelado mesmo, aprontar o que o diabo achasse melhor, correr de volta pro pomar, apanhar o que eu pudesse de frutas e voltar triunfante para as gargalhadas dos moleques…

Mas aí, o que foi que se deu? Eu como que senti alguma coisa me puxando para baixo, como se eu tivesse pisado num buraco fundo, e foi como se eu tivesse desaprendido a nadar! E aí comecei a me debater desesperado, botava a cabeça para fora, tomar um ar, voltava a afundar, uma agonia! No meio disso, pedi socorro, gritei os nomes de todos meninos lá fora, mas quem diz que fizeram alguma coisa? Hum! Nem mesmo tencionaram me ajudar, ficaram todos lá, paralisados… Grandes amigos!

Pois você veja, meu jovem, que eu achava mesmo que ali era o fim. Estava engolindo água, as forças me faltando, nem gritar já conseguia. E aí me bateu o medo. Aquele, medo, aquele mesmo. Vi o Senhor me olhando triste pelas coisas que eu já tinha feito, a falta de fé, a irreverência, as maldadezinhas todas. E me vi indo direto pro inferno, rapaz, sendo jogado naquele rio de lava sem fim, me afogando lá para sempre! Mas aí, numa última olhada que pude dar pra fora, vi que um dos dois monges vinha correndo disparado. Sim, era ele mesmo, mas não fale não, que ele não gosta. Depois eu explico. Pois bem. Vi aquele monge novinho correndo, andando sobre a água, me puxando, pondo no colo e me levando pra margem, e tudo isso com a maior naturalidade do mundo, como se andar sobre a água fosse coisa corriqueira!

Pois é, naquela hora eu achei que tinha morrido, mas não. O monge me colocou no chão, sorrindo, me deu a bênção, fez o Sinal da Cruz na minha testa, olhou pro céu e agradeceu ao Senhor por ter conseguido me salvar. Aí bateu a culpa de novo. Aquela mesma culpa, só que diferente. Não falei que achei que tivesse morrido? De certa forma, era como se tivesse mesmo. Naquela hora era como se tudo me estivesse sendo revelado, jovem, tudo, tudo. Como se Deus tivesse me dado uma pancada na cabeça e todas as coisas se ajeitassem aqui dentro, aqui na alma. Pois é…

O monge me ajudou a levantar, me levou até onde estavam minhas roupas, me admoestou com aquela doçura própria dele, você conhece. O outro já vinha chegando também, mais sério, uma cara de bravo que dava medo. Esse você não conheceu, mas sabe quem é, o que foi mestre do… Bom, mas vá lá, eu digo, foi ele mesmo, Dom Amaro. É que eu te disse, meu jovem, ele não gosta que a gente fique contando essa história, fica constrangido. Diz que não fez nada, que o milagre foi obra de Deus por intercessão do outro monge, Dom Bento, e que ele só serviu de peão nessa história toda. Pois é, meu caro, pe-ão, é assim que ele se vê nesse episódio, ele mesmo se define assim, veja você! Mas, peão ou não, eu te digo: naquele dia, ele me salvou foi duas vezes! Quando me puxou da água, não foi só o corpo, resgatou também minha alma. Foi quando eu decidi que também queria ser monge.

Deus fala com a gente, meu jovem. Ele fala, e muito. E nessas horas, é a gente saber escutar direito, que as coisas se encaminham. Ih, olha, já são quase vésperas! Vamos?


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