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quinta-feira, 27 janeiro, 2022

Café, terno e gravata

Revista Mensal
Vitor Marcolinhttps://lletrasvirtuais.blogspot.com/
Apenas mais um dos milhares de alunos do COF. Non nobis Domine.

Crônica

Geralmente, uma xícara de café não desperta grandes reflexões no sujeito logo pela manhã. Decidir sobre a quantidade de colheres de açúcar ou de gotas de adoçante é, provavelmente, o máximo de abstração que a xícara de café lhe inspira. Não mais. No entanto, há dias nos quais o utilíssimo recipiente, o familiar e íntimo receptáculo desta tão poderosa bebida, nos dá ensejo para pensar sobre questões que estão para além das meras proporções matemáticas dos dulcificantes — e dos seus respectivos coeficientes de “saúde”.

Não consultei nenhuma enciclopédia — virtual ou não; os grossos volumes da minha Barsa encaram-me, imponentes, desde a prateleira –, mas estou propenso a crer que somente o Brasil ostenta, com franco orgulho, aqueles ramos de café em sua bandeira. Não só. Há também um quinhão de tabaco que, entrelaçado na base com o do café por meio do simbólico laço verde-louro completa a insígnia do Brasil “entre outras mil”. Penso se, em função do fortalecimento da linguagem do politicamente correto, teremos de mudar o brasão da República, ou pelo menos desfalcá-lo.

Já o fizemos quando da mudança de regime; e, naquela ocasião, as forças da “mudança”, desfavorecidas pela opinião pública, tiveram de impor a nova realidade política ao povo “bestializado”. Caiu a coroa e, em seu lugar, colocaram um barrete vermelho; modificaram o escudo, colocando uma estrela no lugar da esfera armilar. Pelo menos no que se refere à realidade vegetal da simbologia nacional, os ramos de café e de tabaco permaneceram. Isto, claro, até que nova revolução identifique-os como inimigos. Mormente o tabaco, que já fora suprimido dos comerciais de tevê, deverá ser, muito em breve, substituído também dos símbolos nacionais.

É justo e necessário pensar sobre o que colocarão no lugar. Preocupam-me essas conjecturas porque, como eu imagino que as revoluções começam primeiro nos campus universitários, vejo que somente poderão substituir a ramada de tabaco por outra que lhes seja mais familiar; que melhor lhes inspire o veio revolucionário. Sorvemos uma xícara de café frio e sem açúcar em sua homenagem. Ouvi de alguém que jamais põe açúcar ou adoçante no café que isto lhe faz bem — não tive o menor receio de expressar toda a minha incredulidade.

Em certa ocasião, ouvi de um senhor que esteve refém das forças cubanas que, se um prisioneiro não quisesse esquecer-se do gosto do café, restava-lhe uma opção: reutilizar a borralha dos dias anteriores. Depois de algumas semanas, a bebida ganhava um sabor característico, um quê de caldo fermentado. Os prisioneiros só abandonaram o hábito de sorver a infecta bebida depois que os guardas, incapazes de suportar o ar pestilento da cela, puseram fora aquela alquimia maligna sob a ameaça dos fuzis.

Recordo-me também de uma história que me fora contada pelo meu professor de violino na adolescência. Seu tio-avô, italiano, não lutara durante a II Guerra porque adoecera; ele permaneceu em casa, cuidando de sua mãe — a tia-bisavó do meu professor — durante todo o conflito. Explosões, tiroteios, sirenes, rasantes de aviões, gritaria e comoventes pedidos de ajuda eram como uma sinfonia diária capaz de enternecer até a surdos e a corações de pedra. O tio-avô do meu professor, sentado à janela, retirava de uma caixinha de madeira um punhado de arroz (sim, pois havia racionamento dos grãos de café) moído e torrado, acendia um cigarro e dizia que seu desejo era morrer fumando e bebendo café.

Uma xícara basta para despertar; no entanto, nunca se deve beber café de estômago desguarnecido. “Nunca beber antes de comer”, era o que diziam os antigos Vikings. Não se sabe se os povos nórdicos conheciam o café, é provável que não; mas esta máxima é válida. Certa vez, numa aula sobre Administração cuja tônica era a psicologia dos candidatos a um certo alto cargo executivo fictício, o professor perguntou qual, dentre um rol de objetos vários, nós seríamos. A mim, se me fosse concedido o poder da transmutação, caberia ser uma xícara de café. “Por quê?”, perguntou o professor, “porque o café representa energia, professor”, fora a minha resposta. Acho que hoje tenho uma compreensão ligeiramente maior desta “energia”. Nota máxima. Só não me tornei um executivo.

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