O Aliança pelo Brasil foi objeto de entrevista da Bruna Torlay com o Paulo Sanchotene. A conversa acabou suscitando diversos questionamentos por quem acompanhou. Essas perguntas não apenas eram interessantes, como tratavam de pontos comuns.

A Revista Esmeril publica uma série com as respostas para essas questões. Para melhor respondê-las, as perguntas foram agrupadas nos seguintes temas: (I) Bolsonaro; (II) Partido de Direita; (III) Ideologia; (IV) Nova República; (V) Esquerda; (VI) Ordem e Liberdade; (VII) Brasil; e (VIII) Miscelânea.

A primeira parte (I e II) pode ser lida aqui. Nesta segunda parte, fala-se sobre as diferenças entre ideologia, fisiologismo, e política; sobre militância e fanatismo; sobre por que o Aliança nasce como um partido verdadeiramente político; e sobre o que deve ser feito para que continue assim.

III. Ideologia, Fisiologismo, e Política: o Aliança pelo Brasil

Partidos políticos não devem ter uma ideologia clara? O problema do fisiologismo não é do fato de os partidos atuais, em sua maioria, não terem ideologia? Por que militantes se comportam como fanáticos? Se o Aliança é contra ideologia, o partido seria a favor do quê? O que faz do Aliança um partido político?

Política não seria uma disputa entre ideologias; mas entre diferentes opiniões políticas. Quando se falou aqui em ideologia, usou-se o termo num sentido específico. Ideologia se assemelha à opinião política por ambas serem visões sobre o bem comum. Ideologia difere da opinião política por não permitir contraponto.

Uma ideologia assegura que seu ideal corresponde à Verdade; não podendo esse ser questionado. O ideólogo não “acha”, mas “tem certeza”. O ideólogo não quer fazer política, mas alcançar seu ideal de sociedade perfeita. Numa sociedade perfeita, não há necessidade de política.

Nesse sentido, um partido ideológico até pode transigir, conciliar, fazer acordos; mas isso seria mera estratégia. Noutras palavras, um partido ideológico pode fazer política; contudo, não seria como fim, para incluir o restante da sociedade na construção do bem comum, mas como meio para a imposição de sua ideologia.

O fisiologista se assemelha ao político por ambos não terem ideologia. O fisiologista difere do político pela ausência de opinião política. Portanto, o defeito do fisiologismo não está na falta de uma ideologia; mas na falta de uma visão sobre o bem comum. Esse é o real problema. O fisiologista participa da política para satisfazer exclusivamente interesses particulares. Não importa qual seja a opinião dominante, o fisiologista a defenderá para permanecer no poder.

Ao contrário do ideológico, um partido fisiológico faz necessariamente política. Não existe o fisiologista revolucionário. Contudo, ainda que partidos fisiológicos tenham a política como fim, o fim almejado não é o bem comum, mas apenas um bem particular. Nesse sentido, o fisiologismo é um mal menor se comparado a ideologia. O fisiologismo é neutro, podendo ser usado a favor da política ou a favor da ideologia.

Infelizmente, essa separação entre ideologia, fisiologismo, e política não é tão clara e direta quanto pode parecer. Essas classificações são fluidas, e tanto indivíduos quanto partidos podem mudar de um para outro no tempo; ou até mesmo agir de um ou de outro modo dependendo da situação específica. Todavia, é preciso conhecê-las para que possamos, cada um de nós, julgar, primeiramente, a nós mesmos e, posteriormente, os demais na prática política cotidiana.

O fanatismo é decorrente da relevância que se dá àquilo pelo qual somos fanáticos. O militante político se comporta como fanático porque se importa. É simples assim. O fanatismo, como o fisiologismo, é neutro. Não é algo necessariamente ruim. Quando o fanatismo é decorrente de uma ideologia (não, necessariamente, uma ideologia política), isto é, quando o fanático toma o objeto de seu fanatismo como o Supremo Bem, somente aí passa a ser um problema; e um problema grave, diga-se.

O Aliança nasce como partido político, tendo, portanto, uma visão de bem comum sobre o Brasil. Igualmente, o Aliança se apresenta como sendo contra ideologias e fisiologismos. Trata-se de uma meta, mas é preciso estar ciente de que é uma luta diária. Não basta falar. Não basta estar nos documentos fundantes.

É preciso agir cotidianamente em favor da política. A prática política interna deve capacitar os membros do partido à prática política com o restante da comunidade brasileira. Para tanto, é necessário SEMPRE:

  • Ter uma opinião sobre o bem da comunidade política;
  • Estar aberto a realidade de essa opinião estar errada nalgum grau;
  • Reconhecer que o bem comum apenas é alcançável com a inclusão do resto da comunidade (incluindo quem já passou e os que estão por vir); e
  • Buscar continuamente conciliar nossa opinião política com a dos outros em prol do bem comum.

O Aliança fora imaginado como um partido brasileiro de Direita formado pela coalizão entre liberais e conservadores. A ideia era criar um espaço em que essas duas forças se opusessem e conciliassem constantemente, ao mesmo tempo em que distintas correntes fizessem o mesmo dentro de cada força. Essa dinâmica se repetiria nos diversos níveis organizacionais do partido: nacional; estadual; regional; local; e especial.

Em suma, no Aliança, a política seria estimulada internamente como método de conter a ascensão de elementos ideológicos e fisiológicos dentro do partido. O sistema de freios-e-contrapesos ainda contaria com órgãos moderadores, fiscalizadores, e de arbitragem. Não seria perfeito. O resultado sempre depende das pessoas responsáveis, mas a tarefa fica muito mais difícil sem uma estrutura desse tipo.

Ainda que o partido não tenha sido estruturado seguindo essa forma, o espírito em favor da política está preservado nos documentos oficiais do Aliança. Isso, por ora, é o mais importante. A estrutura ainda pode vir a mudar.

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