Seis anos após gastos inescrupulosos no mundial da FIFA, governadores lamentam a falta de recursos no falido sistema de saúde

Estamos nos aproximando de um aniversário fatídico para o Brasil. Não, não falamos aqui do sistema de quarentena contra o COVID-19 que já afetou 60% dos pequenos negócios, hoje penando para obter crédito, sobreviver e manter empregos.

No dia 6 de junho de 2014, a revista Exame registrava que o novo estádio Mané Garrincha se tornava o terceiro estádio mais caro de todo o “Planeta Pandêmico”. Informações oficiais apontavam gastos de US$ 830 milhões do governo do Distrito Federal, via financiamento do BNDES.

Em dinheiro nacional, o valor, cotado pelo dólar oficial de junho/2014, ratificava despesas de proporções comparáveis à Grande Muralha: R$ 1.83 bi.

Coisas sobre o Planalto Central

Em 13 de maio de 2015, o site de esquerda HuffPost Brasil anunciava que o já ex-governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz, havia deixado o posto com um rombo de R$ 6,5 bilhões nos cofres públicos. Nessa tempestade perfeita para a falência do DF, funcionários públicos da educação e saúde se movimentavam em greves, sonhando em receber os salários atrasados.

Para ratificar o caos, a revista Carta Capital (igualmente pró-Governo Dilma Rousseff) descrevia um aumento de R$1,2 para 2 bilhões nos ganhos do funcionalismo local, num período de quatro anos. Isto é: desde o final da gestão Lula, o reajuste atingira 40%. Apesar da sangria, nenhum aumento parecia capaz de tapar os buracos no orçamento do governador Agnelo Queiroz.

Por falar nele, ao passar o bastão para seu sucessor, Queiroz começou a ser alvo de diversas investigações. Uma delas, por improbidade administrativa. Cinco anos mais tarde, o ex-governador da capital brasileira seria condenado por cometer pedaladas fiscais – o mesmo crime que levara Dilma ao impeachment.

Goelada atrás de goleada

De volta a 2014, enquanto os jogos da Copa do Mundo eram disputados nas modernas arenas (totalizando investimentos de R$ 31 bilhões), matéria do jornal O Globo apontava que o saneamento básico brasileiro permanecia infectado pelo descaso. Entre os 200 países estudados pela (nada confiável) ONU, a nação que viria cair no mundial por 7 a 1 para a Alemaha aparecia em 112º – atrás, inclusive, da sempre economicamente debilitada Argentina.

Os números recebiam respaldo do IBGE. Em 2008, no final do mandato do ex-presidente – e condenado – Lula, a Pesquisa Nacional de Saneamento Básico revelava que 2.495 cidades se encontravam em situações desumanas, com 33 delas sem qualquer rede de abastecimento de água.

Estaria, então, a saúde atravessando um colapso, sem qualquer ameaça pandêmica?

Além dos números, é preciso observar as condições hospitalares em 2014.

Pouco mais de quatro meses depois do apito final entre Alemanha 1 x 0 Argentina no Maracanã, administrado pelo hoje presidiário e então governador Sérgio Cabral, Brasília penava para atender seus moradores.

Em dezembro daquele ano, o site G1 apontava UTIs fechadas por falta de médicos, enfermeiras e técnicos.

No mês anterior, o retrato do caos era pintado em cores surreais. O mesmo site revelava, em novembro de 2014, que um bebê veio ao mundo sem ajuda de médicos. O parto teria ocorrido em uma cadeira da recepção do hospital de Taguatinga.

O vírus zika mostra suas garras

No país sem saneamento, o que poderia ser pior do que os superfaturamentos comprovados na construção de arenas para a Copa do Mundo? Certamente, um novo vírus poderia ser a resposta. Em 2014, nós também éramos assombrados por um: o zika vírus, uma variante da doença espalhada pelos mosquitos da dengue.

A resposta sobre toda a rota do vírus até sua chegada ao Brasil só viria em 2018, após minucioso estudo da Fundação Oswaldo Cruz.

Na publicação, os cientistas indicavam que o zika teria cruzado nossas fronteiras em 2013, passando por Oceania, Ilha de Páscoa e América Central. Já em 2019, o registro de casos de dengue e variantes atingiria a marca de 1 milhão e meio – a segunda da história, atrás somente de 2015, quando quase mil brasileiros viriam a falecer.

Joana D’Arc tem um álibi

Enquanto o zika vírus cruzava nossos limites, os movimentos populares iniciados com os protestos contra o aumento de 20 Centavos no transporte público de São Paulo, a presidente Dilma Rousseff se emaranhava em medidas desconexas e populistas.

À medida que os levantes aumentavam e se transformavam nas marchas opositoras à Copa com o slogan “educação e saúde padrão Fifa”, Dilma tentava driblar o povo com medidas no mínimo destrutivas para a economia. Para alardear que os cofres públicos estavam OK, Dilma – ou “Joana D’Arc da Subversão”, como o Ministério Público a apelidou nos tempos de terrorismo VA-Palmares – tentou calar a boca dos mais sedentos com uma série de medidas e a promessa de um plebiscito.

Em 24 de junho, a então “mandatária” apresentaria seus novos pactos, incluindo o terceiro, abordando “a melhoria do sistema de saúde do País, acelerando os investimentos já contratados em hospitais, UPAs (unidades de pronto-atendimento) e unidades básicas de saúde”. O kit de promessas parecia robusto, mas provaria ser ralo.

Questionada sobre os investimentos na saúde quando a Copa do Mundo já batia à porta, Dilma contra-atacou: “Defender que os gastos da Copa deveriam ter sido investidos em educação e saúde é um falso dilema. É preciso olhar os dois lados da moeda: a Copa não representa apenas gastos, ela traz também receitas para o país”.

Sim, teoricamente, até que “Joana” estava certa. Porém, após a Alemanha deixar o Brasil com o seu quarto título mundial, os boletos começaram a aparecer. Entre eles, os das incontáveis obras paradas.

Até dezembro de 2019, ainda eram sete incompletas, incluindo gastos de quase R$ 1.5 bilhão com o VLT de Cuiabá. Até o final do ano passado, apenas 6 quilômetros, de 22, tinham sido concluídos. Naquela cidade, vale lembra, fora erguida a Arena Pantanal, precificada em R$ 628 milhões, além dos custos de manutenção mensais de R$ 700 mil.

Corte na saúde, mas nunca na carne

No dia 13 de julho de 2014, o templo do futebol estava como Zico, seu maior goleador, gostava – apesar da imensa redução de espaço, conforme requisitos da FIFA (a OMS do futebol). Na final entre Alemanha e Argentina, conquistada pelo time de Klose, Neuer e Müller, o público mal atingiu a marca de 75 mil pagantes.

Os números, é fato, não chegavam perto do que se gastou nas reformas, fator que levaria à prisão do então governador carioca, Sérgio Cabral, por fraudes em licitações. Cabral, aliás, um dos maiores aliados do PT, seria condenado por um esquema que chegou a desviar mais de R$ 16 milhões da saúde.

Quase um ano após a Copa do Mundo, o Brasil não enfrentava a chamada epidemia do coronavírus. Porém, quando o Ministro do Planejamento de Dilma, Nelson Barbosa, anunciou os cortes do Orçamento para 2015, as cifras desmentiriam as seguras afirmações proferidas por Dilma antes da Copa.

Entre todas as pastas fulminadas pelos cortes que vieram após a farra da Copa, a Saúde seria uma das mais afetadas. O “esforço fiscal”, como foi descrito por Barbosa, levaria quase R$ 12 bilhões das UTIs, cortando compras de respiradores, salários de médicos, insumos e medicamentos  – itens tão necessários para combater o vírus chinês.

Resta a você, leitor, fazer-se a pergunta central: se vivemos um problema, qual é a sua origem?

fim
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1 Comments

  1. Gostaria de saber as causas de terem deletados alguns comentários meus (os últimos), se sequer houve um contraponto de forma a mostrar que meus argumentos são desconexos ou ameaçantes para a agenda que seguem!
    Entendo que quando sou incômodo, o que é supinamente comum, epidêmico até, sempre há manifestações dizendo qual a razão da indignação coletiva. Via de regra o arjumento dos descontentes é um gorgolejar desconexo digno de videotas assistidores de BBB, mas o “silêncio”, medroso até, não é comum! Essa é a razão dessa minha missiva, nesse post que teve texto meu deletado, a não fundamentada desrespeitosa deletada.

    Cri que estava agregando ensinado um pouco sobre epistemológia e sua dinâmica, até a editora chegou a se manifestar, sem apupos ou elogios, mas consciênte que são textos supinamente reflexivos, catalizadores de raciocínio, mas do nada, pow, meus textos sumiram de forma extemporânea!

    Até propagandas tolas foram permitidas, e eu de forma alguma coloquei texto descontextualizado, podem até ter sido escritos cheios de erros agressores do vernáculo, mas não do bom senso e raciocinio.
    Se por alguma razão há algum entrevero com minha pessoa ou meus textos, não seria mais honesto por parte da revista o defenestrar total, a deletação de todos os meus textos?

    Tento decifrar as quimeras esmerilhantes, mas só vejo o devorar e o evacuar de meus argumentos em uma proposta quimérica!
    Se não decifro, que devorem mas evacuem, pois se não ficarão com prisão de ventre, pois sei que sou quimericamente intragável!
    É isso.

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