… é a vara guia do condutor de carros de bois que Luiz Gonzaga eternizou

O padre Alberto, filho de um condutor de carro de bois, sentia-se feliz ao oficiar casamentos que acompanhava até o fim das festas nos terreiros com a mesma alegria que sentia na infância, quando enfeitava o carro e os bois que conduziam noivas e madrinhas até a igreja.

O condutor, ou mestre, ou patrão, antes da jornada examinava todos os arreios, todas as amarras das traves de madeira que uniam os bois pelo pescoço e os mantinham à distância de um metro. Tudo nos conformes, atrelava os animais à carroça e gritava para o filho:

– Ô Berto! Traz a vara de “estou’cagado”!

Além de transportar cana para os engenhos de açúcar no Nordeste, transportavam mercadorias e pessoas entre as cidades e zonas rurais, nos dias de feira. Para os casórios eram transformados em carruagens, cobertas, acolchoadas e enfeitadas com flores, que transportavam a noiva e as madrinhas para a igreja, que nem limusines. O noivo chegava acompanhado dos padrinhos, todos montando cavalos enfeitados com flores, espelhinhos redondos e fitas.

Era bonito de ver, uma festa! Depois da cerimônia, os recém-casados embarcavam no carro de bois que os conduzia ao local da festa, em privacidade, adiantando a lua de mel. Lá na zona rural haviam construído uma casa com auxílio dos familiares e amigos. Tudo simples: quarto, sala e cozinha com paredes de massa de barro misturado com cal e merda de vaca, tudo aplicado á estrutura de varas trançadas. A cobertura de folhas de coqueiro dobradas. Paredes alisadas e pintadas com cal. Portas e janelas feitas de madeira rústica. Um terreiro com galinhas, um pomar com mangueiras, coqueiros, cajueiros e muita bananeira. O roçado já estava esperando o cultivo do feijão, milho, batata doce, mandioca, abacaxi…

No terreiro as mesas com os quitutes e bebidas esperavam os convivas. As bandeirolas coloridas estendidas como teto dançavam alegres ao vento. A festança continuava até o anoitecer ao som de sanfona e violas. Os cães amuados com tanto barulho buscavam um cantinho mais calmo para descansar. No dia seguinte a nova família seguia no ritmo natural da vida.

O carro de bois passava gemendo, na estrada, logo ali. De vez em quando parava no terreiro de um conhecido no meio do caminho. Pequenos com apenas uma junta de bois, maiores com até três juntas. Eram obrigatórias as paradas para servir água aos animais. Ao “patrão” o costume era servir um café ou genipapada. Pequenos com apenas uma junta de bois, maiores com até três juntas. De acordo com o número de parelhas (dois, quatro ou seis bois), era o tamanho da vara de estocar gado, (dois, quatro ou mais metros) para alcançar os bois-guias com o aguilhão que feria as ancas, obrigando o bicho a andar na linha ou no passo.

A autoridade do “patrão” (guia do carro de bois), como dos nossos “guias” atuais, “representantes eleitos”, limitava os movimentos dos bois, com ferroadas para fixar os termos da sua vontade. Igualzinho que nas organizações políticas vigentes, quando a “boiada” obedece silenciosamente a vontade ditatorial, sem tugir nem mugir. O poder se exerce de modo unilateral, interpretando ou ignorando os termos do texto do contrato social que deveria submeter a todos. A nação desinformada conhece a frustração e impotência enquanto recebe as ferroadas do “estado patrão”.A vontade do “estado patrão” – corporações, banqueiros e partidos políticos – ignora a condição humana, a tão cantada ficção da igualdade de todos perante a lei e impõe regras, restrições e divisões da sociedade em classes, que funcionam como as parelhas do carro de bois: os que guiam nas cangas dianteiras, os que fazem força no meio e os que empurram na traseira. Todos recebendo estocadas dos que assumem posição na plataforma de comando nas instituições. Isto é: nega-se a liberdade e expressão da vontade aos indivíduos “encangados” e impedidos de fazer valer, ou discutir os caminhos a seguir. Não há como exigir a lei para todos, sem a viciada “interpretação para os amigos” ou para o bem-estar impune dos poderosos.

Quando as instituições que congregam os grupos sociais envolvidos em atividades dos diversos ramos produtivos são impedidas de agir, sufocadas por restrições burocráticas que facilitam a corrupção, que facilitam os vícios e crimes, as regras acordadas para o jogo perdem a validade. A impunidade impera. E a Constituição, escamoteada e envergonhada, vai para o arquivo. O estado de direito democrático vira fantasia, vira ficção. Era o que o padre Alberto matutava antes do sermão dominical, quando lembrava que a justiça verdadeira era aquela definida por Deus.

Alberto era um padre daqueles que, amando o rebanho, os fazia pensar como os direitos humanos são invertidos e perdem sua face de natureza moral e ética. A justiça utilizava artifícios de interpretação e o que era padrão universal de liberdades responsáveis ficava de cabeça pra baixo confundindo as pessoas. Era mesmo a contramão da vida. Ele percebia e falava sobre a distinção entre o que podia ser aceito ou controverso nas práticas culturais, políticas e econômicas inscritas na Constituição. Os sermões incorretos do padre despertaram a atenção do deputado Gilvan, que mandava na política do município e falou para o prefeito Tadeu:

– Parece que esse padreco é um fora da lei e agitador! Está precisando de um cala a boca!

– É doutor …, mas, que fazer? É da igreja…

– Igreja cuida de almas. A política é que cuida de povo.

– Mas não é a alma que guia o povo?

– Alma quem salva é Deus, mas gente de carne e osso quem dá ordem é quem governa nesta terra. Padre não tem que se meter.

– Ouvi dizer que querem que ele seja prefeito. Aí pode falar, não é?

– Essa eu não sabia… Vou pensar no que fazer. Se ele se candidata vai ser eleito. Vai saber das contas da prefeitura…

– Nem pensei nisso! Vai saber das contas e do dinheiro do virus… Vou falar com o contador.

– É, dá um jeito. Vou arranjar umas notas fiscais de álcool gel com o Renan e mais gente doente com o Dr. Rubens. Temos que arrumar muitas notas fiscais. Pode pagar uns dez ou vinte por cento pra quem colaborar.

– Pode deixar, doutor. Temos um ano de trabalho pra arrumar isso.


É bem isto que se aprecia de bico calado e braços cruzados no Brasil de hoje. Alguns adeptos afetivos dos contos de fadas pensam que as dramáticas transformações culturais que começam nos bancos da escola básica e perpassam toda a sociedade, “vão dar certo, que o país vai bem enfrentando todas as crises da economia mundial”. Como se este país fosse uma ilha isolada dos poderosos interesses de velhos controladores de partidos que aqui operam, na disputa do comando da nova ordem de roubalheira mundial.

Estamos encangados como bois, desde a República desenhada por Deodoro e Floriano. Estamos que nem bois, puxando o carro do bem-estar de uns poucos patrões, “socialistas democráticos”. Só falta unificar a vontade e mudar o nome do movimento político no comando, para consagrar a nova forma de nazismo-comunismo-capitalismo que ensaia submeter todas as nações à nova ordem das nações encangadas.


Quando olhei a terra ardendo
Qual fogueira de São João
Eu preguntei a Deus do céu, uai
Por que tamanha judiação

– Luiz Gonzaga

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fim
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