O capuchinho canonizado em 2002 pelo Papa João Paulo II foi objeto de inúmeros ataques — não só diabólicos.

No início dos anos de 1920, Pe. Pio de Pietrelcina, que nessa época já gozava — a contragosto — de notável fama de santidade para além das fronteiras de San Giovanni Rotondo, se viu no meio de “uma guerra verdadeiramente satânica”, nas palavras do seu biógrafo, C. Bernard Ruffin. Este, no seu livro recentemente traduzido para o português pela Minha Biblioteca Católica, conta que o estigmatizado capuchinho, por carregar em si as marcas das chagas de Christo, por evidenciar o seu amor incondicional para com os seus filhos espirituais e para com todas as almas amarguradas que dele se aproximavam com a esperança de receber alguma graça especial, era frequentemente alvo da inveja dos seus irmãos do clero. As graças alcançadas através da intercessão de Pio de Pietrelcina foram muitas, e igualmente abundante são os registros, os relatos e testemunhos que comprovam a ação divina através do Pe. Pio. Havia um arcebispo, cujo nome era Pasquale Gagliardi, nativo de Tricarico, uma pequena cidade do Sul profundo da Itália, que, movido por pura inveja, empreendeu uma série de ataques, usando de calúnias e difamações contra o capuchinho de San Giovanni.

O arcebispo era contrário a muitas das práticas de devoção dos populares como, por exemplo, as festas que os camponeses simples dedicavam à Virgem Maria. Para ele, a devoção consistia unicamente de “barulheira e disparos de armas”, e pouquíssima “disposição ou sentimento interior”. O alto vigário era contrário também às manifestações de homenagens que estes mesmos populares faziam a Pe. Pio. O fato de centenas de pessoas peregrinarem até San Giovanni Rotondo para confessar com Pe. Pio e comungar em uma Missa celebrada pelo Santo, na qual tinham a oportunidade de ver as estigmas em suas mãos era, para o arcebispo Gagliardi, inaceitável. Consumido pela inveja, o membro do alto clero passou a escrever cartas endereçadas à Santa Sé recheadas de conteúdo calunioso contra Pe. Pio. Gagliardi dizia que o capuchinho mantinha contato inapropriado com as mulheres suas filhas espirituais; estas, nas palavras do arcebispo, infamemente pernoitavam no quarto de Pe. Pio com ele!

Pasquale Gagliardi, na ânsia de combater a devoção superficial e a idolatria, considerava o humilde membro da Ordem dos Frades Menores Capuchinhos um produto da superstição de camponeses ignorantes e crédulos que foram encorajados por pessoas inescrupulosas, tanto dentro quanto fora do convento, com o único propósito de atrair negócios e dinheiro para a região miserável de San Giovanni. Afirmava com veemência que os milagres atribuídos a Pe. Pio eram inventados para ganhar dinheiro. Gagliardi escreveu inúmeras cartas com esse teor endereçadas à Santa Sé e ordenou a muitos outros padres, que estavam sob a sua autoridade arquidiocesana, a fazerem o mesmo, ajudando-o no combate contra o capuchinho. Pe. Pio muito sofreu. Contudo, ainda por volta dessa mesma época, início dos anos 1920, sucedeu algo extraordinário ao arcebispo Pasquale Gagliardi. Deixemos o biógrafo do Pe. Pio, C. Bernard Ruffin, nos contar:

“Gagliardi, que se encontrava em Vieste para pregar, celebrava a Missa numa capela lateral na noite de 15 de maio, quando uma turba de seiscentos homens, mulheres e crianças invadiu a capela e o atacou com pedras e tijolos. Tomando seu missal e patena, lançaram-nos contra ele, e o derrubaram no chão, sob socos e pontapés, até que vários padres intervieram, arrastando Gagliardi para outro cômodo e fechando a porta. A polícia chegou e escoltou o arcebispo para fora da catedral, mas a multidão foi para as ruas, invadiu a escolta, e novamente derrubou Gagliardi no chão, agora exigindo sua castração. Ganhava força o grito de: ‘Cortem o seu…!’. Uma multidão de mulheres que brandiam facas e tesouras venceu a barreira policial e começou a rasgar a roupa do arcebispo. Antes que pudessem realizar as alterações anatômicas desejadas, um contingente de soldados chegou para salvar Gagliardi da mutilação”.

“Parece que havia mais coisas a alimentar o ódio mortal do povo pelo arcebispo do que sua condenação da devoção supersticiosa. Emmanuelle Brunatto, em meados da década de 1920, reuniu um dossiê considerável sobre Gagliardi, que continha denúncias de inúmeros padres e religiosos da arquidiocese. Os membros de um determinado convento das Irmãs Clarissas reclamaram que Gagliardi entrava em certas ocasiões no claustro para passar a noite com uma sobrinha da abadessa. Um padre insistiu que surpreendera o arcebispo na cama, nu, com outra freira. Além disso, era amplamente conhecido que outros clérigos viviam abertamente com suas amantes sob o conhecimento do arcebispo”.

— C. Bernard Ruffin.

Pior do que isso: descobriu-se que o danado do Gagliardi protegia sacerdotes que molestavam crianças! Ele impediu que um padre, acusado de barbarizar um garoto, permanecesse na prisão, mesmo depois de condenado. Prestar atenção às sutilezas da condição humana nos dá a oportunidade de observar que a realidade nem sempre é misteriosa, que muito do que é aparentemente difícil de perceber pode ser facilmente entendido quando, por exemplo, observamos a situação através de uma perspectiva psicológica. Nesse caso, a veemência dos ataques do arcebispo contra o Pe. Pio era um monumental reflexo das suas próprias ações.


“Chame-os do que você é, acuse-os do que você faz.”

— Lênin.

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