Pelo Twitter, ex-agente da NSA defende Glenn Greenwald e chama atitude do MPF de “Indefensável”. Claudio Dirani investiga contradições

Em 2013, o ex-agente da NSA (Agência Nacional de Segurança dos EUA), Edward Snowden, não apenas renunciou ao cargo como decidiu roubar uma quantidade considerável de arquivos sigilosos de propriedade do governo norte-americano. Já sabendo de sua violação, Snowden não teve outra opção a não ser fugir dos Estados Unidos rumo à Rússia, onde permanece exilado há mais de 5 anos.

Dados vazados de presidentes “suspeitos”

Entre as “revelações” de Snowden vieram a público informações concretas de espionagem a diversos presidentes sul-americanos. Entre eles Dilma Rousseff (dois anos antes do impeachment por pedaladas fiscais), Evo Morales (renunciou à presidência boliviana em 2019), Nicolás Maduro (investigado pela ONU por violar direitos humanos na Venezuela) e o ex-guerrilheiro Daniel Ortega (acusado de cometer crimes federais na Nicarágua).

A lista de vazamentos ainda contava com Cristina Kirchner (investigada na Argentina por corrupção em cerca de mil casos).

Todas as operações, antes classificadas como secretas pela NSA, chegaram às mãos de jornalistas. Nesse grupo selecionado por Snowden, se destaca Glenn Greenwald, do site The Intercept. A dúvida que paira sobre essa história controversa de traição para muitos e “heroísmo” para outros é apenas uma: Se Snowden considera espionagem governamental abusiva, porque saiu em defesa do amigo Greenwald, envolvido em situação com contornos semelhantes?

Snowden ataca o “governo Brasileiro

Há duas semanas, Greenwald e mais 6 suspeitos de integrar um grupo de hackers foi denunciado pelo Ministério Público Federal por crimes ligados à invasão de celulares de autoridades brasileiras, incluindo Sergio Moro e procuradores da República.

A decisão de Wellington Divino de Oliveira, do MPF (órgão independente do poder executivo), foi recebida com já esperada indignação por Glenn Greenwald e ecoada por alguns membros do meio jurídico. Entre os contrariados pela denúncia, o ex-corregedor do Conselho Nacional de Justiça, Gilson Dipp.

Dipp, aliás, já servira como consultor em matérias sobre a prisão de Lula, repudiando provas e decisões de seus colegas. Em 2018, Dipp se manifestou a favor ao ex-presidente – figura central das supostas mensagens vazadas por Greenwald: “O imbróglio sobre Lula incita os cidadãos a um total descrédito com a Justiça”.

Já o exilado Edward Snowden pegou carona no clima da Vaza Jato e afirmou que as acusações contra o jornalista do Intercept “eram falsas” e que o MPF, sim, havia praticado corrupção.

Gilmar Mendes x Sergio Moro

Em agosto de 2019, o ministro do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, concedeu uma liminar que praticamente dava superpoderes para Greenwald. Em sua cautelar, Mendes apontou que o suposto jornalista americano “não poderia ser investigado ou ser responsabilizado por informações publicadas na mídia – ainda que não conformadas. A justificativa de Mendes se baseou, segundo sua decisão, “na proteção do sigilo constitucional da fonte jornalística”.

Dois meses depois, Mendes foi ouvido pelos jornais brasileiros sobre possíveis irregularidades cometidas por Moro na apelidada como “Vaza Jato”. O ministro não teve papas na língua. Além de afirmar que o atual ministro da justiça e segurança pública trabalhou como “Chefe da Força-Tarefa da Lava Jato” no caso do Triplex do Guarujá, ele ironizou, apelidando Sergio Moro de “coaching de acusação”.

Moro respondeu de forma indireta: “– Além de sempre ter tratado o STF e seus ministros com todo respeito, tenho a consciência tranquila em relação aos meus atos, tanto é que não tenho nenhum problema em ir a locais públicos, inclusive estádios de futebol”. A ironia de Moro, apesar de não citar nomes, se referia aos protestos populares contra o próprio Gilmar Mendes em locais públicos.

A rivalidade entre Mendes e Moro, como é sabido, não é atual. Em junho de 2019, o ministro da Suprema Corte já defendia a saída de Lula da cadeia até que fosse julgada a prisão em segunda instância.

O revés de Mendes chegaria meses depois. Cortesia do MPF.

Bate-papo revelador com um hacker

Após extensa apurações sobre os vazamentos de supostas mensagens de autoridades, o MPF decidiu ignorar o STF. Em sua denúncia, o órgão revelou que havia descoberto em um HD uma conversa entre Glenn Greenwald e Luiz Molição – um dos hackers ligados a Walter Delgatti e Thiago Eliezer Martins Santos – supostos chefes da operação de espionagem.

Um dos trechos desse bate-papo suspeito inclui o seguinte diálogo:

GLENN GREENWALD: E nós vamos deixar muito claro que nós recebemos tudo muito antes disso, e não tem nada a ver com isso, entendeu?

MOLIÇÃO: Uhum. Mas o que acontece? O que eles tão falando também é que o celular, ele foi hackeado. Não! O que a gente faz é pegar o Cloud do Telegram. A gente não pegou nada do celular.

Em seu protesto contra a denúncia feita pelo ministério público, Edward Snowden afirmou que as acusações contra o amigo Glenn eram “indefensáveis, inaceitáveis e inacreditáveis”. A opinião do americano talvez coincida com sua decisão de não mais atuar para o governo – arrependimento que o levou ao exílio na Rússia. Faz sentido. A contradição de Snowden aparece quando, certa vez, ele se mostrou indignado da forma em que as pessoas eram espionadas. No livro de sua autoria, Eterna vigilância: Como montei e desvendei o maior esquema de espionagem, Snowden justifica sua saída da NSA, onde entrara em 2006, apontando ter “detectado o sistema de vigilância virtual mais completo do mundo”, o que o ex-agente considerou abusivo.

Usando a mesma prerrogativa, a ação dos hackers supostamente comandados por Glenn Greenwald não teria sido, da mesma forma, abusiva?

Fim
Revista Esmeril – 2020 – Todos os Direitos Reservados

Gostou da matéria? Assine nossa Revista mensal aqui.

Leave a Comment

O seu endereço de e-mail não será publicado.

This div height required for enabling the sticky sidebar
Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views :