A Exemplar Família de Itamar Halbmann, novela de Diogo Fontana, eterniza os modos e a psique do revolucionário moderno

Diogo Fontana fez sua estréia literária com uma novela chamada A exemplar Família de Itamar Halbmann, publicada em 2018 pela Danúbio Editora. O retrato naturalista dos brasileiros, cuja notável prosperidade é inextrincavelmente atrelada à estratégia gramscista de ascensão ao poder, foi ali eternizada em prosa literária de primeira ordem.

Talvez os petistas de luxo não leiam a novela com muita alegria, como tende a ocorrer às pessoas coerentes, ou alheias ao curioso mundo onde vida prática e opiniões políticas foram feitas para se contradizer.

O revolucionário de condomínio de luxo; ou da Barra da Tijuca; ou das casas de esquina do Jardim Paulistano; ou que tem como objeto de desejo o apartamento de um andar no corredor da Vitória; esse tipo humano terá na leitura menos um passatempo que um inesperado confronto diante do espelho.

Balzac não se dizia um novelista, mas um “historiador de costumes”. E assim apresenta Diogo Fontana o resultado de seu primeiro romance, que faz jus à máxima de Balzac evocada em epígrafe: “Fiz melhor do que o historiador porque sou mais livre.”

De fato, é um tipo humano próprio a um momento da história brasileira que o escritor redesenha, como afirma no Prólogo:

Tentei, a princípio, fazer um exercício de imitação de estilo, emulando deliberadamente a escrita de Balzac, e percebi, ao longo do tempo, como a forma balzaquiana era perfeita para o meu objetivo maior: fixar no papel um tipo humano com o qual me confrontei várias vezes durante o início da minha vida adulta, um espécimen fácil de encontrar no meio jurídico e universitário, o petista milionário, que vive do capital alheio, profere um discurso radical, mas não se furta de adotar os valores e o estilo de vida burguês.

O desembargador; a professora universitária em regime de dedicação exclusiva; o editor de livros feitos obrigatórios por algum edital, portanto, necessariamente bem-sucedido, a despeito da quantidade de leitores reais; o advogado trabalhista de sucesso; o fundador de faculdades privadas criadas para reproduzir (com lucro, graças à velha mão amiga do FIES) o ambiente intelectual da universidade pública.

O cargo repleto de privilégios; o universo dos supersalários; o cotidiano das facilidades “conquistadas” pelo favorecimento; o sumo encaixe entre o desejo de felicidade e prosperidade próprio a qualquer ser-humano sobre a terra e a sociedade patrimonialista brasileira no preciso momento em que se viu nas mãos de uma oligarquia em especial, a esquerdista — sem a benção ou participação do povo, como é costume nas repúblicas de fachada, lugares marcados pela vontade dos eventuais donos do poder.

Esse é o universo milimetricamente registrado pela pena sensível de Diogo Fontana. Sem gota de julgamento, mas com uma enxurrada de detalhes que tornam inconfundível o alvo de sua investigação antropológica — registrada na prosa límpida dos escritores competentes, para felicidade geral do público.

Embora o material do romance seja a alma daqueles que, há décadas, fazem do Brasil um lugar pior, o resultado é fruto de atenção à realidade e exercício de lucidez, exprimindo exatamente aquilo que faz do ser-humano um sobrevivente, em meio aos naufrágios permanentes promovidos por sua loucura.


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