O autor do poema “Vou-me embora pra Pasárgada” é elogiado por sua resistência às “panelinhas ideológicas” no âmbito cultural

Nesse mesmo dia há 135 anos nascia, na capital de Pernambuco, Manuel Carneiro de Souza Bandeira Filho no seio de uma abastada família de proprietários rurais, advogados e políticos. Pelos seus recursos materiais e intelectuais, Manuel Bandeira levou uma vida muito ativa: ainda na infância transfere-se para a então capital da jovem República, o Rio de Janeiro, onde ingressa no Colégio D. Pedro II. Pouco depois, de regresso ao Recife, começa a escrever os seus primeiros versos, sem a pretensão de ser poeta. Na adolescência, Manuel Bandeira viaja para São Paulo com o objetivo de estudar Arquitetura na Escola Politécnica. Aos 27 anos, Bandeira, para tratar-se de uma tuberculose, passa uma temporada na Suíça, onde conhece o poeta francês Paul Éluard através de quem fica a par das inovações artísticas na Europa.

De volta ao Brasil, Manuel Bandeira, já escritor assumido, imprime na sua poesia toda a influência dos diálogos com Paul Éluard sobre a técnica do verso livre. Em 1917, aos 31 anos, Bandeira publica seu primeiro livro de poesias: “A Cinza das Horas“, onde revela influências dos movimentos Parnasianismo e Simbolismo. Seu ingresso efetivo no movimento Modernista acontece com a publicação de “Carnaval“, em 1919. Durante as celebrações da Semana de Arte Moderna de 1922, Ronald de Carvalho, literato e político — autor de diversos estudos sobre Literatura, dentre os quais a “Pequena História da Literatura Brasileira” — lê, para a plateia reunida no Theatro Mvnicipal de São Paulo, o poema de Manuel Bandeira “Os Sapos”, e causa tumulto por ironizar o movimento Parnasiano.

Em 1924, Bandeira publica “Ritmo Dissoluto” e, no ano seguinte, aos 39 anos de idade, passa a contribuir com o gênero Crônicas nos jornais; onde escreve também críticas sobre as artes do cinema e da música. Sua obra carregada de um modernismo explícito, “Libertinagem”, sai em 1930. Oito anos depois Manuel Bandeira é nomeado professor de Literatura do Colégio D. Pedro II. E, finalmente, em 1940, ele é eleito para ocupar a 24ª cadeira da Academia Brasileira de Letras. O imortal foi nomeado também para a cátedra de Literatura Hispano-Americana da Faculdade Nacional de Filosofia. Em 1957, Manuel Bandeira passa uma estadia de quatro meses na Europa e, nove anos depois, ao completar o seu 80º aniversário, ele publica “Estrela da Vida Inteira“. São temas frequentes na sua poesia o cotidiano, a solidão, a infância, a paixão pela vida, o erotismo, o amor e a morte.

O crítico literário Rodrigo Gurgel, autor de estudos importantes como “Esquecidos & Superestimados” e “Percevejos, Ideólogos — E Alguns Escritores“, tece alguns comentários sobre o poeta pernambucano no qual ele diz que Manuel Bandeira é, na sua opinião, “o poeta mais completo que nós temos“. O professor Gurgel explica que Bandeira foi um artista consciente das possibilidades da poesia. “Ele tem consciência do que é o fazer poético, Bandeira conhece as formas, a sintaxe; ele é um estudioso da língua e da literatura“, diz o professor. Rodrigo Gurgel explica ainda que o ensaio autobiográfico do poeta recifense, “Itinerário de Pasárgada“, publicado em 1954, “é uma história de como a poesia nasce na vida de alguém”. Manuel Bandeira era dono de uma autoironia muito evidente, tinha a capacidade de escrever poemas de humor e era também muito sincero. Ainda segundo o professor Gurgel, Bandeira tinha uma rara coragem [do tipo que não se vê mais hoje em dia] para chegar num grande jornal, para o qual ele escrevesse crônicas, por exemplo, e dizer: “Esses modernistas estão caceteando, todo mundo escreve do mesmo jeito; voltemos um pouco para a sintaxe portuguesa“. Nós perdemos essa liberdade da qual Manuel Bandeira foi um grande representante, hoje temos sempre a preocupação em agradar alguma “panelinha“.

Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconsequente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcaloide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.

Com informações do site Infoescola e do site do professor Rodrigo Gurgel.

“Vivo nas estrelas porque é lá que brilha a minha alma”.

Manuel Bandeira.

Gosta de nosso conteúdo? Assine Esmeril, tenha acesso a uma revista de alta cultura e ajude manter o Esmeril News no ar!

Leave a Comment

This div height required for enabling the sticky sidebar