O livro, uma reunião de três ensaios de Gustavo Corção, levou o poeta Manuel Bandeira a indicar o autor para o Prêmio Nobel

É possível que, julgando o livro não pela capa mas pelo título que nela vai exposto, o leitor atento e talvez familiarizado com as obras de caráter combativo, entregue-se à tentação de acreditar que este é mais um dos livros que se propuseram a defesa dos altos valores da religião e da civilização. Não. Este não é um livro que mascara um possível ressentimento sob a beleza das formas. Manuel Bandeira, que entendia de forma e conteúdo, disse que as palavras ali registradas pelo Corção deveriam ser traduzidas para todas as línguas. Um livro meramente combativo, ainda que o pleito do combate fosse justo e necessário, não teria o poder de levar o poeta a esta declaração.

Os três ensaios reunidos sob o título de O Desconcerto do Mundo são meditações. O poeta, que tem como hábito o cultivo das coisas elevadas, das coisas sublimes, das coisas transcendentes, não desejaria ver um livro apologético, um livro que ensejasse a defesa contumaz de qualquer coisa, traduzido “para todas as línguas” se este não contivesse algo de espiritual. No livro, Gustavo Corção dedica-se ao trabalho de analisar a natureza deste desconcerto. E ele o faz desde o cimo dos ombros de três gigantes: Luís de Camões, Eça de Queiroz e Machado de Assis.

É da obra do primeiro grande escritor, inclusive, que Corção empresta o título que coroa os seus ensaios:

“Quem pode ser no mundo tão quieto,

Ou quem terá tão livre o pensamento,

Quem tão experimentado e tão discreto,

Tão fora, enfim, do humano entendimento

Que, ou com público efeito, ou com secreto,

Lhe não revolva e espante o sentimento,

Deixando o juízo quase incerto,

Ver e notar do mundo o desconcerto?”

— Camões, Oitava 3, Lírica

O propósito desta resenha é dar ao leitor um sabor prévio do que ele poderá descobrir com a leitura de O Desconcerto do Mundo. Embora eu seja tentado, não posso meter-me a tentar reduzir o conteúdo do livro nestas poucas linhas que aqui vão. Por isso, a resenha termina aqui. Mas, não sem antes acrescentar que o autor dos três ensaios, quando fala sobre Machado, lança luz em pelo menos duas questões sobre a sua vida que têm alimentado inúmeras discussões — úteis ou não. Posso dar uma pista da primeira e mais importante questão antes do ponto final desta matéria: embora a faceta cética do bruxo do Cosme Velho seja a mais evidente, Corção nos convida a olhar para a outra, para a do crente. Descubra.

Capa da 2ª Edição do livro pela Vide Editorial Editora, 2019. A primeira edição fora publicada pela Editora Agir, em 1965.

“Você escreveu em O desconcerto do mundo um dos livros mais belos e mais fortes de nossas letras. Ele precisa ser traduzido para todas as línguas, a fim de mostrar lá fora que nós também somos dignos do Prêmio Nobel”.

Manuel Bandeira.

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