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domingo, 5 dezembro, 2021

Quem você pensa que é?

Revista Mensal
José Anselmo Santos
O autor é cristão, conservador e originário de Sergipe. Em seus 80 anos conviveu com pobres e bilionários, párias e homens notáveis. Autodidata e ávido leitor, na juventude conheceu parte do norte africano e alguns países europeus, coletando as diferenças e similitudes entre os povos e nações. Visitou cenários de guerra e na condição de clandestino político completou suas viagens pela América Latina e Caribe. Entre os anos 71 e 2008, trabalhou como consultor de dezenas de empresas, foi treinador de pessoal, especializou-se em PNL ao nível de Master e desenvolveu programas de liderança empresarial. Depois disso tem-se dedicado a criar textos, documentando suas visões de mundo e transfigurando a memória afetiva.

Diálogos da infância. Do patriotismo às guerras, do questionamento à supressão pela autoridade

Nasci quando começava a segunda guerra mundial. Um primo de papai, que servia ao Exército lá no sul, tinha embarcado para a Itália, a mando de Getúlio, para “defender a democracia”. Queria ser padre e morreu na guerra. Os países do mundo ocidental de cultura e fé cristã uniram-se aos ateus comunistas para brigar matar alemães e italianos também cristãos e matar  japoneses que viviam do outro lado do mundo, com outra religião e com habitantes tão parecidos uns com os outros que olhando a cara de um a gente não distinguia quem era o outro. Aquilo era uma incoerência. A gente aprendia dos Dez Mandamentos, regras éticas e morais que garantiam a “salvação eterna”: Não matarás!

O governo mandava e os soldados abandonavam as famílias pra sair pelo mundo matando adoidado!

Das conversações dominicais entre meu pai e Barretinho, ficaram gravadas no meu cérebro as dúvidas que somente na maturidade começariam a dissipar-se. Alguém estava direcionando a mente dos humanos para o engano, para o divertimento trivial. Um “alguém” que andava encapuzado, nas sombras. E quando outro alguém expunha o nome e endereço dos fabricantes de guerras e crises, a imprensa oficial rotulava em uníssono que era mais uma “teoria da conspiração”.

Difícil dizer que existia uma conspiração. Mas as decisões governamentais confirmavam tudo quanto os governantes negavam. Ano após ano: guerra, genocídio, enfermidades criadas em laboratório, programas de redução da população, corrupção envolvendo banqueiros, empresas e governantes, crises econômicas, desconstrução das culturas nacionais, intervenções brancas de estados poderosos sobre estados “devedores”, ou em outras palavras: nações ditas “civilizadas” submetendo e explorando o mundo dito “subdesenvolvido”. O mais espantoso é que tudo estava descrito, antecipadamente documentado em livros e profecias e a gente pensava que era mentira e exagero.

A gente aprendia sobre o Brasil, “país do futuro” e ficava sem saber como era ser livre no momento, sem dar trelas ao governo, podendo recusar-se a morrer nas guerras. Pensando nisto, falei com a professora Antonieta e ela me respondeu do alto da sabedoria e dos sapatos:

Quem você pensa que é? Todos, temos o dever de cumprir as normas e servir à pátria.

– Mas professora… A guerra não é aqui.

– Defendemos a democracia, defendemos nossa religião… Você vai crescer e entender. E lembre-se que hoje temos ensaio, Caramurú!

(A coisa de esperar crescer para entender também me foi repetida por papai. Eu era mesmo um ignorante metido a sabido! E ia fazer o papel de Caramurú, o portuga Diogo Álvares Correia, um náufrago que se salvou de ser comido pelos meus antecedentes tupinambás, dizem que encenando poder tocar fogo na água… Era álcool! Ou que disparou um tiro assustando a tribo… Deu sorte! Juntou-se com uma tupinambá morena, formosa e teve muitos filhos.)

Naquele mundinho todas as mentes estavam atentas e obedientes ao papel do estado e das religiões. Na esteira da Revolução Francesa, as cortes do hemisfério norte, cuja influência e poder de persuasão religiosa ou guerreira estavam espalhados por todo o planeta, decidiram separar as figuras de governo. Mas Deus continuava mandando no pedaço e o padre Adriano o representava com autoridade sobre todos e cada um. A religião com poder sobre o espírito impunha-se sobre o poder material.  Para o rebanho humano da minha infância, religião e poder eram faces de uma mesma moeda.

Sabíamos da guerra, mas o interesse imediato era a festa da padroeira, com novenas e com a apresentação dramática no palco do Teatro Municipal, um presente de Getúlio à cidade. Fui vivendo e crescendo sedento de saber mais

Queria porque queria saber já! Uns matavam e iam presos, outros não. No livro da História do Brasil estava, as gravuras dos nativos vestidos com penas coloridas, outros seminus com uma tanguinha, soldados e caravelas portuguesas, gente com uns nomes gozados, Cabral, Caminha, Nassau… E muita briga e índio morrendo, briga aqui, briga ali e mais índio morto. Franceses, holandeses e portugueses levando ouro e diamantes e pau Brasil para o outro lado do mar. O rei de Portugal que se considerava dono da metade do novo mundo, vivendo a tripa forra e dando pedaços da terra que não era dele, pra meia dúzia de apaniguados. Sim, porque se a gente acha uma coisa no meio do caminho, tem de procurar o dono e não ir embolsando ou dando pra outros… Mas não!… O rei mandou os soldados tomarem conta de tudo. E mandou padres que rezaram missas na praia como se Deus abençoasse a matança e roubalheira que eles estavam fazendo. Naquele tempo eu pensava:

Deus é bom demais! Se fosse eu, mandava era capar aqueles safados…

Aos poucos uma pulga atrás da orelha começou a soprar que os papéis de propriedade e a matança sem punição, andavam juntos, servindo a uma lei desconhecida, à qual todo mundo era obrigado a obedecer, calar e botar o rabo entre as pernas pra não morrer. Tudo começado naquele tempo em que os soldados do rei de Portugal garantiam a posse e propriedade de tanta terra quanto a meia dúzia de compadres do rei quisessem. À custa de matar os nativos indefesos.

Foi assim que as terras chegaram, passando como herança de geração em geração, nas mãos do coronel Canindé, que só era coronel mesmo da tropa de jagunços. Coronel de Getúlio Vargas. A família Canindé devia ser aparentada do rei no passado, pelo tanto de terra, tanto de cana, tanto de gado e mais o engenho que possuía. E os filhos dele mandavam e desmandavam tanto, faziam e desfaziam, deixando todo mundo de bico calado. O que era lei pra todo mundo, não valia pra família dos Canindé. Prenderam Nestor e não prenderam Ismael Canindé. Ambos haviam matado as mulheres por questão de honra. Honra de corno? E justiça com duas caras. Servindo ao corno rico diferente do corno pobre. 

As páginas informativas mostravam imagens dos portugueses navegando na lonjura africana, naquelas terras do outro lado do oceano, carregando no fundo dos navios um monte de gente preta, acorrentada durante meses, balançando nas caravelas e comendo pão e água, muitos morrendo de fome, febre e caganeira, antes de chegar aqui. Aquela gente era vendida como se vende cavalo, pelos reis das tribos africanas. Quem se salvava da morte na travessia era obrigado a trabalhar para os amigos do rei, no cabo da enxada de sol a sol, sofrendo na ponta do chicote se parasse pra descansar um pouquinho. E de tanto apanhar e morrer de castigo e tiro, aquela gente começou a fugir para as matas.

Os padres que diziam falar e ensinar o que Deus mandou, estavam do lado dos portugueses e dos soldados, afirmando que aquela gente preta não tinha alma, era que nem burro de carga. Padres e portugueses pareciam acreditar e defender um Deus que só pensava em castigo. Padres e portugueses viviam fantasiados, como se a vida fosse um carnaval, comendo e bebendo, ficando pançudos, balançando em redes pra lá e pra cá no bem bom, tomando fresca na preguiça, dando as cartas e traçando as regras que bem queriam. Quem não dançasse conforme o que eles cantavam era matado.

Em mais de 400 anos pouca coisa havia mudado. Multiplicaram-se os coronéis donos das terras. E o governo mandava gente pra morrer na guerra. As leis salvavam os   cornos homicidas de ir para o xilindró alegando a tal “honra”. Muita gente ainda passava fome… Até o padre Adriano ensinava que quem não sofresse não ganhava o céu. Fechei o livro e decidi fugir daquela complicação. Ia pra mata, viver no isolamento dos nativos.

Pedi ao meu tio Zeca, que era carpina, pra me fazer um arco e umas flechas de pau de goiabeira. Um arco bem bom, que eu ia me embrenhar no mato. Não queria ir pra guerra, ser obrigado a matar gente que nem conhecia e que certamente era filha de Deus que nem eu, mesmo que fosse de vida errada que nem os portugueses que chegaram nas caravelas a mando do rei.

Treinei vários dias no fundo do quintal atirando flechas contra as bananeiras. Juntei umas bolachas, um pão com manteiga, canela e açúcar. Convidei meu amigo Zé Virado e ele respondeu:

Ôxente! Você’stá doido!…

Zé Virado não entendia. Fui sozinho, de manhãzinha depois de passar pelo curral e tomar duas canecas de leite com mel. Pela beira do rio ouvindo os passarinhos, comecei a cantar pra espantar o medo de bicho grande e os passarinhos silenciavam pra me ouvir. Parava de cantar e eles começavam. Era como uma conversa em que eu não entendia o que eles diziam nem eles a mim.  Caminhei, caminhei, agarrando a trouxinha com o fumo de rolo pra me defender e fazer amizade com os caiporas. Não encontrei nenhum índio. Nem caipora. Senti fome quando pensei no cheiro de feijão cozinhando com jabá. Comi as bolachas e o pão, bebi água do rio e fiquei ali sentado debaixo de uma ingazeira olhando a correnteza, naquela sombra gostosa. E se chovesse? Tinha me esquecido de levar fósforos, mas tentei tirar fogo das pedras. Não saiam fagulhas suficientes pra formar o lume nas folhas secas e gravetos. Tentei fazer como faziam os nativos rolando um pauzinho entre as mãos, a ponta apoiada num pedaço de galho seco. Não deu certo. Os livros também ensinavam umas potocas! Melhor voltar pra casa, crescer e aí ver o que fazer. 

A Santa Missão acontecia uma vez por ano com a chegada de frades que durante uma semana faziam sermões, visitavam as casas, batizavam e celebravam casamentos por atacado. Nos sermões convidavam a gente pra confessar os pecados e se arrepender. A gente precisava se preparar para o dia do juízo final. Principalmente a gente sem juízo.

Papai dizia que os tabaréus nem se enrolavam na cama com as mulheres naquelas semanas tão santas, temendo um castigo.   O frade barbudo pregava ameaçando os pecadores. E os devotos amontoados na praça, a mor da língua enrolada do frade, entendiam pescadores, sem atinar porque pescar merecesse o castigo de queimar no fogo dos infernos, se o mesmo Jesus, quando viveu, andava junto com os pescadores. Foi aí que seu Namô gritou:

Deixar de pescar é que eu não vou… Esse frei deve ter bebido vinho da missa o mais da conta.

Todo mundo caiu na gaitada. O frei esperou o silêncio, limpou o suor da cara redonda com a manga do hábito, tossiu e sentenciou:

Isto são partes de um cachaçudo!

A gaitada dobrou enquanto o pregador, rindo também, acenava com a mão pedindo silêncio.

E o sermão continuou com ameaças às crianças que cometiam pecados contra a pureza.  Não entendi o que tinha a ver a Pureza com pecado, uma moça tão boa, tão respeitadora, filha de Maria, costureira de mão cheia, que fazia as calças curtas usadas pelos meninos e as calças compridas quando a gente começava a virar homem, depois da primeira comunhão. O que será que tinha a Pureza a ver com o pecado? Era de acreditar mesmo que os frades da Santa Missão não sabiam direito o que falavam. Mas se enchiam de cobre, vendendo bentinhos e medalhas de N. S. do Carmo, terços, livrinhos de orações e de quebra distribuindo aquelas gravuras coloridas de santos que acabavam como marcadores de livros escolares e missais.

(Perguntei ao sacristão, seu Miro, o que era aquele negócio de pureza e ele me disse que puro era quem não andava fazendo safadeza fosse sozinho ou com mulher. Puro era sem pecado. Pecado estava ligado ao sexo, matar, roubar, mentir…)

Depois da Santa Missão, papai comprou uma vitrola e meia dúzia de discos, presente de aniversário para mamãe. Após a refeição vespertina, sopa, fruta e pão, minha tarefa era acender a lâmpada de carbureto, um avanço tecnológico. Colocava-a em cima do murinho do jardim e abaixo, na calçada as duas cadeiras de vime e a mesinha com a vitrola. Papai e mamãe sentavam-se ali para tomar a fresca da noite e jogar conversa fora com os amigos vizinhos. Quando havia plateia suficiente, ele dava corda na vitrola, colocava o disco, destravava o prato e baixava o braço com a agulha, para ouvir-se Luiz Gonzaga cantando

“ôi pisa o milho, pener’ô xerém,

eu não vou criar galinha

pra dar pinto pra ninguém…”

Enquanto o bando de crianças corria ali perto, brincando de cipozinho queimado e outros jogos infantis. Numa dessas, eu, Daizinho e Zé, entramos em casa para beber água e Tina também foi. De volta, nos sentamos cansados da correria no chão da varanda, na sombra e longe das vistas dos adultos. Foi ali que Zé inventou de brincar de dar injeção na periquita. Convencemos Tina a mostrar a dela e começamos a meter o dedo, curiosos para saber como era aquilo. Mostramos também a nossa coisa excitada que ela pegava e pesava, sentindo o porte de cada um. Até que lá da calçada, a voz de mamãe parecendo adivinhar:

Onde vocês estão, venham pra cá!

(Eu não sabia quem era. Mas descobri que era um safado pecador, um sujo, impuro, quando estava sozinho ou em bando, escondido nos matos para olhar as coxas das lavadeiras na beira do rio.)

Naqueles anos aprendi que o Brasil era o país do futuro e Getúlio era o Presidente. Mais importante que isso eram as chuvas, a produção da roça, a casa de farinha, a tarrafa nova pra pescar tainhas na semana santa, nascimento de menino novo, desfile de 7 de Setembro, batismos e casamentos, a missa do galo na noite de Natal, todos vestindo roupas novas e agitados com os brinquedos e guloseimas do parque de diversões, que pouco antes da meia noite, ficava deserto com os barquinhos parados e os cavalinhos do carrossel descansando, enquanto todos se aglomeravam diante da igreja para assistir à missa campal sentindo-se irmãos e filhos do mesmo grande pai daquele menino Deus.


No Brasil, a virtude, quando existe, é heroica, porque tem que lutar com a opinião e o governo.

– José Bonifácio

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