Conheça os efeitos resultantes do bombardeio da atmosfera terrestre por resíduos radioativos e sua ligação com o aumento de casos de câncer

Contexto Geopolítico

Com o fim da Segunda Guerra Mundial e a rendição incondicional dos japoneses em Setembro de 1945, após o lançamento de duas bombas atômicas em duas de suas cidades em Agosto pelos americanos naquele mesmo ano. O mundo foi jogado em um contexto geopolítico de suspense.

Era o início da Guerra Fria, com a divisão dos países entre as forças alinhadas aos Estados Unidos (OTAN – Organização do Tratado do Atlântico Norte) e aos países alinhados a União Soviética (Pacto de Varsóvia). Ambos os blocos começaram a criar um arsenal de armas nucleares para proteger seus interesses nessa nova rodada na busca pela hegemonia global. Mas essa corrida armamentista teria um preço a ser pago pelas suas próprias populações civis, que se tornariam vítimas da forma mais letal de defesa nacional: as armas nucleares.

Os Testes

Experiência “Trinity”, primeiro teste nuclear da história.

O primeiro teste nuclear da história foi realizado pelos Estados Unidos em 16 de Julho de 1945 no Novo México (EUA), a experiência “Trinity” realizada pelo Projeto Manhattan. Somente em 29 de Agosto de 1949, a União Soviética tornou-se oficialmente a segunda “nação atômica” quando detonou sua primeira arma nuclear em um teste no Cazaquistão.

Diferentes tipos de testes nucleares: (1) teste atmosférico (2) teste subterrâneo (3) teste atmosférico superior e (4) teste subaquático.

Entre 1945 e 1980, o governo americano, soviético, do Reino Unido e da França explodiram 510 megatons de armamento nuclear no subsolo, sob a água e na atmosfera inferior e superior. Destes, 428 megatons – o equivalente a 29.000 bombas do tamanho das lançadas sobre Hiroshima, no Japão, no final da Segunda Guerra Mundial – foram ao ar livre, e a maior concentração de testes ocorreu no final dos anos 1950 e início dos 1960. Por conta disso, as condições atmosféricas e climáticas de 1962-64 eram excepcionais e é improvável que se repitam.

Os testes também foram realizados a bordo de barcaças, no topo de torres, suspensas em balões, na superfície da Terra, a mais de 600 metros debaixo d’água e mais de 200 metros abaixo do solo. Bombas de teste nuclear também foram lançadas por aeronaves e lançadas por foguetes até 320 km na atmosfera. Pelos EUA foram 1054 testes, URSS; 715, França; 210, China e UK; 45, Índia, Paquistão e Coreia do Norte; 6.

Las Vegas! A “Atomic City” (Cidade Atômica)

Vista dos Testes Nucleares a partir de Las Vegas (Nevada).

De 1951 a 1963, os EUA testaram armas nucleares acima do solo no estado de Nevada. A Área de Testes de Nevada (3.500 km²) expuseram milhões de americanos a grandes quantidades de iodo radioativo, um componente da precipitação radioativa que pode afetar a glândula tireoide.

A liberação desse material tóxico foi 10 vezes maior que a causada pela explosão de Chernobyl na Ucrânia em 1986 pelos soviéticos. Principalmente nas crianças, que possuem uma glândula inferior. Outras faixas etárias que viviam em áreas a favor do vento estavam começando a desenvolver leucemia. Leite, frutas, grãos e carne de gado foram igualmente expostos. Diz o instituto americano nacional do câncer.

Fotógrafos e repórteres se reúnem na Área de Testes de Nevada para observar o teste nuclear de ”Priscilla”, 24 de Junho de 1957.

Las Vegas é a cidade mais populosa e mais densamente povoada de Nevada, mas só foi informada dos testes duas semanas antes da primeira detonação. Embora alguns moradores estivessem preocupados com os possíveis perigos de tal atividade nas proximidades, uma grande campanha publicitária suprimiu muitas de suas dúvidas. O ”espetáculo” atraiu curiosos de todo o país.

Las Vegas aproveitou a proximidade do local já que os testes atmosféricos podiam ser vistos a até 160 quilômetros de distância. Isso levou ao aumento do turismo na cidade ao longo dos anos 1950 e início dos anos 1960.

Turismo Atômico: O que acontece em Vegas, fica em Vegas! (inclusive a radiação)

Visitantes de Las Vegas observam uma nuvem em forma de cogumelo de um teste a apenas 100 quilômetros de distância (1955).

Por doze anos, uma média de uma bomba a cada três semanas foi detonada, em um total de 235 bombas. Os flashes das explosões foram tão poderosos que poderiam ser vistos de lugares distantes como Montana.

Os cientistas afirmaram que os efeitos nocivos da radiação teriam se dissipado e sido inofensivos assim que as ondas de choque atingissem Las Vegas, e eles agendaram testes para coincidir com os padrões climáticos que explodiram para longe da cidade. No entanto, conforme os testes continuaram, pessoas no nordeste de Nevada e no sul de Utah começaram a reclamar que seus animais de estimação e rebanhos estavam sofrendo de queimaduras por partículas e outras doenças.

Uma família de manequins em uma cidade falsa (nuketown) na área de teste nuclear para entender melhor a explosão e seus efeitos térmicos em um conglomerado urbano.

Um excesso significativo de mortes por leucemia ocorreu em crianças de até 14 anos de idade que moravam em Utah entre 1959 e 1967. Esse excesso se concentrou em crianças nascidas entre 1951 e 1958, sendo mais pronunciado naquelas residentes em condados que receberam alta precipitação radioativa. Aumentos marcados em cânceres como leucemia, linfoma, câncer de tireoide, câncer de mama, melanoma, câncer ósseo, tumores cerebrais e cânceres do trato gastrointestinal foram relatados de meados da década de 1950 a 1980.

Uma solução tardia

Doses per capita na tireoide dos americanos de Iodo-131 resultantes de todas as rotas de exposição de todos os testes nucleares atmosféricos conduzidos em Nevada.

Os testes nucleares atmosféricos causaram preocupação com os potenciais efeitos à saúde do público e perigos ambientais, devido à precipitação nuclear. Como resultado, o último teste atmosférico ocorreu em 17 de julho de 1962.

Em 5 de agosto de 1963, o presidente Kennedy, junto com o Reino Unido e a União Soviética, assinou o Tratado de Interdição Parcial de Ensaios Nucleares. Isso proibiu testes de armas nucleares e explosões nucleares subaquáticas, no espaço sideral e na atmosfera. O teste subterrâneo ainda era permitido se nenhum entulho caísse fora dos limites da nação que está realizando o teste, então esse teste continuou em Nevada e em outros lugares do mundo pelos anos seguintes.

As Vítimas Globais

Bem próximos, cineastas do Governo Americano documentam a explosão de uma bomba atômica no local de teste em Nevada (1957).

De acordo com o Relatório de 2000 do Comitê Científico das Nações Unidas sobre os Efeitos da Radiação Atômica para a Assembleia Geral da ONU, a exposição à radiação pode danificar células vivas, matando algumas e modificando outras. A destruição de um número suficiente de células infligirá danos perceptíveis aos órgãos que podem resultar em morte. Se as células alteradas não forem reparadas, a modificação resultante será transmitida a outras células e pode levar ao câncer. As células modificadas que transmitem informações hereditárias aos descendentes do indivíduo exposto podem causar distúrbios hereditários.

Os testes de armas nucleares atmosféricas quase dobraram a concentração de 14 C radioativo no Hemisfério Norte, antes que os níveis diminuíssem lentamente após o Tratado de Interdição Parcial de Ensaios Nucleares (1963).

É difícil avaliar o número de mortes que podem ser atribuídas à exposição à radiação em testes nucleares. Os números variam.

Uma nova pesquisa sugere que o custo oculto de desenvolver armas nucleares foi muito maior do que as estimativas anteriores, com precipitação radioativa responsável por 340.000 a 690.000 mortes de americanos de 1951 a 1973. Um estudo de 1991 pelos ”Médicos Internacionais para a Prevenção da Guerra Nuclear” (IPPNW) estimou que a radiação e os materiais radioativos dos testes atmosféricos recebidos pelas pessoas até o ano 2000 causariam 430.000 mortes por câncer, algumas das quais já haviam ocorrido na época em que os resultados foram publicados. O estudo previu que cerca de 2,4 milhões de pessoas poderiam morrer de câncer como resultado de testes atmosféricos.

Milhões expostos à precipitação radioativa provavelmente sofrem de doenças relacionadas a esses testes até hoje. Os efeitos prolongados desses testes permanecem tão silenciosos e problemáticos quanto os próprios isótopos.

Referência

U.S. Atomic Tests in 50’s Exposed Millions to Risk, New York Times, acessado pela última vez em 29 de Maio de 2021 – https://www.nytimes.com/1997/07/29/us/us-atomic-tests-in-50-s-exposed-millions-to-risk.html

General overview of the effects of nuclear testing, Comprehensive Nuclear-Test-Ban Treaty (CTBT), acessado pela última vez em 29 de Maio de 2021 – https://www.ctbto.org/nuclear-testing/the-effects-of-nuclear-testing/general-overview-of-theeffects-of-nuclear-testing/

US nuclear tests killed far more civilians than we knew, QUARTZ, acessado pela última vez em 29 de Maio de 2021 – https://qz.com/1163140/us-nuclear-tests-killed-american-civilians-on-a-scale-comparable-to-hiroshima-and-nagasaki/


“Agora eu me torno a Morte, a destruidora de Mundos.”

Robert Oppenheimer, físico que dirigiu o Projeto Manhattan para o desenvolvimento da bomba atômica, citando ”Bhagavad Gita”.

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