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terça-feira, 21 setembro, 2021

“Pra glória de Deus”, meus irmãos, a resenha de “Um Milagre em Paraisópolis”, romance de estreia do Fábio Gonçalves

Revista Mensal
Vitor Marcolinhttps://lletrasvirtuais.blogspot.com/
Apenas mais um dos milhares de alunos do COF. Non nobis Domine.

Conheci o Fábio Gonçalves há quatro anos quando, através de um amigo em comum, fui convidado a integrar um grupo de estudos na Av. Paulista, os Saquaremas, uma dessas confrarias onde só se reúne gente boa e nas quais de tudo se discute; uma congregação de entusiastas dos estudos da Filosofia, História, Literatura, Política e de tutti quanti têm o potencial de atrair mentes e corações sedentos de conhecimento e inconformados com o estado de coisas circundante. Nessa confraria, não só os temas ordinários de uma lista de categorias do conhecimento humano entravam em debate, mas também o status quo da política do país. Me tornei membro dos Saquaremas e, com o passar do tempo, notei que a liga das discussões, a tônica dos debates era uma preocupação com as questões mais urgentes não só da política, mas da cultura do nosso país. O Brasil padece de um mal e esse mal se revela na baixeza das disposições do espírito dos brasileiros: a miséria intelectual, as ideologias, o desdém pela cultura, o desprezo pelo conhecimento, o desamor à verdade. Nós líamos e comentávamos sobre nossas leituras. Em algumas ocasiões, convidados ilustres honravam aquele grupo de estudos com suas visitas, noutras os próprios membros do grupo conduziam os debates, trazendo o tema da vez.

Os Saquaremas, na verdade, era a designação de dois grupos de pessoas: os confrades, que se reuniam semanalmente para as discussões filosóficas e os jovens estudantes que participavam de um projeto caritativo promovido pelos confrades. Havia, portanto, a Confraria Saquarema e o Projeto Saquarema. Neste, os adolescentes estudavam sob uma metodologia muito semelhante a de um curso pré-vestibular, mas com uma diferença: não havia enviesamento ideológico, de maneira que os alunos, aspirantes a universitários, preparavam-se para o canino ambiente acadêmico através de um crivo limpo. Por exemplo, nas aulas de História do cursinho, o pano de fundo interpretativo dos fatos não era preenchido pela dialética marxista da permanente luta de classes. Não. E, nas aulas de Língua Portuguesa e de Literatura, os parâmetros de análise das grandes obras da Literatura Universal presavam a objetividade da condição humana expressa na realidade, não o relativismo extremado que dissolve tudo, inclusive, claro, a própria linguagem. Em uma certa ocasião, numa manhã de sábado, cheguei atrasado, esbaforido de caminhar a passos largos desde a estação Brigadeiro até o prédio onde a reunião acontecia. Depois de subir até o andar das salas, saí do elevador e entrei no pequeno hall onde me sentei. Tirei do bolso da camisa um lenço de papel com o qual enxuguei generosas camadas de suor da fronte. De súbito, ouvi uma voz familiar que provinha de uma sala nas adjacências do hall. Uma voz de homem dizia coisas sobre Literatura. Eu ouvia fragmentos do discurso curioso para saber quem os proferia: “(…) nós temos que prestar atenção às referências da Literatura na realidade (…)”. Era o professor Rodrigo Gurgel que fora convidado, naquele dia, para falar aos adolescentes.

A mente por trás desse projeto era o Rodrigo Morais, grande amigo com quem tive a infelicidade de conviver tão pouco. Para consolidar o projeto, o Rodrigo recebeu a ajuda de alguns outros corajosos, dentre os quais, o Fábio e sua esposa Ana. Demandava-se a boa vontade de voluntários para somar forças; o Rodrigo precisava de professores. Os debates e exposições filosóficas dos confrades aconteciam numa sala e as aulas para os adolescentes do Projeto Saquarema, noutra. Muitos dos amigos que falavam de Filosofia, História, Literatura ou qualquer outro tema na Confraria, geralmente expunham o mesmo tema para os jovens estudantes no Projeto Saquarema. Se me lembro bem, o Fábio lecionava Redação e História para os adolescentes. “(…) um shudra é alguém que está na base da hierarquia (…)”, o ouvi dizer quando cheguei para mais uma reunião. Nesse dia na Confraria, estava em exposição um interessante sistema hierárquico decorrente das antigas filosofias orientais, no qual o topo era ocupado pelo sábio, seguido, numa visão descendente, do sacerdote, do guerreiro, do trabalhador e do shudra, a mais baixa e simplória das criaturas. “(…) você nota que o shudra é o cara que está mais próximo da terra, até o seu jeito de andar é curvado, meio corcunda (…)”, disse o Rodrigo Morais, completando o raciocínio da exposição.

Um amigo que ajudava na prospecção de convidados para palestrar era o Roberto Lacerda Barricelli, sua disposição era tamanha que, em algumas ocasiões, ele tirava do próprio bolso os custos com o transporte dos convidados. Dos convidados ilustres que aceitaram o convite para palestrar na Confraria Saquarema, recordo-me bem do Cabo Anselmo, do Iskandar Riachi — recentemente falecido ele fora o líder da Liga Cristã Mundial e porta-voz dos cristãos perseguidos no Oriente Médio –, do editor Márcio Scansani, dos candidatos a cargos políticos — destes, houve uma que, inclusive, elegeu-se à deputada por São Paulo, uma mulher muito bem articulada que impressionou a todos com a sua história, ela protagonizou a “prezada” do “Prezada, não estou à venda“. Por fim, até artes marciais se praticava ali. Era noite de sábado quando cheguei em casa com o braço roxo e inchado, eu havia apanhado do Rodrigo Morais, mas, claro, também revidei e tenho certeza de que o baixinho, por seu turno, foi para casa roxo e dorido. A título de despertar a percepção da autodefesa nos membros da Confraria Saquarema, o pessoal de uma sinagoga de São Paulo fora convidado para nos ensinar a arte da guerra na prática. Um dia, participei de um treinamento que simulava o ataque a uma igreja. Tempos depois, alguns membros da Confraria foram voluntários para cuidar da segurança numa celebração popular na paróquia de Santa Generosa, na Vila Mariana. Nós aprendíamos Krav Magá, arte marcial eficiente pela sua versatilidade de técnicas de defesa e de ataque. Enfim, este fora o ambiente no qual, há quatro anos, eu conheci o Fábio Gonçalves.

Eu não conhecia o talento literário do Fábio até ler o seu “Um Milagre em Paraisópolis“, grata surpresa! A história começa por nos apresentar ao “Bíblia“, personagem central da narrativa, o elo de ligação que concatena todos os elementos da trama, o típico brasileiro pobre do sertão. Mas, o “Bíblia” só recebe esta alcunha quando, já em São Paulo, decide abandonar as coisas do mundo e voltar-se para as coisas de Deus. Será? O Fábio deixa claro, tanto pelo estilo, quanto pela construção dos personagens, que ele, autor, é um homem lido; com um terço da vida completos, ele já tem alguma bagagem cultural para se valer. É impossível não sentir a presença de Dostoiévski ou do nosso Machado enquanto se vive a novela. Na sua narrativa, há também a presença de outro elemento característico de forma e de substância: a Bíblia. O livro sagrado é a síntese de todos os gêneros literários, os grandes ornamentos da Literatura do Ocidente bem sabiam disto quando se valeram dela para compor as cenas mais belas, profundas e tocantes de suas obras. “Os olhos do Senhor estão sobre nós“. É perante a Onisciência Divina que os personagens são instados a comparecer e este vocativo constante é a tônica permanente da trama. O falso moralismo é rompido pela força de uma confissão sincera, pela busca verdadeira da consciência individual pelo perdão, pela redenção da alma. E é na triste figura do Pr. Josenildo, cognominado o “Bíblia“, que esta busca é consumada através de uma contrição perfeita.

Para quem vive nos grandes centros urbanos do Brasil, a figura do “Bíblia” não é estranha. Ele é simplesmente um converso à fé cristã ou, pelo menos, a uma modalidade desta para a qual ele dá uma interpretação que, via de regra, é feita à revelia da tradição milenar da religião. O “Bíblia” é um típico protestante de denominação nova, um crente que frequenta assiduamente a igrejinha do bairro. Antes, um ébrio desbocado, um beberrão obsceno, um mentiroso engenhoso e contumaz, agora, converso dos seus maus caminhos, um homem transformado, uma “nova criatura“. Quem operou o milagre? Um homem, um daqueles irmãozinhos que, com insistência heroica, vive a levar as Boas-Novas do Evangelho aos corações desesperançados. Ante à força retórica do irmãozinho, Josenildo capitula, torna-se ele mesmo um crente. A vida do Josenildo efetivamente muda, seus hábitos cotidianos ganham a robustez da nova carga moral que o homem decide carregar e, a reboque, sobe-lhe à mente novo crivo de juízo: o homem torna-se um fariseu. Um hipócrita. E é aqui que os problemas começam a aparecer. Josenildo torna-se pastor. E, para seguir na condução do seu aprisco, o homem tem que aceitar um desafio.

Para esses migrantes do Norte a lida nas férteis terras do sul exige do indivíduo coragem, exige que ele se fie com maior devoção nos valores que aprendeu na sua terra natal, nos princípios de conduta que seus pais lhe ensinaram. Quando Josenildo fora convidado para ser pastor, teve que decidir fazer o que jamais imaginara, ele tornou-se a personificação do dilema moral. Aqui, ouvimos os ecos da voz do escritor russo Dostoiévski falando através do brasileiro Fábio. A ambientação da novela está explicitada no título, a segunda maior favela da cidade de São Paulo, Paraisópolis, é, objetivamente, a síntese do descaso da “mãe gentil” pelos seus filhos pobres. Descaso este que pode ser rastreado até o fin du siècle, na passagem do Império para a República. A displicência desta para com os seus, como a História comprova, é a sua característica mais notável, a República é uma obra de iniqüidade. A ordem presente na disposição dos elementos externos, na estrutura urbana que deveria refletir o arranjo da ordem cosmológica, implica na boa disposição da ordem interior, no mundo interior do indivíduo. Os habitantes de Paraisópolis padecem de um mal: Apeirokalia, a falta da experiência das coisas belas. O Paraíso fora perdido para sempre, resta agora uma massa amorfa de habitações capengas nas quais os homens, cativos do pecado original, lutam para fazer de suas vidas uma permanência suportável na esfera da temporalidade.

O dilema moral no qual o Rev. Josenildo se vê enlaçado é o cerne da trama, o ponto nevrálgico do qual todas as consequências decorrem. Todas. Na desfigurada Paraisópolis, onde sua família fincou raízes, as consequências das ações de cada membro do clã decorrem unicamente da decisão errada do patriarca: aceitar cooperar com uma organização criminosa que tem como objetivo estuprar mulheres e que se vale das práticas ritualísticas das igrejinhas neopentecostais espalhadas por vários lugares para essa finalidade pérfida. Josenildo aceitou participar não por ser um louco tarado, mas por que precisava de dinheiro. Sua perversão ganhou corpo depois, na exata medida em que conquistava o domínio das práticas com o seu aprisco de pobres ovelhas submissas. O nome fantasia da organização criminosa é “Igreja do Dia do Juízo“, local no qual as práticas hediondas, sob a suposta autoridade divina, ganhavam normatividade. Os rituais neopentecostais, que são práticas estranhíssimas que misturam glossolalia com movimentos bruscos do corpo, conferiam aos abusos do Pr. Josenildo uma autoridade psicológica inquestionável sobre as pobres consciências femininas. “Isso só funciona com as mulheres, varão“, disse o responsável por cooptar o Josenildo, “se você tentar fazer isso com homens, vai ter problemas“. E lá iam as cordeirinhas, entravam na saleta do pastor enfermas e tristes e saiam curadas e jubilosas, tudo através dos poderes orgásmicos do sacerdote ungido.

Josenildo Ferreira fora uma criança que não teve a experiência de um lar amoroso, não soube o que era afeto, perdeu a mãe ainda criança e do seu pai Laurentino, um “cabra firmeza“, jamais recebeu uma demonstração de carinho. A sua personalidade forjada nos vergões das muitas surras o transformara num homem bruto, não à semelhança do pai, mas pior. Nildo jamais soube demonstrar amor verdadeiro pelos seus filhos. Eram três os filhos de Josenildo com sua esposa Lindalva: Silvana, Saulo e Letícia. A primogênita Silvana, moça recatada, era uma lâmpada apagada na casa do pai; sempre ocupada com os afazeres do lar. Sonhava em encontrar o amor da sua vida, mas consciente de que seus atributos físicos não se comparavam aos da irmã Letícia, se contentava, quase que inconscientemente, em ser prestativa em casa, como se isso fosse uma reação psicológica à sua falta de beleza. Letícia, “moça acaboclada, do cabelo muito liso e muito negro escorrido pelas costas, com rosto de traços finos e sensíveis como sói às mais belas orientais“, era a preferida do pai. Sua beleza atraiu a atenção do Pr. Glauber, uma espécie de sócio superior do Nildo nos negócios dos estupros. Aquele, depois de viuvar, deu início a um plano para derrubar a cachopa da Letícia. Glauber que, desnecessário dizer, também estava envolvido até o pescoço com os crimes, queria casar-se com a filha do sócio, queria receber as bênçãos matrimoniais perante o altar da “Igreja do Dia do Juízo“.

Saulo, o “esquisito”, sempre lendo. É o contraponto da trama, a antítese da narrativa, antagônico de tudo e de todos. Sua visão transcende os limites da fealdade de Paraisópolis, os limites do horizonte da consciência do rapaz estão muito para além do que pode conceber a imaginação dos seus circunscritos. Saulo lê, estuda, reflete, vive metido no quarto, de fronte para o brilho da tela do computador. Seus interesses vão desde Filosofia até Astronomia, desde Literatura até Informática; desde Teologia até Esoterismo, desde Sto. Tomás até Hermes Trismegisto; desde os dilemas morais da condenação e purificação da sociedade até a solução final para todos os problemas. Saulo curou-se da Apeirokalia, ele é o agente qualificado da operação do milagre em Paraisópolis. É ele quem concatena os pontos da realidade e idealiza um plano de vingança. O rapaz é o único que vê a extensão da rede de crimes na qual seus pais estão metidos. Seu plano consiste unicamente em expor para todos os habitantes da comunidade a perfídia daqueles que ele e suas irmãs chamam de pais. Para isso, vale-se de todo o seu talento, de toda a sua inteligência. Através da internet, estabelece contato com um grupo de “radicais” que se arrogam o título de “Os Puros“, uma gangue virtual que apregoa a purificação da raça humana através da morte dos seus maus elementos.

Aqui há outra manifestação de Dostoiévski, o mestre dos dilemas morais. Assim como Raskólnikov delibera sobre a morte de Alena Ivanóvna, a velha usurária, Saulo julga os próprios pais e os sentencia à morte. Por quê? Porque eles são maus, porque praticam o que é reprovável aos olhos de Deus e de toda a boa gente de Paraisópolis, porque usam da mais abjeta falsidade para levar a cabo um projeto maligno, porque aviltam contra as pobres mulheres da igrejinha; porque são péssimos pais. Josenildo e Lindalva não amam verdadeiramente os filhos. Não. Os rebentos são objetos da crueldade e violência constantes do pai e são meios através dos quais a astúcia da mãe se propaga e alcança o seu fim. Lindalva, aliás, é a imagem da frustração encarnada. Suporta as dificuldades da vida à base da permanente expectativa da melhora, de um dia poder ter tudo o que sonhou, nem que para isso certos sacrifícios morais devam ser feitos. Assim o Fábio, leitor também de Machado, dá pistas do seu retrato: “(…) Ninguém pode ser condenado, de pronto, por querer sair da pindaíba, nem muito menos beatificado por querer engordar seus pastos.” E assim foi que Lindalva fez vista grossa aos entraves morais das ações do marido e o apoiou integralmente em sua empreitada. Saulo sabia de tudo. Lindalva poderia ser Lisavieta, a irmã de Alena Ivanóvna, que também fora morta por Raskólnikov porque surgiu no tempo e no espaço errados. Mas, não. O pobre estudante de Paraisópolis fora mais infeliz do que o pobre estudante que vivia nos cortiços de São Petersburgo.

Saulo e o pai Josenildo, partilham das mesmas propensões para o mal. Em Saulo, apesar da pouca idade, elas estão melhor acabadas, mas em potencial. Já em Nildo, o mal é melhor manifesto, sua subsistência e de sua família dependem disto. Se o Pr. Josenildo não aceita entrar para o obscuro mundo do crime ele não pode dar melhores condições de vida para os seus; eles não poderão migrar da fétida Paraisópolis para um lugar melhor, não poderão ser conduzidos para os “campos verdejantes” que abundam nos seus sonhos. A crueldade de Josenildo se apresenta sob duas faces: a do pastor e a do pai. O pai Josenildo é frio, distante e cruel. Jamais chorei ao ler um livro, já tive, sim, os olhos cheios d’água com algumas cenas profundamente tocantes de alguns relatos. A cena na qual Josenildo, possesso de cólera, aplica uma surra memorável na pobre Letícia, foi um destes relatos. Letícia não quer se casar com o sócio do pai o pastor Glauber, então, para amansá-la, o pai a desmonta na pancada. “(…) Daí que o faniquito de Letícia lhe rendeu uma surra bem dada com cinta de couro. (…) A surra foi inesquecível, coisa de apiedar até bandido.” Esta cena se aproxima em forma e em substância do assassinato da pobre Ivanóvna por Raskólnikov. No lugar do machado, contudo, o algoz usou uma cinta, mas mesmo assim Letícia só faltou morrer. E, como pastor, o Nildo exerce exemplarmente a sua falsidade ideológica. Ele tem uma amante, uma “loura no viço“, mocinha oriunda de Curitiba que veio para São Paulo cooptada por Saulo, para somar forças para o dia do “milagre“. Ela é um importante elo de ligação para Saulo durante as suas investigações contra o pai. Mariana é seu nome. Ficou grávida e fora encontrada, “verde, flutuando no rio Pinheiros“.

O ponto alto da trama é o casamento de Letícia com o sócio criminoso do pai no negócio dos estupros o Pr. Glauber, mas o contraponto é o que efetivamente acontece no dia do casamento. Este é o dia que ficará para sempre na memória dos vivos e na consciência das almas que, neste dia, encontraram a morte. Eis que na “Igreja do Dia do Juízo” é chegado o acerto de contas. E as peças estão todas lá, Josenildo, Lindalva, as filhas, o noivo, a comunidade, Saulo. Este, exercendo o papel do agente qualificado, é o rei do palco numa cena tragicômica. O Fábio soube bem preparar o leitor para este momento. Quando estou diante de um livro verdadeiramente interessante, procuro seguir os ensinamentos do meu professor de Filosofia — do qual o Fábio também é aluno — e suspender a minha descrença, “suspension of disbelief“, para experienciar plenamente a condição humana ali exposta, para melhor vivê-la. E eis que dos aparelhos de som da igrejinha ouviram-se os gemidos de um casal em pleno ato sexual, tamanha foi a cena burlesca. Ao fechar das cortinas, o Pr. Josenildo é levado para a prisão.

Ao fim e ao cabo da narrativa, tem-se nova correspondência com o autor de “Crime e Castigo“. Há uma cena na qual Raskólnikov e Sônia estão sentados à roda de uma pequena mesa na casa desta. O assassino se sente esmagado pela culpa e sufocado pela crescente suspeita à sua volta. Sônia lança mão de sua Bíblia que está sobre a mesa e lê para Raskólnikov a passagem em que é relatada a ressurreição de Lázaro, no Evangelho segundo São João, capítulo XI. Josenildo, agora preso, ouve um sermão de um outro pastor, daqueles que visitam as prisões para levar conforto aos corações cativos pela culpa. Este diz: “Nossa alma é como Lázaro. É isso o que o Evangelho de hoje quer nos dizer. Quando pecamos gravemente, nossa alma vai morrendo, vai se fechando num túmulo, e vai apodrecendo, vai ficando fedida. E quanto mais o tempo passa, irmãos, quanto mais esse fedor do nosso pecado, dessa nossa alma morta, vai aumentando, mais envergonhados ficamos e dizemos ao Senhor: já cheira mal, vai embora. Pelo orgulho nos afastamos de Deus, não deixamos Cristo operar suas maravilhas.” E, tal qual Raskólnikov na prisão, Josenildo sente o coração quebrantado, sente que verdadeiramente deve dar espaço para o arrependimento sincero tantas vezes reprimido. E então acontece, o homem arrepende-se e morre. Esta história que o estimado Fábio escreveu é notável, porque nela há a presença de uma tensão moral verdadeira, há a presença de dilemas reais pelos quais nós, brasileiros desta segunda década do século XXI, conhecemos bem.

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