Shakespeare a Cervantes morreram no mesmo dia, mês e ano. Ambos foram precursores de novas possibilidades de expressão no âmbito da literatura

Só um completo insensível às coisas do intelecto — e do espírito — ficaria inerte diante das coincidências da vida. A História está repleta de fatos que, pela sincronia do encadeamento dos acontecimentos, parecem indicar a atuação de forças que estão para além do mensurável. Aceitar a realidade do mistério é um sinal de honestidade, e, mais do que isso, de lucidez também: existem coisas que permanecerão para sempre longe da nossa compreensão.

Espanha e Inglaterra viram os seus maiores escritores morrerem no mesmo dia, mês e ano. A implicância desse fato passaria despercebida aos olhos dos observadores da linha do tempo se, em vida, ambos os literatos não tivessem sido os precursores de novas possibilidades de expressão da condição humana na literatura. Era 23 de abril de 1616.

Nosso Otto Maria Carpeaux, na monumental História da Literatura Ocidental, tece alguns comentários sobre os escritores. Shakespeare, segundo Carpeaux, supera a grandeza dos dramaturgos da sua época; é o maior artista da língua inglesa.

“(…) Shakespeare, se bem que outros o tivessem igualado em dados momentos, é imensamente superior a todos os dramaturgos da época quando se lhe considera a obra em conjunto. É o maior dramaturgo e o maior poeta da língua inglesa. Enquanto a criação de um mundo poético completo for mantida como supremo critério, é Shakespeare superior a Cervantes, Goethe e Dostoiévski; e só Dante participa dessa sua altura. Enquanto Shakespeare, pela liberdade soberana do seu espírito, está mais perto de nós e de todos os tempos futuros do que o maior poeta medieval, é Shakespeare o maior poeta dos tempos modernos e — salvo as limitações do nosso juízo crítico — de todos os tempos”.

— Otto Maria Carpeaux.

Sobre o autor de Don Quijote, Carpeaux salienta que Cervantes é o “autor do romance dos romances“, porque da obra principal do escritor espanhol “deriva o romance realista em que as duras realidades do ambiente se opõem às ideias e atos subjetivos do homem (…)”.

“(…) Na opinião geral, Cervantes é tão exclusivamente o autor do Dom Quixote que autor e obra quase se confundem. Cervantes só parece ter vivido a sua desgraçada vida de soldado, cativo dos mouros e literato pobre para acumular as experiências das quais aquela grande obra é o resumo, o julgamento e a transfiguração. O resto da sua atividade literária parece apenas preparação da obra principal. Ainda no Don Quijote, certos episódios lembram a literatura pastoril que Cervantes enriqueceu com a Galatea, sua obra de estréia. O humorismo algo primitivo, pré-lopiano, dos entremeses, prepara o humorismo superior do romance. Quanto às peças sérias e ao último romance, Persiles y Segismunda, a posteridade condenou-os a um quase esquecimento, porque não se harmonizam bem com a “tese” humorística do Don Quijote”.

— Otto Maria Carpeaux.

Com informações de Carpeaux, Otto Maria. História da Literatura Ocidental, 1ª Edição, 2012, Rio de Janeiro, RJ, Leya Editora.


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