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domingo, 19 setembro, 2021

Os Guardiões do Louvre: uma viagem onírica pela História da Arte

Revista Mensal
Larissa Castelo Branco
Bibliotecária em hiatus que se aventura na escrita, revisora textual, metida a cinéfila e apaixonada por Comunicação e Literatura. Em constante batalha contra a desinformação e a histeria coletiva, aprendeu com a esquerda como um ser humano não deve ser.

Mangá de Jiro Taniguchi adentra o imaginário da Segunda Guerra em Paris, pondo o Louvre no cerne da estória

França, meados da década de 40. Na iminência de uma invasão nazista, Paris, a capital, guarda um dos maiores legados culturais do mundo: O Museu do Louvre. É neste cenário que se descortina o singelo enredo do aclamado mangaká Jiro Taniguchi (1947 – 2017).

Antes mesmo de abrir o mangá, nos lindíssimos traços da capa se percebe o convite de Taniguchi para adentrarmos ao Louvre de forma única. O enredo tem como protagonista um artista japonês que resolve ir a Paris para conhecer a cidade e as obras de arte que ela guarda. Porém seus planos não saem como o esperado e logo ele é acometido por uma severa febre, lhe levando a momentos solitários em uma terra distante, sem família ou amigos.

Sentindo-se melhor da mal estar, ele resolve iniciar seu passeio pelo Museu do Louvre, deixando-se levar pelos seus opulentos corredores, galerias e escadarias. Inicia-se a jornada onírica entre o mundo das Artes e sua história… guiada pelos Guardiões do Louvre, os espíritos que guardam cada peça do museu.

Intercalando sua existência entre breves melhoras e momentos de alucinação, o artista vive uma experiência entre o real e o abstrato, pairando entre dois mundos e passando a interagir com algumas das obras do museu, por exemplo, a Vitória da Samotrácia, sua guia e tutora durante os “passeios”.

Grandes nomes das Artes também se tornam personagens e guias, como Van Gogh e um aflito Antoine de Saint-Exupéry, que se vê em meio a aflições com a possibilidade de evacuação daquelas obras tão importantes que contam a história do mundo.

A obra de Taniguchi nos imerge tanto na História como no mundo das Artes a partir dos delírios do protagonista, revivendo, de forma muito delicada, um período nefasto para a humanidade: a Segunda Guerra Mundial. Também leva o leitor à reflexão sobre a importância da Arte enquanto meio de registro de eventos importantes ocorridos no mundo e o papel de instituições culturais no resguardo de peças que são representações de diversos momentos da História Mundial.

A narrativa fantasiosa nos serve como válvula de escape para não pensar tanto nos horrores da Guerra. Dsde os passeios ao museu à visita a Van Gogh em seu habitat artístico, cada página do mangá é uma reflexão sobre a importância de manter um olhar sensível e contemplativo sobre a relação entre Arte e História.

A sinestesia é um dos principais elementos utilizados por Taniguchi, que constrói nuances sentimentais mescladas com os traços vivos e delicados que ilustram a obra, permeada por recordações e emoções que culminam em um final que muito surpreende.

E quem são os Guardiões?

Os seres que batizam o mangá são os espíritos responsáveis pela memória e pelo patrimônio artístico e cultural produzido no mundo, como se cada peça ganhasse alma e esta fosse um ser orgânico que assiste, com medo do próprio destino, aos eventos ligados à Guerra.

O protagonista não tem nome. Isso mesmo, seu nome nunca é citado, o que remete à ideia de que o leitor pode construir sua identidade a partir da leitura.

Além da exploração artística da obra, são tratados de forma primorosa conflitos pessoais e sentimentos em um processo sensorial construído na interação com o ambiente. Aqui, é possível inserir as reflexões do filósofo Roger Scruton (1944 – 2020) sobre a importância da beleza e o papel da Arte em nossa vidas, que à luz de seus pensamentos tem como principal objetivo produzir a beleza; as coisas belas que afloram nossos sentimentos e nos condiciona enquanto seres humanos. A vida já é permeada por problemas inevitáveis e a Arte é a ponte que nos reconcilia com o que há de melhor em nós, ajudando a nos libertar da feiura do mundo.

A arte gráfica do mangá é uma obra prima, elaborada com cenários e cores que enchem os olhos do leitor. O mangá está disponível para compra no site do Pipoca e Nanquim


Penso que estamos perdendo a beleza e existe o perigo de que, com isso, percamos o sentido da vida.

Roger Scruton

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