“O Sobrinho de Rameau”, obra que fascinou Goethe, Hegel, Engels e Freud, alcançando um status literário-filosófico de destaque na obra de Diderot, representa com maestria o ambiente cultural da Paris do começo da segunda metade do século XVIII

Ao lermos pela primeira vez um texto como O sobrinho de Rameau, publicado em 1762, sentimos certa dificuldade em compreendê-lo, pela distância temporal e pelas referências que o autor faz. Uma vez superado esse obstáculo, conseguimos vislumbrar a Paris da segunda metade do séc. XVIII e acompanhar uma discussão vivíssima sobre as virtudes e os vícios, o papel do filósofo na sociedade e os limites da razão, com muita ironia e um fino senso de humor. Na obra, o filósofo francês Denis Diderot apresenta sua (fictícia) conversa com um personagem insólito e deprimente, sobrinho do célebre músico Jean-Philippe Rameau (1683-1764):

Misto de altivez e de baixeza, de bom senso e desatino. Certamente, as noções de honesto e desonesto devem estar estranhamente embaralhadas em sua cabeça, pois mostra sem ostentação as boas qualidades que a natureza lhe deu, e as más, sem pudor.

Embora possuidor de grande sensibilidade artística e um talento enorme para o canto e para a imitação, ele não se preocupava em trabalhar: tinha orgulho de ser preguiçoso, impertinente, tolo, ignorante, louco, guloso, velhaco, sendo aceito e querido em casas de pessoas abastadas (que talvez se igualassem a ele em frivolidade) pelo simples fato de ser extremamente cômico e irreverente. Para ele, “só o ridículo e a loucura fazem rir”. O sobrinho de Rameau associa felicidade à honra, à riqueza e ao poder – é o que ele deseja para seu próprio filho. Questionado sobre se já tentara desenvolver suas habilidades artísticas e agir de acordo com as noções do senso comum sobre as virtudes, sua visão fatalista o impede de achar que poderia mudar sua maneira de ser.

No entanto, suas atitudes têm o mérito de desmascarar a hipocrisia que atravessa a sociedade de alto a baixo: ao descrever os expedientes de que se utiliza para dar aulas particulares (ou fingir que as dá), chama-os de “idiotismos de ofício”, demonstrando que eles existem em todas as profissões. Embora os profissionais em si mesmos sejam “gente muito honesta”, a conduta deles se afasta da consciência geral em vários pontos e está repleta de idiotismos morais: “Quanto mais antiga a instituição de uma coisa, mais idiotismos terá. Quanto mais desgraçados os tempos, mais os idiotismos se multiplicarão”.

Essa crítica radical à sociedade perturba Diderot. Embora o filósofo faça um belíssimo discurso em defesa dos mais nobres valores morais, da felicidade que os acompanha e da possibilidade de “elevar-se acima do destino”, pouco depois ele reflete gravemente sobre o que estava ouvindo:

Havia em suas palavras muita coisa que pensamos, que dirige nossa conduta, mas que calamos. Na verdade, esta é a diferença mais notável entre meu homem e a maioria de nossa vizinhança. Confessava seus vícios, que são dos outros também, mas não era hipócrita. Não era mais nem menos abominável do que os outros, somente mais franco, mais consequente e por vezes mais profundo em sua depravação.

Não obstante, Diderot se recusa a endossar as ideias do jovem: o filósofo insiste em preservar a integridade da razão, como meio para equacionar os dilemas da condição humana. Embora divertido, o diálogo como um todo tem um sabor amargo, e seu final demonstra bem essa característica:

– Adeus, senhor filósofo. Não é verdade que sou sempre o mesmo?

– Sim, desgraçadamente.

– Que essa desgraça dure pelo menos quarenta anos. Ri melhor que ri por último.


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