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segunda-feira, 20 setembro, 2021

O Homem e a Lei

Revista Mensal
José Anselmo Santos
O autor é cristão, conservador e originário de Sergipe. Em seus 80 anos conviveu com pobres e bilionários, párias e homens notáveis. Autodidata e ávido leitor, na juventude conheceu parte do norte africano e alguns países europeus, coletando as diferenças e similitudes entre os povos e nações. Visitou cenários de guerra e na condição de clandestino político completou suas viagens pela América Latina e Caribe. Entre os anos 71 e 2008, trabalhou como consultor de dezenas de empresas, foi treinador de pessoal, especializou-se em PNL ao nível de Master e desenvolveu programas de liderança empresarial. Depois disso tem-se dedicado a criar textos, documentando suas visões de mundo e transfigurando a memória afetiva.

Quando tudo está contra o Homem, resta a ele reagir ou se submeter

O homem comprou o pedaço de terra com muito esforço. Imaginava poder construir um “abrigo inviolável” para plantar e colher, criar e educar os filhos, envelhecer e morrer com o sentimento de dever cumprido. O único direito que reconhecia era aquele de cultivar uma propriedade e obedecer a ordem ancestral: “Crescei e multiplicai-vos!

Mas a ordem atual disse: “Não pode desmatar, não pode usar a água da mina sem pagar ao Estado, não pode produzir sementes para a lavoura, não pode atrasar no pagamento de impostos… Nem contar com a ajuda dos filhos menores no seu trabalho, nem educar, nem castigar se fizerem mau feito. O Estado os fará cidadãos melhores!“.

Naquele instante pensou que estava sendo qualificado como um cidadão incapaz de cuidar da própria vida e conduzir sua família, contribuir com o exemplo e o mérito na construção do bem comum, uma nação, uma pátria livre.

Aí ouviu a voz do coração: és mesmo uma besta, um idiota pensando que as promessas do Estado são verdadeiras. Pois não trabalhava há tantos anos para manter o Estado?

Ficou por ali pensando numa solução para apaziguar as contradições do espírito. Tomou um café, fumou mais um cigarro, acariciou os cabelos da mulher que colhia verduras na horta com ajuda do filho e foi até o ponto mais alto da propriedade de onde podia avistar o mundo cheio de montanhas.

Sabia que depois das montanhas havia o mar e depois do mar outras terras, tudo vagando no espaço infinito até o mais além. Tudo contido dentro da infinita consciência do Deus que animava sua vida e consolava seu humano coração.

Com o passar do tempo, o filho mais velho, atendendo ao chamado da Lei, foi recrutado pelo serviço militar obrigatório. Mandaram-no para uma missão “de paz” num país africano, lá longe, onde por dever de ofício e treinamento específico, tinha de matar outros moços, em nome da paz. Num entrevero foi atingido mortalmente.

Para o homem restou a amarga lembrança das risadas do filho contando causos e os acordes do violão calado, pendurado na parede ao lado do retrato, como que aguardando a volta do dono, coberto de poeira. Violão e cachorro são bichos que se ligam muito e acabam com a cara dos donos. Carentes dos donos ficam tristes, calados.

O homem recebeu outras porradas: o filho do meio que, entre amigos adolescentes, aprendeu como usar drogas na escola, tornou-se agressivo e um dia qualquer não voltou para casa.

A polícia foi avisada sobre o menor desaparecido. E o delegado falou que bom mesmo era rezar. Teria sorte se o menino fosse encontrado.

Respirou fundo e voltou para a casa. Seus miolos ferviam e as árvores floresciam para alegria da passarada. A mulher estava ocupada com os afazeres e ele começou a andar pela casa, como querendo verificar se todas as coisas estavam no lugar.

Na mesa de estudos da filha estavam os livros e uma caixinha com dizeres: “Saúde sexual”. Abriu a caixa e viu o pênis de borracha enfiado num preservativo. No caderninho impresso e colorido ele começou a ler as instruções sobre o uso de drogas injetáveis, instruções para cheirar cocaína e o aviso: “Isto é segredo seu. Não mostre para seus pais…”

O coração apertado e o amargo que tornava a saliva semelhante a fel, as mãos e as pernas tremendo, chorou e imaginou-se de repente como Davi diante de Golias. Tomou a caixa, os objetos e o caderninho e foi direto para a cozinha onde o fogo de lenha ganhou labaredas coloridas e uma fumaça negra e fedorenta.

Na hora do jantar anunciou a decisão:

– De hoje em diante você não vai mais para a escola. Vou ser seu professor aqui em casa.

– Mas pai… Aquilo é um programa do governo, do ministério da educação, da ONU…

A ONU já matou um irmão seu, o ministério da educação fez o outro sumir e agora quer ensinar a desobediência aos pais, a libertinagem e uso de drogas? Basta! Quer saber de uma coisa? Quero que o governo, o ministério e a ONU vão todos à merda.


O objetivo da educação totalitária nunca foi incutir convicções, mas destruir a capacidade de formar alguma.

– Hannah Arendt

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