19.4 C
São Paulo
quinta-feira, 28 outubro, 2021

MOINHOS DE VENTO

Revista Mensal
José Anselmo Santos
O autor é cristão, conservador e originário de Sergipe. Em seus 80 anos conviveu com pobres e bilionários, párias e homens notáveis. Autodidata e ávido leitor, na juventude conheceu parte do norte africano e alguns países europeus, coletando as diferenças e similitudes entre os povos e nações. Visitou cenários de guerra e na condição de clandestino político completou suas viagens pela América Latina e Caribe. Entre os anos 71 e 2008, trabalhou como consultor de dezenas de empresas, foi treinador de pessoal, especializou-se em PNL ao nível de Master e desenvolveu programas de liderança empresarial. Depois disso tem-se dedicado a criar textos, documentando suas visões de mundo e transfigurando a memória afetiva.

“Então descobriu que de nada adiantava esconder-se no quartel. O poder armado também tinha medo”

Quando deixou o quartel havia descartado alguns princípios incutidos e tidos como verdadeiros. Na vida civil mudou vendo um mundo rico e vário, menos seguro, porém mais divertido. O mundo era diferente do que lhe fora ensinado e exigia escolhas imediatas, desencontradas, com as muitas contradições e enganos sobre o muito que passaria parte da vida dizendo acreditar, defender, valorizar.

No tempo em que era soldado acreditava que no meio da tropa teria amigos e ninguém iria se meter a besta com a farda, armadura para esconder os medos. Então descobriu que de nada adiantava esconder-se no quartel. O poder armado também tinha medo.

As responsabilidades reais eram mínimas e tudo estava mastigado num regulamento burocrático, passível de interpretações oportunas. Bastava cuidar da integridade física dos próximos durante os exercícios e manobras rotineiras. Tudo era direcionado por uma hierarquia insensível, porque numa eventual guerra seria bastante a disciplina automática: ouvir e cumprir a voz de comando para avançar e matar o inimigo. Ou morrer.

Alguns eram fracos expondo sentimentos. Talvez quando batia forte no peito a vontade de superar os limites do medo, aliviar as saudades do aconchego familiar ou acalmar a zoeira da cabeça. Algo misturado com um pouco de ousadia e enfrentamento aos regulamentos áridos, sabidamente essenciais para o cumprimento de missões. O juramento solene fora defender a pátria com a própria vida, se necessário. A pátria era o abrigo de famílias como a dele, trabalhando duramente para dar o de comer e incutir crenças e hábitos para que os filhos, presumiam os pais, sobrevivessem num mundo melhor.

Durante as folgas era comum o sexo com as moças da Rua da Bica. Para alguns apenas um encontro brutal, animalesco ou utilitário como um copo d’agua para matar a sede. Pensar, desejar a responsabilidade familiar nem passava pela cabeça dos viciados no sadomasoquismo, quase marginalizados e, a muito custo, apenas respeitados por suas capacidades e habilidades profissionais.

A rotina era implacável: medo de errar, medo de ser punido. Medo dos que tentavam alcançar promoções custando o que fosse e doendo a quem doesse. Medo dos que tinham crenças e opiniões diferentes… E a certeza de que, do soldo escasso, iriam sobrar uns tostões para atender uma ou outra das prioridades de um rol quase inaccessível: comprar um livro, ir ao teatro…

O bom soldado era aquele que aprimorava a arte de esgrimir a espada em defesa do rei, do homem símbolo de liderança; o bom soldado era o valente e honrado que servia para conduzir a pátria ao primeiro lugar entre todas as outras, nos campos da economia produtiva ou intelectual. Mas ele tinha o defeito de pensar, caraminholar coisas que davam medo, que nem o inimigo, uma entidade quase sem cara, como o diabo escondido em cada esquina, que podia aparecer a qualquer momento com a face monstruosa pintada pelos políticos, aquelas pessoas distantes, viventes de outro mundo, que estabeleciam as regras do certo ou errado e decidiam quanto e quando cada um podia trabalhar, pagar impostos, comer, viver ou morrer.

Depois de um ano, sem dar um tiro, regressou à vida civil, após repetir o juramento solene diante da bandeira, que, se os políticos decidissem fazer uma guerra ele iria matar ou morrer, em defesa de qualquer ideia real ou insana, propagada, incutida pelo Estado.

Foi trabalhar no despacho de cargas, preenchendo milhares de notas fiscais e ganhando calos nos dedos que apertavam a caneta esferográfica. Blocos e mais blocos de faturas com volumes a menor, com mentiras para enganar a fiscalização do governo e lesar os impostos. Para garantir o silêncio havia uma gratificação semanal, muito apreciada pelos que tinham mulher e filhos.

O local do trabalho era no Morro do Santo, num barraco com paredes de madeira compensada e teto de telhas de amianto. O ventilador pendurado acima de sua cabeça lembrava os moinhos de vento, que nem aqueles que aparecem nas gravuras do D. Quixote. Ali, na labuta automática sentia-se, citando Cervantes, como “um estudante ouvindo os próprios pensamentos.”

Todos sabiam que o barraco vizinho era um ponto de comércio de drogas, mas ninguém atinava com o perigo, até que os policiais chegaram armados e invadiram o local. Houve reação dos traficantes e a bala que ninguém esperava, atravessou as paredes e atingindo-o no pescoço. Caiu como debruçado sobre a mesa e viu, como se estivesse suspenso, seu corpo inerte. Viu com os olhos que a terra haveria de comer, tudo quanto ocorria. Viu como os policiais foram chamados para acudir. Levaram o corpo para a ambulância e ele presenciou tudo desde um local silencioso cheio de luz e paz.

Chegou ao hospital, sem vida. Nem apareceu nas manchetes dos jornais. O boletim da ocorrência dava como causa mortis um “ferimento letal de arma de fogo”, sem identificação da origem. Era mais um corpo na estatística da guerra permanente. Mais um crime a ser arquivado sem solução. Adubo voltando ao pó da terra. Alma voando livre para os campos da liberdade. Vida em transformação eterna.


O pesar e o prazer andam tão emparelhados que tanto se desnorteia o triste que desespera quanto o alegre que confia

— Miguel de Cervantes

Gosta de nosso conteúdo? Assine Esmeril, tenha acesso a uma revista de alta cultura e ajude a manter o Esmeril News no ar!

Esmeril Editora e Cultura. Todos os direitos reservados. 2021
- Advertisement -spot_img

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Mais do Autor

Primeiro Ato / Divagações

Estréia da coluna de José Anselmo Santos para a Revista Esmeril.
- Advertisement -spot_img

Artigos Relacionados

- Advertisement -spot_img