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domingo, 5 dezembro, 2021

Loucura e mimesis: entrevista com Fábio Gonçalves

Revista Mensal
Leônidas Pellegrini
Professor, escritor e revisor.

“Estou ainda em busca do tal do estilo. Não tenho um tema, tampouco um tom. Meu vocabulário varia. Ora apelo às metáforas e a outros topos tradicionais, ora vou por construções mais secas e diretas, ao gosto moderno”

O Retrato Doente e outros contos de morte e solidão, novo livro de Fábio Gonçalves lançado em outubro pela Editora Danúbio, bem poderia ter uma palavra a mais em seu título: “loucura” – “contos de morte, loucura e solidão”. Aliás, principalmente loucura.

Saídas todas da observação de nossa realidade imediata, mas consagrando-se à universalidade da grande literatura, as doze histórias ali reunidas (algumas delas tiradas das páginas dos jornais, como o martírio da Professora Heley ou o sacrifício redentor do mendigo noiado na Catedral da Sé) evocam histerias, vícios, paranoias e compulsões de nosso tempo. Sete delas, inclusive, remetem à atual histeria provocada pela pandemia da Covid-19 – mas não constituem panfleto ou militância, como bem observa o autor, que preza em seus escritos por aquela beleza superior e única de que é constituída a grande literatura.

Tais contos são, ainda, loucos – ou esquizofrênicos, como os chama o autor – no que lhes toca o estilo. Escritor assumidamente sem estilo próprio, Fábio vai pintando seus enredos à imitação de outros mestres, como Machado, Rosa e Rodrigues, principalmente, e talvez esteja aí mesmo seu estilo, nessa uma mescla de mimetismos que lhe acaba sendo própria e única.

Sobre loucura, literatura, estilo e mimetismo, entre outras coisas, este não assumido grande prosador de nossa nova literatura fala na entrevista abaixo. Confira, e não deixe de ler seus contos. E lembre-se: o Natal já está aí… 😉

 

Esmeril News: Fábio, em primeiro lugar, fale sobre como nasceu essa sua nova coletânea de contos. Em uma conversa recente que tivemos, você os classificou como “esquizofrênicos”. Por quê?

Fábio Gonçalves: São estilisticamente esquizofrênicos. E isso está totalmente ligado com a origem dos contos.

Reuni nesse volume um punhado de contos que escrevi, um pouco a esmo, nos últimos dois anos e meio. E os escrevei como exercícios literários. Sob certos aspectos, é mais fácil praticar escrevendo contos. Digo sob certos aspectos pois, como o próprio Machado advertiu, o conto não é um gênero fácil, embora muita gente tenha essa ilusão. No entanto, é texto breve, o enredo é enxuto, redondo, vê-se a trama toda de uma lançada de olhos. Daí que seja mais simples, pelo menos para mim, experimentar estilos dentro dessa moldura. E é isso o que estava fazendo com esses contos: experimentando. Eis a causa da esquizofrenia.

Os contos ecoam, ainda que distantes e opacas, as vozes dos autores que ia lendo e imitando. Pois ainda estou nisso: lendo e imitando.

Deriva disso certos contos me saírem à moda Nelson Rodrigues, outros à Machado, outros à Guimarães. Estava lendo os mestres, me deixando impregnar de suas escolhas, de seus cacoetes, de seus sotaques, e tentando, o quanto me era possível, imitá-los. Na cara larga. São contos de imitação.

Mas não vejo nisso total desabono. É treta moderna isso de querer sempre inventar. Mutatis mutandis, Virgílio copiou Homero, Fedro copiou Esopo, Chaucer copiou Boccaccio, Camões copiou Petrarca e também o Virgílio. Os maiores não faziam a menor cerimônia para copiar aqueles que tomassem na conta de mestres. Eu, que não sou besta, vou nessa onda.

Esmeril News: Gostaria que falasse um pouco mais sobe essa questão do estilo. Como você já mencionou, seus novos contos seguem linhas estilísticas diversas e bastante perceptíveis, sobretudo machadianas e roseanas. Mas em sua primeira entrevista comigo, em outubro do ano passado, você dizia estar buscando um estilo próprio. Fale mais sobre isso.

Fábio Gonçalves: Estou ainda em busca do tal do estilo. Não tenho um tema, tampouco um tom. Meu vocabulário varia. Ora apelo às metáforas e a outros topos tradicionais, ora vou por construções mais secas e diretas, ao gosto moderno.

Você citou aí os dois extremos dentre as minhas referências em prosa brasileira: Machado e Guimarães. Por heterodoxo que pareça, gosto dos dois. Mais do Machado, mas também leio com muito gosto e proveito o Rosa. E são estilos inconciliáveis, ao meu juízo. O Rosa praticamente inventou uma língua só dele, com uma prosódia própria, uma cadência. Mas é uma coisa deliciosa de se ler, quando se pega o ritmo, a melodia.

Mas entre um e outro há muitas mais referências: Érico Veríssimo, Nelson Rodrigues, Rachel de Queiroz, José Lins do Rêgo, Bandeira, Drummond.

Vou pegando pedaços de cada para tentar compor uma peça mais minha. Tarefa dura. Tanto mais porque nos falta — digo no plural incluindo colegas de pena com quem converso — mestres e críticos. Mestres que pudessem nos transmitir a técnica, nos corrigindo, se necessário, à palmatória; críticos que, com base em sólidos conceitos e desapegados das paixões, nos julgassem os escritos, indicando que fôssemos por esse caminho, não por aquele, que limpássemos o fraseado, que tratássemos de tal ou tal modo determinado tema.

Estamos escrevendo às cegas, e isso, no meu caso, dificulta esse processo de consolidar o estilo. Mas não tenho pressa.

Esmeril News: Sabemos que a grande literatura fala para todos os tempos, para eternidade, mas que quase sempre parte de realidades imediatas, e dos doze contos do seu livro, sete têm referências mais ou menos incisivas sobre a Covid-19. Nesse sentido, as loucuras e abusos envolvendo a atual pandemia foram o principal mote de sua coletânea? Gostaria que comentasse um pouco sobre isso.

Fábio Gonçalves: Pensei, sim, em circunscrever os contos aos tempos da pandemia, como que para transformar a circunstância no elemento de coesão que não consegui meter no estilo.

Mas a ideia não era fazer da pandemia um tema, um personagem, por assim dizer. E nem quis fazer literatura de protesto, de denúncia. O que tem ali de loucura e abuso foi o que eu vi e vivi. Parti, como você bem disse, da realidade imediata, sem florear muito. Via os guardas metropolitanos, esses pobres-diabos, zunindo o chicote nos trabalhadores, vi governantes abusando da boa-vontade nacional, vi gente boa da cabeça caindo em paranoias, fazendo absurdos. Daí os contos me foram saindo, mas sem uma intensão, como se diz, ideológica. Inclusive, desisti de certas histórias que iam tomando esse caminho.

Não que eu seja contra a literatura de apetite mais reivindicatório. O problema é que tem que ser um Dostoievski para não transformar a coisa num panfleto, em grito de guerra de manifestação dominical. Aí, no meu entender, perde muito o valor artístico. Perde, fatalmente, essa universalidade que você mencionou.

Esmeril News: Com a leitura de seu romance Um Milagre em Paraisópolis e seus contos da atual coletânea, ouso dizer que converso com um dos grandes prosadores da atualidade, do que Diogo Fontana batizou de Nova Literatura Brasileira. A pergunta final que faço é: há mais histórias a caminho, sobretudo contos?

Fábio Gonçalves: Obrigado pela gentileza. Não sei se estou nessas alturas aí, mas não vou me fazer de difícil. Agradeço o elogio.

Sim, há novas histórias. Tenho mais uns contos em mente, que vou escrevendo sem um destino certo. Tenho um romance iniciado, que pretendo retomar no início do ano que vem. E tenho que revisar o romance Peroba, que mandei para o concurso do governo ainda muito cru.

Mas, como disse ao Diogo Fontana, nosso Zé Olympio, pretendo escrever mais devagar. Já senti a emoção de ter livro publicado. Agora quero fazer algo com melhor planejamento e com acabamento mais fino. Vamos ver se saem coisas menos doidas.


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